O piano deixando rastro

Com a roupa encharcada de chão 

Todo artista tem de ir aonde o povo está.

Milton Nascimento e Fernando Brant – Nos bailes da vida

 

            Após um dia inteiro de calor intenso, a noite veio com o céu azul tisnado dando sinais que iria chover. A temperadora da última quarta-feira caia, primeiramente com a brisa suave e em seguida ventos trazendo um friozinho saudável. Rapidamente e antes do horário previsto para iniciar o espetáculo, os lugares estavam tomados. A ansiedade do público era mesclada pela aguardada e paciente espera. Existia apenas o temor que a chuva caísse, mas, felizmente para aquele momento, o que caiu foi somente a temperatura

            Além do ar livre, o local tinha um clima de educação e de cultura pulsantes e entrelaçadas, a avenida não tinha carros, ela era para aquela noite, transformada em chão destinado às pessoas é que ali se reuniam. Cercadas por elas mesmas, circundadas pelo prédio da nossa Faculdade de um lado e de outro a Casa da Cultura e o Teatro Municipal, o local da apresentação de Arthur Moreira Lima não poderia ser melhor.

            Um piano pela estrada trouxe a Campo Mourão um dos maiores nomes da nossa Cultura, ele chegou embalado pelos acordes das notas, dos estribilhos, do toque das teclas, como na canção Nos bailes da vida, o pianista veio onde o povo estava, tocou o piano ao mesmo tempo em que tocava numa plateia atenta e vibrante.

            A harmonia do repertório apresentado pelo magnífico pianista, refletia como ritmo harmônico dos presentes, o silêncio naturalmente atento ao ouvi-lo e os aplausos espontâneos em retribuição ao artista.

            E fazendo parte do projeto, Arthur ele se apresentou na Escola Municipal Bento Mossurunga. E não poderia ser a melhor escolha (ou feliz coincidência). O maestro e compositor paranaense nascido em Castro (1879-1970) é o autor do Hino do Paraná feito em 1903 e oficializado em 1947. Bento foi à época importante referência nacional devido a qualidade da música que compunha e executava.

 

Fases de Fazer Frases

         O fim da vida. O fim da estrada. Quando uma acaba, a outra também acaba. Acaba a vida, a estrada termina. Acaba a estrada, a vida finda. Somos estrada percorrida, vida passada pelos passos.

 

Olhos, Vistos do Cotidiano (I)

         O bicampeonato paranaense conquistado pela equipe de basquete mourãoense não foi obra do acaso, sorte ou sem querer. Através da iniciativa de um grupo de entusiastas, o que poderia ser considerado devaneio até bem pouco tempo, agora se concretiza por causa do esforço e dedicação dentro de quadra e fora dela, na estrutura da equipe, dos que fazem muitas cestas de três pontos através do respaldo material e financeiro obtidos.

            Entre outros muitos e importantes aspectos que poderiam ser mencionados, cabe destacar a formação de um grupo organizado que se caracteriza pela competência e determinação, que enfrenta com galhardia os desafios e adversidades, sabe do sonho, conhece agora que é fato, é conquista e a capacidade renovada com mais ousadia para novas conquistas. Aliás, mesmo buscando o apoio do poder público, não ficaram à espera dela comodamente, souberam bem difundir a ideia e os seus frutos na medida em que eles foram amadurecendo. Um exemplo a ser seguido por outras áreas que, mesmo tendo proporcionalmente maior apoio público, têm apresentado resultados pífios, seja por falta de garra e compromisso, seja pelo gerenciamento falho ou nebuloso, muito diferente da correção dos que comando o basquete em nossa cidade.

 

Olhos, Vistos do Cotidiano (II)

         O sempre atento à cultura de um modo geral, particularmente ao nosso vocabulário, Claito Balconi de Macedo, em referência ao publicado aqui na semana passada sobre a iniciativa dos estudantes farolenses de enterrarem simbolicamente a palavra ponhá, Claito lembrou, fico triste em ver que sepultaram o meu verbo, que é muito falado no Rio Grande do Sul. Ele registra que o dicionário do Aurélio inclui o ponha. De fato sim, como falares regionais, classificando como chulos muitas palavras para orientar o leitor que consulte, assim como o sentido figurado e as gírias. Está feito o registro. Aproveitando, primeiramente para enaltecer a contribuição valiosa da cultura gaúcha ao Brasil, os sul-riograndeses são conhecidos por usarem o tu. Entretanto, o emprego erroneamente se constata quanto à concordância verbal, como tu foi embora?, em vez de tu foste embora.

 

Reminiscências em Preto e Branco

             A panela de barro, engenhosidade indígena, cozinha na cozinha o alimento extraído da terra, o gosto da terra a alimentar as pessoas fraternais ao redor da mesa. Roubados deles a terra, a panela infelizmente é mais lembrada como folclore dos índios, do barro que se fazia, esbarrado no tempo da dita civilização que na terra enterra a tradição ignorada.