Região

Produtora de Araruna vira exemplo para a agroindústria familiar do Paraná

Uma senhora de bem com a vida, exemplo de dedicação e amor ao campo. A professora aposentada Francisca Nunes Alves, 74, mais conhecida como “Tia Chica dos Doces”, apelido dado por ex-alunos, é casada com Vivaldo Silvestre Alves, 78. Há 44 anos, compraram uma área de 1,5 alqueire em Araruna, distante 12 quilômetros de Campo Mourão, para deixar registrada a história do casal. Neste período, a professora aposentada virou uma empreendedora e levou o nome da cidade e da região além das fronteiras do Estado. Além disso, seu negócio, uma agroindústria familiar, virou referência no Paraná.

Chica fabrica os doces em sua agroindústria de sua própria produção, colhida no sítio. A fábrica fica dentro da propriedade. As frutas recebem todo cuidado desde o plantio das mudas até a colheita dos frutos. Toda a produção é acompanhada pelo Instituto Emater, com acompanhamento de engenheiros agrônomos. Os produtos são livres de agrotóxicos. “Tudo que transformamos é da nossa plantação sem agrotóxicos e sem conservantes. A gente leva o cuidado com o meio ambiente e com a alimentação muito a sério. Por isso é tudo feito com muito amor, carinho, e segurança”, garantiu.

As frutas são transformadas por ela em verdadeiras delícias do campo, como doces compotas, geleias, entre outros. Os produtos são comercializados em supermercados de Campo Mourão, Peabiru, Araruna e Engenheiro Beltrão. Por falta de mão de obra as vendas não são ampliadas para outras cidades.

A propriedade do casal, chamada de Chácara Paraíso, se tornou um cartão postal na cidade. Para chegar ao local é preciso passar por um túnel formado por dezenas de árvores. As flores, a pequena cachoeira e o cantar dos pássaros são atrativos à parte, mas o que chama mesmo a atenção é a variedade de frutas cultivadas. Ao todo são 400 pés com mais de 80 variedades como banana, caqui, tangerina, goiaba, ameixa roxa, mamão, entre outras. “A variedade é grande. Todas essas frutas são usadas para produção de doces”, ressaltou Tia Chica.

O pomar está numa área de meio alqueire, dividindo espaço com a plantação de verduras e com a fábrica de doces caseiros e conservas, que produz uma diversificada linha de alimentos. O alqueire restante é destinado a outros plantios. “Grande parte das coisas que precisamos para nossa sobrevivência é produzida na nossa propriedade. Isso vai desde o arroz, o feijão e até mesmo o café. Só vamos ao mercado para comprar o sal, açúcar e o que não produzimos na chácara”, diz.

 

Dona Francisca com o marido Vivaldo e o gerente regional da Emater, Jairo Quadros

 

Tia Chica lembrou que quando começou o projeto da agroindústria, há 16 anos, fabricava apenas doce pastoso de abóbora e mamão, mas que hoje tem 33 produtos diferenciados, entre doces, geleias, conservas, compotas, colorau, temperos, entre outros. “Temos mais ideias vindo por aí”, adiantou. Ela informou que está com um projeto junto a Emater para ampliar a agroindústria. As melhorias serão feitas com recursos do “Pronaf Investimentos”, programa nacional de fortalecimento da agroindústria familiar.

A empreendedora lembrou que desde que iniciou o projeto de sua agroindústria em parceria com o Instituto Emater, sua propriedade foi transformada. “Quando compramos a área não tinha um pé de nada, tinha até chiqueiro de porco na beira de rio. Hoje está toda arborizada e diversificada”, frisou. Ela disse que o sonho de construir uma casa nova também está se realizando após 50 anos morando em uma mesma residência, o que vai tornar a vida do casal mais confortável. “A Emater tem sido imprescindível em tudo dentro da propriedade, se não fosse esta parceria já teríamos fechado as portas, a porteira, e tudo”, falou.

Uma guerreira chamada Tia Chica

Francisca Nunes Alves, a Tia Chica, é uma guerreira. Foi professora dos 17 aos 44 anos, ensinando sempre na mesma escola. Quando terminava a aula, começava seu segundo turno de trabalho: ajudar o marido na roça. Os dois moravam na casa da escola e sempre lutaram para comprar uma chácara, que era o seu sonho. O primeiro ‘baque’ veio em quando eles estavam casados há cinco anos, em 1971. Francisca teve uma doença grave e foi preciso fazer o tratamento em São Paulo. “Tive que vender tudo o que já tínhamos conquistado. Mas depois de várias cirurgias e mais de um ano de internamento eu fiquei boa e recomecei tudo com ele: a escola e a lavoura”, recorda antes de dizer que na época as únicas ferramentas que possuíam era uma enxada e uma plantadeira tipo matraca.

Em 1976 conseguiram realizar o primeiro sonho que era ter a terra. “Nossa condução era uma charrete com tração animal. A luz era lamparina ou lampião a gás e só em 1986 já com luz elétrica mudamos para a chácara e pude construir uma pequena casa onde moro até hoje”, lembra. O terreno que não tinha um pé de fruta hoje é todo florido, o verde das folhas contrasta com o roxo das primaveras e o vermelho dos antúrios.

Logo que se aposentou como professora, o segundo ‘baque’. Um problema no seio a obrigou a fazer uma cirurgia. Em Londrina, onde realizaria o procedimento, um erro médico levou a um curto circuito nos aparelhos e o resultado foi que Francisca perdeu o pé esquerdo queimado. “Foi muita dor e sofrimento até 1996 quando coloquei uma prótese”, diz. As mudanças inesperadas a levaram a uma depressão profunda. “Mas nas profundidades desse poço, encontrei água limpa para recomeçar, sempre com Deus e meu marido do lado.”

Como uma forma de se reencontrar, em 2003 ela participou de um curso de doces e compotas. “Foi nessa época que a agroindústria “Doces e Delicias da Tia Chica” começou a surgir.” O cadastro no programa Fábrica do Agricultor, da Emater, foi mais um passo. “Não parei mais, sempre procurando fazer bem feito com garra, determinação, otimismo e criatividade.” Os cursos para melhorar também continuaram acontecendo e ela recebeu o certificado de gestão e boas práticas da fabricação pelo Sebrae. Outro curso que participou foi o Empreendedor Rural, promovido pela Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep). “Consegui superar todos os desafios. Quando surge mais um eu digo que vou vencer”, relata.

Os produtos que saem da chácara para feiras e supermercados são todos sem agrotóxicos ou conservantes. A pequena propriedade vive recebendo visitas de pesquisadores, estudantes e pessoas interessadas em levar sua experiência para implantar em outras regiões. O local recebeu o nome de Paraíso, justamente o que representa para seus donos Vivaldo e Francisca. “Faço muitos planos para o futuro, embora já tenha idade, suficiente para saber envelhecer. Dificuldades sempre vão existir, já somos vencedores por estar vivos e com saúde”, argumenta.

Uma paixão de Francisca é repassar o que aprendeu para outras pessoas. A Chácara Paraíso recebe, constantemente, a visita de estudantes e pesquisadores. A produtora diz que gosta muito de ensinar e compartilhar. “O que aprendemos não deve ficar só para a gente”, comenta.

O prêmio “Sebrae Mulher” e a coroação de um trabalho

Todo o trabalho de Francisca Alves foi corado com o Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, em 2013. Na época, recebeu 6.642 inscrições em todo País, sendo 402 do Paraná e 52 da região noroeste do Estado. O anúncio das vencedoras da etapa estadual foi feito em Curitiba. Em março de 2014, Francisca e as vencedoras nas demais categorias representaram o Paraná na etapa nacional, em Brasília. “O prêmio mostrou que estamos no caminho certo e nos incentivou a continuar”, falou dona Francisca.

O Prêmio visa reconhecer empresas que, em especial, utilizam com eficácia ferramentas de gestão. “Com o conhecimento que a Emater já tinha repassado para a gente aceitamos o desafio. Valeu muito à pena, conseguimos vencer a etapa estadual e ficamos para a nacional”, lembrou.

O Prêmio é uma parceria do Sebrae Nacional, Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, Federação das Associações de Mulheres de Negócios e Profissionais do Brasil e Fundação Nacional da Qualidade (FNQ). Para auxiliar na divulgação estadual, o Sebrae/PR conta com o apoio do Conselho Estadual da Mulher Empresária (CEME).

Produtora tradicional

O chefe regional da Emater, Jairo Quadros, comentou que dona Francisca é uma produtora tradicional em toda a região. Segundo ele, desde 1967 ela participa de cursos da Emater, sempre buscando melhorias da qualidade dos produtos e apoio na questão de produção, buscando novos mercados. “A Emater faz os projetos, acompanha e presta assessoria ao casal. A dona Francisca representa a região em vários eventos principalmente nas feiras do produtos no Estado e até fora do Estado”, falou Quadros, ao ressaltar que a propriedade do casal virou referência estadual é visitada por pessoas de todo o Estado.

Outra conquista importante de Dona Francisca, segundo Quadros, foi a conquista do Selo da Agricultura Familiar do Governo do Paraná. Recebem este reconhecimento somente produtores que trabalham dentro da legislação e que têm uma padrão de qualidade. ”O produto dela tem também um código de barras para ter acesso a mercados institucionais e convencionais”, observou.

Tia Chica leva o nome de sua marca, do município, e da região além das fronteiras do Paraná. Ela já participou de feiras em outros estados como Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, entre outros. Seus produtos já foram vendidos ainda para lugares como Flórida, Itália, e Portugal.