Sociedade e Desenvolvimento
Faça algo malfeito

“Tornar o simples complicado é lugar-comum; tornar o complicado simples, isso é criatividade”.

Charles Mingus, músico de jazz.

 

O texto a seguir não é meu. É de autoria de Steve Chandler, consultor e treinador em liderança para mais de 20 empresas da Fortune 500.

Às vezes, não fazemos certas coisas porque não temos certeza de que iremos fazê-las bem. Achamos que não estamos com vontade ou energia suficiente para cumprir aquela tarefa, então adiamos, ou esperamos até que a inspiração venha a nós.

O exemplo mais conhecido desse fenômeno é o que os escritores chamam de “bloqueio criativo”. Uma barreira mental parece se erguer, impedindo o escritor de continuar a escrever sua obra. Às vezes, é tão grave que muitos procuram um psicólogo para ajudá-los.

O “bloqueio” (ou falta de automotivação) ocorre não porque o escritor não consegue escrever, mas porque ele pensa que não pode escrever bem. Ou seja, ele acha que não tem energia ou inspiração para escrever algo que seja bom o suficiente. Então, a voz pessimista dentro de si o desencoraja, o faz duvidar da própria capacidade. Isso acontece com muitos de nós, mesmo com algo tão insignificante quanto um e-mail ou um relatório.

Mas o escritor não precisa de terapia para resolver isso. Basta compreender como a mente humana funciona no momento do “bloqueio”. A cura para o bloqueio criativo – e também o caminho para a automotivação – é simples: ir adiante e escrever mal.

A escritora Anne Lamott tem um capítulo em seu maravilhoso livro Palavra por palavra chamado “Primeiros esboços ruins”. A chave para escrever, ela afirma, é apenas começar a produzir qualquer coisa – pode ser o pior texto que você já escreveu, mas não importa. “Quase toda boa escrita começa com primeiros esboços ruins”, diz Anne. “Você precisa iniciar de alguma maneira. Comece pondo alguma coisa – qualquer coisa – no papel.” Com o mero ato de digitar um texto, você enfraquece a voz pessimista que tenta convencê-lo a não tentar. De repente, está escrevendo. Uma vez que entra em ação, fica mais fácil obter mais energia e qualidade para o seu trabalho.

Um exemplo pessoal de como acabamos desistindo de algo pelo receio de não fazê-lo com perfeição é quando penso em correr para me exercitar. Por julgar que não estou em grande forma, a voz diz “Hoje não”. Mas a cura para isso é sair para correr de qualquer jeito. “Não estou com vontade de correr agora, então vou dar um trote bem devagar, de um jeito bem preguiçoso que não vai me levar a nada, mas pelo menos terei cumprido a tarefa.” No entanto, assim que começo a correr, algo sempre acontece que muda o que eu estava sentindo antes. No final, percebo que a corrida foi ótima e me fez muito bem.

De muitas maneiras, somos todos escritores. Nossos livros são as nossas vidas. E muitos de nós sofrem de uma forma trágica de bloqueio criativo que nos leva a não escrever mais nada. É uma tragédia mesmo, porque no fundo todos somos muito criativos. Poderíamos escrever uma vida maravilhosa. Só que temos tanto medo de escrever mal que acabamos não preenchendo sequer uma linha.

Não deixe que isso aconteça com você. Se não está motivado para fazer algo que sabe que precisa fazer, resolva fazer mal e porcamente. Permita-se rir de si mesmo. Seja péssimo naquilo que está fazendo. Depois surpreenda-se com o que vai acontecer assim que iniciar o processo.

Carlos Alberto Facco - Secretário de Desenvolvimento Econômico de Campo Mourão | [email protected]