Preso no elevador, sem andar
Jamais imaginei que iria acontecer comigo. Foi no sábado passado. Fiquei preso no elevador. A energia acabou. Ele parou entre um andar e outro. Tempo depois e calmamente, toquei o alarme. Som estridente, doía os ouvidos, claro, se é alarme é para chamar a atenção, socorro!
Pouca gente no prédio naquele início de tarde. Acreditei, a falta de luz é momentânea. Já que estava parado e preso no elevador (não colocarei preso dentro do elevador por julgar lógico), ele parado, parado eu estava.
O mundo lá fora e eu lá dentro, por fora dele, do mundo, mas dentro dele, do elevador. Cansado de ficar em pé, resolvi sentar, fecho os olhos e procuro pacientemente esperar. Eu tinha tomado banho, saí para ir ao bar do Chico (em frente ao Pronto Socorro) comprar refrigerante para o almoço. Deixei a carne no fogo, sabia a hora que saí – faltavam 15 minutos para às 13 horas. Ao embarcar de volta é que o elevador parou.
Pensei, se demorar muito, ao menos tenho duas latinhas de refrigerante para beber. Será que poderia arriscar beber? A pergunta fez sentido, pois tomo remédio para combater a hipertensão arterial e ele é diurético, se permanecesse por muito tempo preso no elevador… e não aguentasse… é, poderia mi mijar todo. Existia só um feixe de luz pelo visor. Eu estava sem celular, não poderia ligar para a síndica Geórgia, ela me socorreria. Sem luz, sem celular, sem nada a fazer. Toquei de novo o alarme e por mais tempo. Ouço a voz de alguém ao longe, afirmar, quem é o idiota que tá tocando este alarme feito doido? O idiota aqui fica inibido e não toca mais o alarme.
Espero a volta da energia. O tempo passa. Perdi um pouco a noção do tempo. Escuto o som dos passos dos moradores subindo, descendo pelas escadas. Estava calmo. Eu já tinha sobre o que escrever na semana seguinte, que é hoje, texto sobre o fato de ficar preso. Como seria o final?
O tempo passa. Pior que estar ali e o silêncio, foi a sensação de ninguém poder me socorrer porque eu deixei a possibilidade de lado, confiante que a energia voltaria e eu sairia dali. A minha preocupação fora também por ter deixado a carne assando (prefiro o forno tradicional do fogão ao micro-ondas). A carne poderia queimar, torrar, poderia pegar fogo no apartamento, no prédio, moradores morreriam se não se salvassem mas eu morreria mais rapidamente ainda, por estar preso no elevador! No elevador do prédio onde moro, tem o número do plantão para emergências, mas como estava sem energia, o escuro impedia de ler aquele número. Embora se fosse bem visível, pouco me adiantaria, eu estava sem celular. Aprendi, sem perder a calma e sem ter a paciência o suficiente, o quanto ruim estar numa indesejável e desconfortável situação, e, preso, sentir o elevadíssimo valor da liberdade, sem ela, naquele elevador.
Escuto a voz que diz lá do térreo, a luz só vai voltar as quatro horas. E agora?! Penso eu. Suportaria tanto tempo? E a vontade de ir ao banheiro, que já começava….
Nunca tente sair do elevador, é o alerta fixado em qualquer um deles, o perigo da energia voltar e a pessoa se machucar, ficar mutilada ou morrer, situações possíveis. (Leia o Reminiscências logo abaixo). Uma mórbida coincidência, moro na mesma Rua, a Prefeito Devete de Paula Xavier, onde morreu um conhecido médico que tentou sair do elevador e acabou perdendo a vida, segundo o noticiado. Eu seria o segundo a morrer na mesma rua?
O tempo passa como se não passasse. Levanto e olho atentamente o canto no alto da porta, procurando observar a trava que mantém a porta trancada. Rememoro a advertência para não tentar sair sozinho. Pego o molho de chave, tento destravar mas não dá certo, teria que usar o dedo. Penso, repenso, deveria ser que horas? Resolvo: seguro a sacolinha com refrigerantes, penso na carne queimada… destravo a porta e empurro tão rapidamente quanto salto para fora do elevador! Tudo deu certo. Subo a escada. Fumaça por todo apartamento. A carne apenas começaria a queimar. Corro para o banheiro antes que não desse mais tempo. Depois abro as janelas todas. Ponho o arroz no fogo. Enfim almoço sossegado. Bebo um refrigerante. Tudo estava saboroso. Olho o relógio, são 14: 12. Fiquei quase meia hora preso. Precisamente 27 minutos.
Tendo saído, voltei depois das 16:30. A energia ainda não tinha voltado. Subo as escadas e olho para o elevador parado, imaginando que ainda poderia estar ali dentro… Bem que não! A energia só voltaria depois das 17 horas. Leio a Tribuna sem encontrar nenhum aviso sobre a suspensão de energia para aquela área. A Copel me deve explicações. Se molhasse a bermuda pareceria que entrei em pânico. O medicamento não seria o culpado. É ela mesma, a dona Copel.
Frases de Fazer Frases
O duplo sentido pode gerar o triplo engano sentido.
Olhos, Vistos do Cotidiano (I)
Contagem retroativa iniciada domingo passado, faltam 24 dias para esta Coluna completar o 25º ano de existência: 10 de julho.
Olhos, Vistos do Cotidiano (II)
Sobre o Estive Nólocal (b.d.C) sobre ele o tema ficará para a semana que vem.
Reminiscências em Preto em Branco
Antes de entrar, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar. O erro já foi apontado há muito tempo, mas é atual por continuar sendo repetido. O erro começou na lei que regula o uso do elevador e determina a placa de aviso. Não se deve usar mesmo como pronome pessoal. Textos jornalísticos ou discursos repletos do uso indevido do mesmo. Não faz muitos dias, uma pessoa saudava o homenageado, tendo afirmado: Ele sempre foi cumpridor dos deveres, o mesmo é um exemplo para nós. O correto, para não repetir – no caso de elevador, – basta colocar na placa: Antes de entrar, verifique se ele encontra-se parado neste andar.
Mesmo significa o que é igual, idêntico; semelhante. Assim, mesmo não é o mesmo, e sim algo que se assemelha, mas é outro. Mesmo é sinônimo de: Realmente; precisamente. É empregado como neste exemplo: Você imagina que irei fazer o mesmo?. Mesmo é pronome demonstrativo – verbo vicário – no sentido de fazer.
