Direções opostas

Quando se anunciou o julgamento do mensalão, pelos detentores do poder  apontado como ‘inoportuno’ em função das eleições municipais (por esse critério punição só ocorre em anos ímpares), a informação de que o próprio Lula apoiava a instalação da CPI do Cachoeira como contra-ponto, gerou muitas discussões. De qualquer modo, prevaleceu a decisão do Congresso e a CPI  foi iniciada com grande alarde. A frustração começou com as convocações de Carlinhos Cachoeira, mentor de um esquema de corrupção que envolvia governos e empresas, e outros,  que pela orientação de seus poderosos advogados recomendavam silêncio a seus clientes ante o questionamento dos parlamentares. Enquanto isso, o julgamento do mensalão, do qual pouco se esperava pela tradicional leniência atribuída à Justiça brasileira, prosperava. Pela ação decidida de um relator, cuja atuação passou a ser vista e ouvida (via TV), e admirada por todos (menos, claro, os que torciam pela manutenção do status quo: a impunidade como regra). Enquanto o Supremo, com debates por vezes acalorados cumpria sua missão de condenar e punir (aliviando a situação de  poucos envolvidos como Luiz Gushiken por falta de provas), do outro lado da Praça dos Três Poderes, uma CPI criada por motivos tortos, e extinta por motivos torpes na visão da jornalista Dora Kramer, cumpria seu doloroso papel de mais uma vez produzir uma ‘pizza’. Com um agravante: politizada, armando uma rede de proteção a alguns personagens que sabidamente tinham grandes obras entregues à Delta, empreiteira que chafurdava no atoleiro de negócios suspeitos montados por Cachoeira. A cena  do governador do Rio, Sérgio Cabral e secretários, em companhia do presidente da Delta, numa festança em Paris, era prova comprometedora. Ignorada no relatório final de CPI presidida e relatada por parlamentares da base de apoio do governo. Com o agravante do relator Odair Cunha (PT), sugerir a criação de nova comissão para investigar a empreiteira Delta e suas relações promíscuas. Desmoralizante  para o legislativo!

Contra-senso

A triste ironia nesses episódios: quando o ministro que se notabilizou pelo rigor com que relatou o julgamento do mensalão, deixando a impressão de que daqui para a frente não haverá brasileiros diferenciados perante a lei, assume a presidência do STF, no outro cenário Carlinhos Cachoeira é colocado em liberdade.

Justa mas…

Durante 23 anos não se ouviu falar em mobilizações de funcionários da Copel por melhorias salariais. Tida e havida como das melhores empresas do setor, seus funcionários exibiam o crachá de copelianos com orgulho. A defesa da parte politizada da sociedade evitou inclusive sua privatização. Agora duas paralisações ocorrem. Uma foi nesta quinta-feira e outra prevista para o final de outubro. Inclusive com uma denúncia que merece explicação: enquanto apenas a reposição da inflação é oferecida aos funcionários, a diretoria aumenta seus vencimentos em mais de 40%.

…oportuna?

A dúvida do leitor que não é do ramo, afora a denúncia sobre salário de diretores cujas nomeações obedecem critérios mais políticos que técnicos (técnicos competentes do período anterior estão na geladeira), fica por conta do noticiário econômico que aponta queda fortíssima da cotação das ações de empresas do setor energético, por conta das novas medidas adotadas pelo governo federal (antecipação das renovações de concessões para exploração), visando reduzir os custos da energia ao consumidor. O que também parece não estar contando com a colaboração de São Pedro. Será que é o momento para greves?

Em choque

Assim caminha a humanidade num país cuja democracia, a cada dois decênios muda de rumo (a atual está demorando – 27 anos) por culpa dos que em seu nome, cometem atrocidades jurídicas. Inclusive em cima de uma Constituição, mudada a cada passo, feita pelos que dela se beneficiam.