Campo Mourão

Contabilista coleciona revista Veja desde 1968 e revela paixão por antiguidades

São tantos exemplares da revista, que Zagotto improvisou uma espécie de biblioteca em casa (Foto: Walter Pereira)

O contabilista de Campo Mourão, José Zagotto, 70 anos, é uma daquelas pessoas que não abre mão de preservar o passado. Ele mantém em sua residência, na chácara Zagotto, no jardim Lar Paraná, vários tipos de coleções de objetos antigos, como máquinas de escrever, discos de LP’s, revistas, entre outros. Mas o que mais chama atenção é a sua imensa coleção de revistas. São vários títulos, como Manchete, O Cruzeiro, e Veja.

Entrar no “puxadinho” construído por Zagotto nos fundos de sua residência exclusivamente para guardar suas revistas é uma verdadeira volta a um passado não muito distante. Nem mesmo ele soube precisar quantas revistas mantém em sua biblioteca improvisada. No entanto, estima que são milhares de exemplares.

Para se ter ideia, ele mantém uma coleção da revista semanal mais influente do Brasil: a Veja, publicada pela Editora Abril, e tem desde o primeiro exemplar do periódico, que foi publicado em 11 de setembro de 1968. Claro que neste percurso ainda faltam alguns exemplares para a coleção completa, mas isso é apenas uma questão de tempo, já que Zagotto está correndo atrás dos que faltam.

A revista Veja de nº1 traz sua capa ilustrada com a foice e o martelo – símbolo ligado ao comunismo, adotado, à época, como sistema de governo pela União Soviética, China e outros países. “A reportagem principal mostrava as dificuldades dos soviéticos em propagar as ideias comunistas e manter sua influência durante a Guerra Fria contra os Estados Unidos, defensor do capitalismo”, descreveu Zagotto.

Naquela época, as páginas amarelas, marca registrada do espaço dedicado a entrevistas, ainda não existiam, mas os temas eram os mesmos tratados até hoje: cotidiano, política, economia e cultura. Os textos eram longos e a maioria das fotos não era colorida. Zagotto comentou que a coleção de Vejas não tem nada a ver com preferência pela revista, mas sim pelo gosto e a paixão por leitura. Segundo ele, a coleção da revista foi feita de forma linear, ou seja, não tem nenhum motivo específico.

O contador explicou que a coleção de revistas começou na década de 60. “Eu colecionava na época quando ainda era ‘molecão’. Tinha matinê no cinema aos domingos, era comum os rapazes levar revistas do “Tio Patinhas”, entre outros gibis para fazer troca. Foi aí que eu comecei a comprar”, recordou.

Ele diz que de 1977 para cá tem todas as edições da Veja. Explicou que na época deixou de comprar alguns exemplares por causa da situação aquisitiva, mas agora está buscando os demais que ainda faltam na coleção. A exemplo, ele adquiriu recentemente um exemplar de 1969. As compras são feitas pela internet e exigem muita pesquisa. Um dos locais que ele sempre adquire é do Museu da Revista. Neste caso, toda compra é combinada por e-mail. O foco é completar toda a coleção.

Dentre os exemplares com maior impacto, segundo Zagotto, está o que a revista traz o primeiro transplante de coração no Brasil, feito na madrugada de 26 de maio de 1968, por Euryclides de Jesus Zerbini, cirurgião do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HC-USP). “Isso revolucionou a medicina”, falou. “O receptor do coração foi um lavrador de 23 anos do Mato Grosso”, lembrou.

Outro tema marcante relatado por Zagotto, trazido nas páginas da Veja, foi a primeira viagem do homem à lua, no dia 20 de julho de 1969. Naquele domingo o comandante Neil Armstrong, de 38 anos, um tímido ex-piloto de testes de aviões americanos, foi o primeiro homem a colocar os pés na lua. Dentre vários outros temas importantes abordados pela revista, o contador citou ainda a Copa do Mundo de 70, transmitida pela primeira vez pela televisão. “O primeiro jogo foi Paraguai e Brasil”, recordou Zagotto. “Infelizmente hoje muitas pessoas dizem que uma revista é supérflua, mas é um terrível engano. A revista é muito útil, assim como o jornal é fonte de informações e forma o senso crítico no cidadão. As pessoas deveriam se interessar mais por leitura”, cobrou Zagotto, que confessou que guarda de tudo um pouco. Para ele, apesar dos avanços com a internet, a melhor leitura é aquela lida no papel.

Colecionador eclético

Zagotto é na verdade um colecionador eclético. Ou seja, guarda de tudo. Saindo do seu “puxadinho”, onde mantém sua biblioteca improvisada, em seu escritório, é possível encontrar quase tudo e mais um pouco, falando sem exageros.

Ele mantém, por exemplo, uma coleção de 28 máquinas de escrever antigas, além de algumas calculadoras nada convencionais. Possui em sua coleção máquinas ainda da década de 50 de marcas como Olivetti; Remington; R.C. Allen; Loxi; Siemag, entre outras. Algumas funcionam perfeitamente até os dias de hoje.

Segundo Zagotto, uma parte dos equipamentos foi utilizada por ele mesmo, no início de sua profissão e outra doada por amigos e conhecidos. “Cada equipamento deste é importante para mim, pois retrata parte da minha história e isso deve ser preservado”, falou.

Outra coleção que chama a atenção aos olhos são seus discos LP’s, invejável aos amantes da boa música popular brasileira. São discos de artistas como Alcione; Martinho da Vila; Chico Buarque; Roberto Carlos; Gilberto Gil; Marílica Barbosa; João Bosco; Manolo Otero; Os incríveis; Elizet Cardoso; Raul Seixas; entre outros. Todos bem conservados e funcionando perfeitamente também.

Além disso, ela guarda ainda outra raridade: uma coleção de discos de vinil da narração de todos os jogos da Copa do Mundo de 1970, sediada no México. Durante a entrevista, Zagotto até colocou os discos para rodar em uma vitrola. “É uma volta ao passado, arrepia o corpo inteiro ao ouvir novamente este momento”, falou ele. Naquela Copa o Brasil foi campeão, contra a Itália, conquistando o título de tricampeão. Carlos Alberto Torres era o capitão da Seleção. “Tempo que não volta mais”, ressaltou Zagotto.

Torcedor fanático do Corinthians, Zagotto
revela frustração por ter votado em Lula

Além de suas antiguidades, o contador José Zagotto conserva uma paixão antiga dentro do peito: o amor pelo time paulista Corinthians. Guarda por exemplo, revistas com títulos do “Timão”, mantém também em seu escritório um quadro com o brasão do clube com os seguintes dizeres: “Eu nunca vou te abandonar porque eu te amo”. Está lá, estampado na parede, para quem quiser ver. Segundo ele, a paixão pelo time vem desde a infância e não tem explicação.

Mas nem só de paixões vive seo Zagotto. Como todo mundo ele também tem suas frustrações. Uma delas, conforme revelou à TRIBUNA, foi o arrependimento de votar no ex-presidente Lula. “Eu votei no Lula. Para mim ele era a esperança da mudança, mas foi uma frustração total, assim como aconteceu com o Aécio Neves. Eu imagina uma coisa, mas o ‘cara’ é um tremendo ladrão. Aí você me pergunta em quem vou votar hoje para presidente. Eu não sei”, desabafou Zagotto.

Com propriedade, ele critica também o poder judiciário. “O Supremo tem três ministros que tomam conta do País. É um AI-5”, disse. O AI-5 (Ato Institucional Número Cinco) foi o quinto de dezessete grandes decretos emitidos pela ditadura militar nos anos que se seguiram ao golpe de estado de 1964 no Brasil. O AI-5, o mais duro de todos os Atos Institucionais, foi emitido pelo presidente Artur da Costa e Silva em 13 de dezembro de 1968. Entre seus reflexos, ele previa o fechamento do Congresso Nacional, passando as funções legislativas ao presidente da República; suspensão dos direitos políticos e das garantias constitucionais; entre outros.

Quem é José Zagotto
Filho de Antonio Zagotto e Angelina Andreolo Zagotto, José Zagotto nasceu no dia 30 de janeiro de 1948, na cidade de Guarantã, no estado de São Paulo. Ele é formado em contabilidade pela Unespar de Campo Mourão em 1982, primeira turma do curso da instituição. Trabalha há mais 36 anos na agropecuária Agua Azul.

Zagotto é casado há 45 anos com Vera Lucia Zagotto e tem cinco filhos: Carla Fabrícia, Carla Fabíola, Carla Fabiana, Carla Fernanda, e Carlo Fabrício e 5 netos. O contabilista guarda três diplomas: o de contador, da primeira turma de Contabilidade da Fecilcam; o de Técnico de Contabilidade, em Foz do Iguaçu, na época servia o Exercito no 1º Batalhão de Fronteira em 1967; e o do 4º ano primário. “Este do primário é o mais importante porque até os doze anos sempre residi na área rural. Em toda a região eu fui o único que se formou no 4º ano primário. Devo isso a minha mãe, que sempre me apoiou”, recordou.

O contador disse que mora na chácara com a família há 30 anos. Segundo ele, adquiriu a área por causa do pai (in memoriam). No local, cultiva palmito, banana, orquídeas, bromélias, entre outras espécies de flores e plantas frutíferas. O espaço parece um pedaço do paraíso dentro da cidade. Quase que diariamente, a família recebe a visita de um velho companheiro: um Tucano, que sempre aparece à procura de comida. “De manhã, quando você levanta e abre a porta da cozinha dá de ‘cara’ com uma variedade enorme de beija flor. Isso da uma paz de espírito na gente e recarrega as energias para o trabalho”, argumentou.

No silêncio do local é possível ainda ouvir o canto do Sabiá Laranjeira e das copas das árvores chacoalhando com o vento. Na chácara Zagotto ninguém vê o tempo passar, por lá, a calmaria e a paz de espírito reinam. José Zagotto que o diga.