O homem e televisor velho
A vida é para quem topa qualquer parada.
Não para quem pára em qualquer topada.
Bob Marley
Próximo do apartamento onde eu moro um senhor me pergunta se eu sabia a respeito de um televisor colocado na calçada junto ao portão. Será que jogaram fora? Eu posso levar?Foram as perguntas iniciais daquele homem, um senhor aparentando cerca de 70 anos, pele morena de um marrom castigado pelo sol, enrugada na fronte repleta de sulcos profundos, olhos negros, expressão nítida de trabalhador. Enquanto dialogávamos, observei o modo de falar e trajar simples, ele estava com uma bicicleta e na garupa uma caixa de madeira com ferramentas para jardinagem.
Por não caber lixeira é que o televisor estava no chão da calçada, gerando dúvida no jardineiro. É uma situação em que dar conselhos para os outros é de certo modo cômodo, afinal quem irá arcar com a decisão é quem irá tomá-la. O senhor queria se convencer que não seria furto, eu sou uma pessoa honesta, tudo o que eu tenho é muito pouco mas eu tenho porque trabalhei. Nunca pegaria o que não é meu.
Como ele pediu a minha opinião, examinei o caso e falei a ele, tudo levava a crer que aquele televisor foi mesmo jogado no lixo para o caminhão da coleta levar. Embora ele pudesse concordar, o homem queria ter a certeza e novamente lembrou os seus argumentos. Ouvi-o novamente e então sugeri que tocasse a companhia daquela casa, assim teria a certeza que o televisor foi posto no lixo.
Toca a companhia… E nada. Toca de novo e ninguém atende. Observo que a casa não está com nenhuma janela aberta. O jardineiro fala, não concordo com o ditado, ‘o que é achado não é roubado’. Mesmo que eu não conheça de quem é uma coisa, não me dá o direito de pegá ela pra mim, o senhor não acha?. Concordei com ele e o elogiei pela lição de humildade e honestidade tão autêntica.
Então o senhor terá que esperar alguém da casa chegar e autorizar o senhor levar o televisor. Ele me responde serenamente, É o jeito. Tenho que fazer a coisa certa!. Depois da lacuna curta do silêncio de nós dois, o homem manifesta a sua própria curiosidade, já se imaginando ser o novo dono do televisor: Se jogaram fora é porque a televisão está estragada, tomara que na esteja tudo estragado. Por exemplo, ter imagem mas não ter som, ou ter som e não tem imagem. De qualquer forma vai me servir.
Quem conseguiria estar parcialmente satisfeito ou conformado em assistir tv sem poder ouvi-la? Ou escutá-la sem a imagem? Ao menos aquele homem naquele momento.
Ser sempre honesto não importa quando, como ou onde, eis a preocupação do velho jardineiro, eis a imagem dele diante de mim, ao vivo, nítidos a imagem e o som, a história mostrada em evidência de um Brasil de muitos brasis, de pessoas ricas em sua formação moral, ainda que a honestidade seja um princípio que não assegure a elas comer o pão, porém elas insistem em não desejar comê-lo se não forem dignas de conquistá-lo, mesmo em meio à riqueza do lixo, da catação do que ainda serve para quem procura driblar a pobreza.
Fases de Fazer Frases
No íntimo verdades são nuas, vestidas com mentiras. Pode-se desnudá-las de fato ou na imaginação.
Olhos, Vistos do Cotidiano
O eufemismo também causa eufonia. É o caso da palavra cobrador. Se o eufemismo é o uso de expressões suaves no lugar de expressões pesadas e se a eufonia é o bom som das palavras, eis que alguém substitui a palavra cobrador, como sendo aquele profissional a ser chamado de reabilitador do crédito. Eufemisticamente eufônico: anunciar que se encontra o reabilitador do crédito é bem melhor do que a palavra seca, concisa, direta, dura: cobrador.
Reminiscências em Preto e Branco (I)
O dia de hoje registra o nascimento, em 1884, do médico legista, professor, antropólogo, etnólogo e ensaísta Roquete Pinto. E o dia do Rádio, também comemorado todo 25 de setembro, é uma justa homenagem aquele idealista que colocou para funcionar a primeira rádio no Brasil, em 1922. A Rádio Sociedade do Rio de Janeiro foi dirigida por ele. Posteriormente ela foi doada (1936) ao governo federal e funciona até hoje, denominada Rádio MEC, aliás, conceituada emissora que informa, divulga, valoriza e apóia a cultura brasileira, como o seu pioneiro aspirava.
Reminiscências em Preto e Branco (II)
Certa vez no Programa Anísio Moraes, um cidadão veio nos estúdios da Rádio Colméia de Campo Mourão, ele só conhecia o Anísio pela voz e sem ideia como seria fisicamente o apresentador. Ao conversar com Anísio que deixou o microfone livre, disse o visitante, não vejo a hora de contar pro meu amigo que não veio como é o senhor, Anísio!. E o apresentador perguntou como o ouvinte iria descrever o próprio Anísio, e veio a resposta: Eu vô dizer que o senhor é deste jeito, assim como o senhor está, finalizou, despedindo do Anísio e dos ouvintes do Programa.
