Campo Mourão

Campo Mourão completa hoje 60 anos da tragédia que mudou a história da cidade

Carro em que estava Roberto Brzezinski colidiu contra um caminhão que transportava bebidas nas proximidades da fazenda Chapadão, em Engenheiro Beltrão.

Uma das maiores tragédias no campo político de Campo Mourão completa 60 anos hoje. Em 21 de setembro de 1959, o prefeito Roberto Brzezinski, eleito em 1955, perdia sua vida em um trágico acidente automobilístico nas proximidades de Engenheiro Beltrão.

Roberto Brzezinski foi o terceiro prefeito eleito pelo voto popular e apoiava para sua sucessão o cartorário Harisson José Borges, do PSD, que havia derrotado o pioneiro Antônio Teodoro de Oliveira na convenção municipal.

A tragédia

Em setembro de 1959 a campanha estava em seus últimos dias. Brzezinski, Borges e o coletor estadual, Alberto Bueno Ribeiro deixaram Campo Mourão com destino a Maringá, onde fariam parte da comitiva do governador Moysés Lupion, que visitava a “Cidade Canção”.

O embate político teve seus momentos de tensões e de conflitos, um deles foi a distribuição de panfletos anônimos e injuriosos. Eles mostravam um mapa, insinuando que o prefeito era proprietário de terras. A distribuição deste material foi creditada a Paulo Poli, adversário de Borges e Brzezinski. A presença do governador era necessária para desmentir a injúria.

A data para desmonte da calúnia havia sido marcada. Terça-feira, 21 de setembro. Roberto Brzezinski, Harrison José Borges e Alberto Burko Ribeiro, coletor estadual, deixaram Campo Mourão com destino a Maringá onde iriam fazer parte da comitiva do governador Moysés Lupion. O governador estava na “Cidade Canção” participando, juntamente com o Ministro da Agricultura, Mário Meneghetti, da solenidade de encerramento da Semana da Árvore. Depois deste compromisso, ele iria visitar Engenheiro Beltrão e Campo Mourão.

Os três deixaram Campo Mourão em veículo Jeep. Chegando a Engenheiro Beltrão, trocaram de veículo e mais dois passageiros seguiram na comitiva. Joaquim Bueno Godoy, prefeito de Engenheiro Beltrão e Aldevino Santigo, candidato à sucessão de Godoy.

A viagem foi interrompida, por volta das 13 horas, no quilômetro três, nas proximidades da fazenda Chapadão. A intensa poeira da estrada Campo Mourão - Maringá fez com que o motorista do carro, Aldevino Santiago, colidisse contra um caminhão que transportava bebidas. O choque se deu no momento que o carro foi ultrapassar um ônibus. Com a poeira, o motorista perdeu a visão do caminhão que vinha no sentido Maringá Mourão.

Os corpos das vítimas foram transportados para Campo Mourão. Somente Joaquim Bueno Godoy e Alberto Burko Ribeiro sobreviveram. Brzezinski, Borges e Santiago morreram no local. O velório teve início na Câmara Municipal, localizada na Rua São Paulo. O pequeno plenário foi transformado em Câmara Ardente. Como não havia caixões na cidade, os corpos foram colocados em cima da mesa de reuniões do Legislativo. Até 1994 era possível ver uma mancha de sangue na fórmica da mesa, descaracterizada quando a Câmara deixou as instalações do Paço Municipal.

Posteriormente, já dentro dos caixões, os corpos foram transferidos para a Igreja São José, por volta das 10h30m, onde ocorreu a missa de corpo presente. O governador Moysés Lupion permaneceu em Engenheiro Beltrão até as primeiras horas da noite de 21 de setembro. Na sequência, dirigiu-se para Campo Mourão, para acompanhar os funerais do prefeito e de Harrison José Borges.

 

Cortejo com os caixões de Brzezinski e Borges, na Avenida Capitão Índio Bandeira

 

Coube a Dirce Nogarolli transmitir a notícia da tragédia à família de Roberto Brzezinski. Com o choque, Tecla Brzezinski não conseguiu participar das exéquias do seu esposo. O sepultamento do prefeito e do candidato a sua sucessão ocorreu por volta das 14 horas e foi acompanhado por milhares de mourãoenses até ao Cemitério Municipal. O caixão de Roberto Brzezinski foi levado por populares, entre eles, o governador Moysés Lupion. A Banda Municipal executou a Marcha Fúnebre durante o sepultamento.

Paulo Fortes, o sucessor

Em 2009, por ocasião da passagem dos 50 anos do acidente, Paulo Vinício Fortes relatou ao jornal Tribuna do Interior, os fatos que fizeram o 21 de setembro de 1959 entrar para a história de Campo Mourão. Presidente da Câmara desde 1955. Paulo Fortes estava visitando uma fazenda em Iretama, juntamente com Delcides Constantino Miguel. Na visita, um funcionário da fazenda, de carro, foi levar a notícia do acidente.

Quando chegou à cidade, Paulo Fortes lembrou que “a comoção já havia tomado conta da população. Lembro dos corpos, ainda sem caixão, sendo velados na Câmara Municipal”.

Logo após o sepultamento, a Câmara se reuniu e o empossou no cargo. Fortes foi prefeito de Campo Mourão até 5 de dezembro do mesmo ano. Seu último ato, ao transmitir o cargo ao prefeito eleito Antônio Teodoro de Oliveira, foi inaugurar o gramado do Estádio Municipal, batizando com o nome do seu construtor, Roberto Brzezinski. Para marcar a inauguração, foi convidado o Atlético Paranaense para jogar com a seleção local. Fortes faleceu em Curitiba, em 25 de setembro de 2010.

Reviravolta na política em Campo Mourão

Com a morte do candidato a prefeito, Harrison José Borges, conhecido popularmente como “Pitico”, o PSD indicou o pioneiro Antônio Teodoro de Oliveira, para a sucessão municipal. Faltavam menos de 10 dias para a eleição. Antônio Teodoro acabou vencendo Paulo Poli.

Harrison José Borges foi favorecido na convenção pelo fato de ser amigo de Guataçara Borba Carneiro (deputado estadual por várias legislaturas e presidente da Assembleia Legislativa. Ocupou a chefia do Poder Executivo duas vezes nas ausências do governador Moysés Lupion, em 1949 e 1959).

Na entrevista ao jornal Tribuna do Interior, em 2009, o advogado Paulo Vinício Fortes revelou que mesmo o candidato a prefeito sendo Harrison José Borges, dificilmente o PSD ganharia aquela eleição. Esta opinião também é compartilhada com outras lideranças da época. Segundo o historiador Jair Elias dos Santos Júnior, “o PSD estava passando por um processo de desgaste político. Tanto que no ano seguinte, Juscelino Kubitschek e Moysés Lupion, líderes do PSD de âmbito nacional e estadual, seriam derrotados. Era a ascensão de Jânio Quadros e Ney Braga no Palácio do Planalto e no Palácio Iguaçu”.

Antônio Teodoro de Oliveira saiu vitorioso nas urnas com 5.937 votos e Paulo Poli, 4.752 votos. 11.443 mourãoenses compareceram às urnas. O ciclo do PSD em Campo Mourão seria encerrado em 1963, com a vitória do advogado Milton Luiz Pereira, que obteve o dobro de votos do seu adversário, Ivo Mário Trombini.

Comoção

“A notícia espalhou-se celeremente. A população atônita esperou emocionada a remoção e posterior velório dos corpos do Prefeito e de Harrison José Borges, afetuosamente apelidado de “Pitico”, titular do cartório e candidato à Prefeitura de Campo Mourão, vítimas no mesmo acidente automobilístico. O velório realizou-se com obsequioso silêncio do povo. A multidão caminhou entristecida para o último adeus, no Cemitério Municipal. Sem dúvidas a comoção pública refletiu o sentimento de respeito aos dois líderes políticos e cidadãos conceituados na comunidade”, conta o ex-prefeito Milton Luiz Pereira. Ele recorda também do “avião do Paulo Poli fazendo voos baixos e jogando pétalas de flores no Cemitério Municipal”.

“Menino ainda, raspei a cabeceira da minha cama com a data do acidente que ceifou a vida de Roberto Brzezinski. Nossa churrascaria ficava junto com a casa por onde transitavam pessoas de toda a região. Criou-se um clima de consternação e restou-me recolher no meu quarto e entristecer-me com a situação, sem entender bem o que estava acontecendo”, lembrou o ex-deputado Namir Piacentini, em 2005, na Assembleia Legislativa, quando o ex-prefeito foi homenageado.

O filho Iran Roberto Brzezinski recorda que o relógio de bolso do seu pai chegou a parar com o choque do acidente. “Parou às 13h30m”. A tragédia causou uma comoção tão grande nos mourãoenses, ao ponto de famílias pioneiras terem fotos do acidente e do velório. Existe relato que um Foto da cidade chegou a vender estas fotografias.

Logo após a morte de Brzezinski, seu nome foi emprestado para substituição da denominação da Rua Curitiba, onde ele residia. O Estádio Municipal também passou a ter seu nome. Foi concedida uma pensão para sua viúva, que anos depois, mudou de Campo Mourão, devido às dificuldades financeiras da família com a morte do seu patriarca. Quando o acidente completou três anos, a vereadora Dúlcia Gomes Delattre chegou a propor que a data fosse feriado municipal e sugeriu que fosse erguido um busto em homenagem ao ex-prefeito na praça por ele edificada.

Homenagens

Roberto Brzezinski teve seu nome emprestado para o Estádio Municipal, de uma rua no centro da cidade e de uma escola em Campina da Lagoa. Em 2005, recebeu, post-mortem, o Título de Cidadão Benemérito do Paraná. E em 2011, por ocasião do centenário de nascimento, foi lançado o livro “Roberto Brzezinski, semeador de esperança”, de autoria do historiador Jair Elias dos Santos Júnior.

Coincidência da história

Em 1974, a cidade perderia outra liderança política: Horácio Amaral, morte em acidente automobilístico, em 7 de agosto daquele ano. Brzezinski e Amaral moraram em Marechal Mallet, foram prefeitos de Campo Mourão e disputaram, sem sucesso, uma vaga na Assembleia Legislativa e ambos morreram com 47 anos de idade.

Roberto Brzezinski e Horácio Amaral, coincidências na vida e na história