Carneiro no Buraco: a história do prato que se tornou símbolo de Campo Mourão

Poucos pratos conseguem representar tão bem a identidade de uma cidade quanto o Carneiro no Buraco representa Campo Mourão. Mais do que uma receita, a iguaria é resultado da criatividade, da amizade e da persistência de um grupo de mourãoenses que, há mais de seis décadas, transformou uma experiência culinária em um dos maiores patrimônios culturais do Paraná.

A história começou em 1962. Os amigos Ênio Camargo Queiroz, Joaquim Teodoro de Oliveira e Saul Ferreira Caldas costumavam reunir familiares e amigos para confraternizações. Em uma dessas ocasiões, surgiu uma ideia inspirada em um filme de faroeste americano, no qual os personagens preparavam alimentos em buracos cavados no chão, utilizando o calor da lenha para cozinhar lentamente.

A proposta foi aceita pelo grupo, mas o sucesso não veio de imediato. As primeiras experiências foram marcadas por dificuldades. Na primeira tentativa, o alimento ficou cru. Na segunda, adquiriu forte cheiro de fumaça. Na terceira, terra caiu dentro do tacho durante o preparo. Apenas na quarta tentativa foi possível alcançar um resultado satisfatório.

Também houve diversas experiências com diferentes tipos de carne. Inicialmente foram utilizadas carne bovina, carne suína e carne de cabrito. Nenhuma delas apresentou o sabor e a textura esperados. Somente quando foi utilizada a carne ovina nasceu a receita que se tornaria conhecida como Carneiro no Buraco.

Enquanto Ênio Camargo Queiroz idealizou o preparo inspirado no filme, Joaquim Teodoro de Oliveira e Saul Ferreira Caldas forneceram os animais utilizados nos testes. Coube a Adelaide Teodoro de Oliveira um papel fundamental no aperfeiçoamento da receita. Foi ela quem ajudou a definir a combinação dos temperos, dos legumes e do modo de preparo que deram identidade ao prato.

O resultado foi uma refeição preparada com carne ovina, legumes e condimentos, cozidos lentamente dentro de um tacho com tampa, colocado em um buraco no chão sobre brasas e coberto com terra, formando um verdadeiro forno subterrâneo. Tradicionalmente, o Carneiro no Buraco é servido acompanhado de arroz, almeirão e pirão preparado com o caldo da própria carne e farinha de mandioca.

Durante a década de 1970, o prato começou a ganhar espaço nas confraternizações e eventos comunitários de Campo Mourão. Nesse período, outro personagem tornou-se importante para sua história: Tony Nishimura, que aprendeu a receita diretamente com Adelaide Teodoro de Oliveira e passou a aperfeiçoar a técnica de preparo, tornando-se uma das maiores referências da iguaria.

O reconhecimento do potencial turístico e cultural do prato levou, em 1985, às primeiras discussões para a criação de uma festa oficial. A proposta ganhou força em 1991, quando o Aero Clube de Campo Mourão abraçou a iniciativa. Em 14 de maio daquele ano, a tradicional Boca Maldita também manifestou apoio ao projeto. Havia uma preocupação comum: evitar que a receita fosse apropriada por outros municípios antes que Campo Mourão consolidasse sua autoria.

Poucos meses depois, em julho de 1991, foi realizada a primeira Festa Nacional do Carneiro no Buraco. O evento rapidamente conquistou espaço no calendário regional e passou a atrair milhares de visitantes de diversas partes do Paraná e do Brasil.

Outro passo importante ocorreu em 1995, com a criação da Cozinha Única. Até então, cada barraca preparava o prato de maneira diferente. A centralização do preparo permitiu padronizar a receita, garantindo qualidade e preservando as características que tornaram o Carneiro no Buraco uma referência gastronômica.

Atualmente, a preparação da iguaria é coordenada pela Associação Panela. À frente da equipe está Walter Tonelli, o popular “Peteleco”, responsável por manter viva uma tradição construída ao longo de mais de seis décadas.

O reconhecimento oficial acompanhou essa trajetória. O Carneiro no Buraco tornou-se patrimônio cultural imaterial de Campo Mourão em 2009. Em 2019, a Festa Nacional do Carneiro no Buraco passou a integrar o calendário oficial de eventos turísticos do Estado do Paraná. Finalmente, em 2025, a iguaria foi reconhecida como patrimônio cultural imaterial do Estado do Paraná, consolidando sua importância histórica, cultural e gastronômica.

Hoje, o Carneiro no Buraco ultrapassa os limites da culinária. É um símbolo da criatividade do povo mourãoense, da capacidade de transformar uma simples reunião entre amigos em uma tradição que atravessou gerações. Cada tacho retirado da terra conta um pouco da história de Campo Mourão e reforça o sentimento de pertencimento de uma comunidade que fez da gastronomia um de seus maiores patrimônios.

Jair Elias dos Santos Júnior – Historiador e pesquisador da história de Campo Mourão.