Partilhar, fazer e ser melhor
Quando os mais importantes momentos estão acontecendo, até não os reconhecemos ou notamos. Nós estamos distraídos vivendo nossas vidas. Apenas quando eles passam percebemos que grandes momentos passaram por nossas vidas.
Federico Fellini
Uma criança por causa da felicidade vivida por ela corre de braços abertos para a mãe. Mesmo que não saiba o real motivo, a mãe naturalmente já está pronta e muito feliz com o coração escancarado e radiante para receber e proporcionar o afeto maravilhoso do filho no encontro amoroso.
Além do amor autêntico entre pais e filhos que se inicia antes das crianças nascerem – elas percebem de algum modo, ainda no ventre, que já são amadas – existe a manifestação do amor através da amizade. Amizade pressupõe afeto, admiração, respeito e cumplicidade mútuos.
Reflito a importância da amizade ao reorganizar os meus livros por causa de uma nova estante. Ao separá-los previamente foi inevitável olhar capas, ler trechos, rememorar datas, dedicatórias. Além de outros importantes benefícios de ler, os livros simbolizam amizades. Para mim nem sempre é muito fácil, para não dizer impossível em certos casos, decidir empresar algum livro, seja tomando a iniciativa ou consentindo diante de algum pedido. Raramente empreso livros. É preciso que a pessoa já seja ou eu possa perceber que ela está se tornando muito especial.
Diante da pilha que fiz dos livros antes de colocá-los na estante, desço a escada com um deles na mão e, sentado no sofá, releio vários trechos que marquei de uma das minhas escritoras favoritas, Lya Luft. Um bom texto que se lê dá sempre a enorme vontade de reler. Ler é descobrir, reler é redescobrir. Medito com os dizeres de Mar de dentro passando a sentir uma enorme e incontida vontade de partilhar aquele livro e, através dele eu próprio manifestar o carinho por alguém ao mesmo tempo em que partilhar a satisfação do conteúdo da Lya.
Mar de dentro não é colocado na estante. Noutro dia entrego o livro diretamente para alguém especial e supor que ela iria gostar de lê-lo. Com as inúmeras recomendações para que fosse bem cuidado, dada à estima que tenho por todos os meus livros, entrego-o para Lucilene de Araújo dizendo, a escritora escreve encantadoramente sobre a alma feminina, você irá se identificar com o texto, embora talvez o livro não venha a acrescentar muito em sua alma e espiritualidade já envolventemente femininas e singulares de beleza que tanto tens.
Como a Lucilene aprecia uma boa leitura, é um dos seus hábitos preferidos, poucos dias depois ela me devolve o livro satisfeita com a leitura e com vontade de conhecer mais a Lya.
Agora poderei guardar o mencionado livro no novo espaço da estante junto com os demais grandes nomes da nossa literatura brasileira. Recordo-me também o quanto estou feliz por ter compartilhado o prazer de uma boa leitura, compartilhado o que é bom com alguém especial.
Descendo a escada após o livro posto sobem do meu coração para a mente as melhores vibrações de uma amizade que sempre procuro prezar da melhor maneira possível, a amizade com a Lucilene, uma figura humana ímpar, extraordinária, personalidade marcante, de gestos generosos, atenta a tudo e a todos. Existem pessoas que brilham iluminadas por outras pessoas. Mas tem aquelas que possuem luz própria, iluminam com o poder mágico da grandeza que brota delas. E a Lucilene tem luz própria que clareia o universo quando estou com ela ou sobre os efeitos dos reflexos cativantes da nossa convivência fraterna que me acalenta, orgulha e me entontece teluricamente.
Ontem foi o aniversário dela (escrevo na sexta) sem fazer a menor ideia do que posso dizer ao cumprimentá-la. Que ela possa ler o meu pensamento por meio do perfume e beleza das flores. E como é difícil presentear com flores um jardim tão belo.
Fases de Fazer Frases (I)
Nada escapa ao pensamento quando existe imaginação.
Fases de Fazer Frases (II)
A mulher tem algo a mais que o homem não desconhece mas não sabe onde está.
Fases de Fazer Frases (III)
O homem não tem algo que a mulher desconheça sem que ela saiba encontrar.
Olhos, Vistos do Cotidiano
Avidamente ouço alguém a comentar não ver a hora de chegar o carnaval. Será para tirar ou colocar máscara. É uma questão de enveredar pelo enredo.
Reminiscências em Preto e Branco
Dia desses, ao desligar o carro e perceber automaticamente a antena baixar, lembrei do meu tempo de guri, das vezes que o meu saudoso pai Eloy Maciel pedia a um de nós para levantar a antena, tempos em que nem se poderia imaginar, por exemplo, a busca automática das estações de rádio. Manual ou automática é a memória quando as reminiscências são saudades presentes do passado antenado.
