Cultura: economia e desenvolvimento em cena
Falar sobre investimento em cultura ainda causa estranheza para alguns. Em tempos de disputas por prioridades, parece fácil enxergar a cultura como algo que pode ser deixado para depois. Mas quem vive a realidade dos territórios e observa de perto seus desafios, enxerga com clareza os impactos da cultura na economia local e regional. E aqui não falo como gestor ou especialista, mas como formador de opinião que percebe, com convicção, a conexão direta entre cultura e desenvolvimento econômico.
Durante a pandemia da Covid-19, o setor cultural foi um dos mais afetados. Eventos foram cancelados, artistas ficaram sem renda, espaços culturais fecharam as portas. Em muitos casos, a ausência de políticas públicas consistentes quase apagou o que já era frágil. E mesmo assim, foi a arte que nos deu fôlego emocional para seguir: lives, filmes, música, livros. A cultura sobreviveu, reinventou-se, e agora, na retomada da presencialidade, mostra sua força como vetor de geração de renda, de turismo e de pertencimento.
É urgente compreender que cultura não é gasto — é investimento. E dos bons. Segundo dados da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), as atividades criativas e culturais representaram 3,11% do PIB brasileiro em 2020, movimentando R$ 230 bilhões e empregando mais de 7,4 milhões de pessoas. Para se ter uma ideia, o setor automotivo representou apenas 2,1% do PIB nesse mesmo período. Estudos da Fundação Getúlio Vargas mostram que cada R$ 1 investido via Lei de Incentivo à Cultura pode gerar até R$ 1,59 em retorno direto à economia, sem contar o impacto indireto em cadeias produtivas como turismo, gastronomia, comércio, hotelaria e serviços.
Aqui em Campo Mourão, temos um exemplo concreto da força desse setor. A cidade realiza, em média, 50 eventos culturais gratuitos por ano — praticamente um por semana. São apresentações musicais, feiras criativas, exposições, festivais gastronômicos, ações de patrimônio, entre outros. Cada um desses eventos gera empregos temporários, movimenta os bairros, estimula o comércio, atrai visitantes, aquece a economia e, sobretudo, fortalece o sentimento de identidade coletiva. A cultura local não apenas entretém — ela educa, engaja e desenvolve.
E quando falamos de cultura, falamos também de turismo. Em um país com dimensões continentais como o Brasil, o turismo cultural representa uma das maiores oportunidades de desenvolvimento sustentável. De acordo como IPARDES, no Paraná, só em 2021, o turismo movimentou mais de R$ 12 bilhões e gerou quase 69 mil postos de trabalho, mesmo em um ano ainda marcado por restrições sanitárias.
Mas talvez o maior valor da cultura esteja naquilo que não se mede em planilhas: o estímulo ao pensamento crítico, à empatia, à criatividade. Quando investimos em cultura, estamos formando cidadãos mais preparados para enfrentar os desafios do mundo. Crianças e jovens que crescem tendo acesso a música, teatro, literatura, cinema e artes visuais desenvolvem habilidades que transcendem o artístico. Eles se tornam mais sensíveis, mais conscientes, mais capazes de inovar, empreender e construir soluções para problemas complexos. Por isso, valorizar a cultura é também valorizar a educação, a cidadania e o futuro.
É preciso abandonar a visão estreita que trata a cultura como luxo ou como gasto supérfluo. O que os dados mostram, e o que a prática cotidiana comprova, é que investir em cultura dá retorno — em números, em empregos, em autoestima coletiva. Cidades que compreendem isso saem na frente. Que bom que Campo Mourão está entre elas. Que bom seria se essa lógica fosse ampliada para todo o país. Porque quando a cultura pulsa, a economia gira, a comunidade se fortalece e a esperança renasce.
Rosinaldo Nunes Cardoso é Administrador, Especialista em Gestão de Pessoas e Estratégias Competitivas, Mestre em Administração com foco em Empreendedorismo, Inovação e Mercado, e Diretor de Pesquisa e Gestão do IPPLAN – Instituto de Pesquisa e Planejamento de Campo Mourão.

