Campo Mourão pioneira: quando a cidade inteligente deixa de ser discurso e vira método
Reflita comigo… o que distingue uma cidade que apenas promete de uma cidade que realmente entrega? Talvez a resposta esteja menos no tamanho do município e mais na coragem de organizar a própria casa com disciplina, continuidade e leitura honesta da realidade. É por isso que a conquista de Campo Mourão merece atenção nacional. Com cerca de 104 mil habitantes, o município se tornou o primeiro do Brasil nessa faixa populacional a obter a tripla certificação internacional de cidade inteligente, sustentável e resiliente, com base nas normas ISO 37120, ISO 37122 e ISO 37123.
Isso não é um troféu para enfeitar parede. É um sinal de maturidade pública. A certificação concedida pela ABNT, após 12 meses de trabalho de levantamento de 226 indicadores estratégicos, mostra que planejamento, coordenação entre secretarias e acompanhamento técnico podem transformar intenção em evidência. Costumo dizer que uma gestão pública séria não se mede pelo volume do discurso, mas pela capacidade de transformar promessa em prova. E Campo Mourão deu um passo raro… um passo que merece ser compreendido em sua dimensão histórica.
As normas que sustentam essa conquista não falam de moda administrativa. Falam de base. A ISO 37120 mede qualidade de vida e serviços urbanos. A ISO 37122 observa inovação e uso inteligente de tecnologia na gestão. A ISO 37123 avalia resiliência, isto é, a capacidade de prevenir, enfrentar e se recuperar de crises. Juntas, elas criam uma linguagem comum entre município, técnicos, academia e sociedade. Não é sobre parecer moderno. É sobre governar com critério, com comparação, com aprendizado contínuo. E isso muda tudo.
Fico triste quando vejo cidades presas ao círculo vicioso da improvisação… uma decisão aqui, outra ali, muitas ações soltas, pouca memória institucional. Nesse cenário, o planejamento estratégico vira papel esquecido e o resultado real fica distante da população. Campo Mourão ajuda a romper esse ciclo. Ao monitorar indicadores, integrar equipes e construir uma plataforma pública para dar transparência aos dados, o município mostra que gestão por indicadores não é luxo técnico. É ferramenta de responsabilidade. É o caminho para que o governo saiba onde está, para onde vai e o que precisa corrigir.
E há uma lição especial para cidades de médio porte… e, sobretudo, para os pequenos municípios. Nem sempre a transformação exige tecnologia cara. Às vezes, o que falta não é máquina e sistema; é foco e disciplina. Escolher poucos indicadores realmente estratégicos, reunir as equipes em ciclos de acompanhamento, revisar rotas com serenidade e comunicar resultados com transparência… isso cria um círculo virtuoso. Um ciclo em que a liderança deixa de administrar apenas rotinas e passa a construir valor público.
Vale a pena contemplar o que Campo Mourão nos ensina. Quando a gestão pública assume o compromisso de medir, comparar, aprender e corrigir, ela deixa de depender da sorte e passa a depender de método. E método, em política pública, é uma forma concreta de respeito ao cidadão. Porque a qualidade de vida não nasce de slogans. Nasce de continuidade, de planejamento de longo prazo e de uma cultura que compreende que cada indicador representa uma vida, uma rua, uma escola, um serviço, uma esperança.
Se essa conquista for mantida com humildade, consistência e visão de futuro, Campo Mourão poderá se consolidar como referência para o Paraná e para o Brasil. Não apenas como a primeira cidade de seu porte a alcançar essa certificação… mas como prova viva de que governar por dados, com propósito e responsabilidade, é um caminho possível. E, no fundo, é isso que mais importa: transformar a gestão em resultado e o resultado em bem-estar real para as pessoas.
Carlos Facco é administrador, com especialização em Cidades Inteligentes pelo ISAE e Mestre em Administração pela Universidade Positivo

