A voz da História

Ouvir a voz das ruas, mesmo que com muito atraso, na medida em que era visível o estágio de desencanto dos brasileiros com as ocorrências no país, agora materializadas em protestos diários, é coisa que os governantes deveriam ter percebido de há muito. Afinal eles dispõem de um arsenal de meios de informação,inclusive as pesquisas diárias realizadas por seus marqueteiros. Daí a pergunta: onde estava a equipe de marketing do João Santana, paga a peso de ouro para orientar as posições a serem tomadas pelo governo da presidente Dilma, que não ouviu essas vozes! Por isso soou ridícula a reunião que a presidente fez em São Paulo, logo após um pronunciamento em evento no Palácio do Planalto em que aplaudiuo Brasil por ter amanhecido mais forte depois das reiteradas manifestações populares. Soou falsa a afirmação de que tais manifestações comprovam a energia da nossa democracia, a força da voz da rua (que o governo não conseguia  entender, como afirmou Gilberto Carvalho) e o civismo da nossa população. Para um governo que cooptou um fantástico apoio no Congresso, da maneira que todos sabem, certamente vários  focos das manifestações eram a ele dirigidos, especialmente os que tratavam de corrupção, aumento de verbas para educação e saúde, cujos projetos descansam nas gavetas da Câmara e do Senado. Como bem lembrado numa das frases cantadas nas ruas: Professor vale mais que o Neymar. Em São Paulo Dilma encontrou-se com seu guru, Lula, com o prefeito paulistano e com o referido João Santana, esquecida que frase de efeito que o marqueteiro certamente lançará,  não resolve a manifesta insatisfação nacional. Se os governantes prestassem um pouco mais de atenção à História, certamente lembrariam que, ao invés de ficarem administrando para seus próprios umbigos, deveriam evitar a repetição de uma tomada da Bastilha, provocada pelo que Maria Antonieta ironizava: O povo não tem pão; dê-lhe brioches. No caso do Brasil, dê-lhe estádios.

Homenagem cortada

Curioso é que, a burocracia no Brasil, para liberar recursos que esvaziassem a reivindicação que deu o mote às manifestações, 20 centavos de desconto no transporte coletivo, não acha meios. Para liberar R$ 1,3 bilhão para o elefante branco construído em Brasília, que a Fifa teima em que não mantenha seu nome original de homenagem a um craque que deu glória ao futebol brasileiro e morreu na miséria  (sustentado por Elza Soares), Mané Garrincha, foi fácil.

Acerto político

Como fácil foi oferecer R$ 518 milhões de reais ao governador Cid Gomes, do Ceará,  articulado politicamente com o senador Eunício Oliveira  (que levou o PMDB a apoiar o governo petista) e o deputado petista José Guimarães (irmão do condenado Genoino), para ultimar o primeiro estádio, esvaziando a possibilidade de Eduardo Campos (Pernambuco) e Aécio Neves (Minas) conseguirem esse feito a seus estados. Dilma compareceu à inauguração. Afinal Cid é do PSB, que tenta eliminar a candidatura de Campos à presidência.

Entusiasmo frustrante

Quando o presidente Lula e sua trepidante comitiva, esteve na Europa em 2007, bancada pela CBF de Ricardo Teixeira,  para reivindicar o direito do Brasil sediar a Copa do Mundo, automaticamente a Copa das Confederações e também as Olimpíadas, as manifestações de sua comitiva pela vitória obtida foram eufóricas. Até o povo aplaudiu. Mal sabia este o que vinha pela frente!

Faltou bom senso

A começar pela humilhante submissão às exigências da Fifa, coisa de país de terceiro mundo. Os bilhões de dinheiro público gastos na preparação dos estádios, dentro dos padrões que a entidade gestora do futebol no mundo exigia, num momento em que a crise mundial recomendava bom senso, estão hoje no bojo das manifestações.

Em choque

Uma exigência da Fifa, a de não haver concorrência com os patrocinadores da Copa, não foi cumprida pela ministra Gleisi Hoffmann. Na abertura da Copa ela ficou postada atrás da presidente Dilma, expondo por um bom tempo sua camisa (não oficial) da seleção, patrocinada pelo Banco do Brasil. O banco patrocinador oficial é o Itaú.