Tribuna Livre
Gratidão

Quando eu era menina a comemoração da Páscoa era cheia de emoção.

A Sexta-Feira Santa tinha sua magia. Uma magia um tanto soturna, pois vigorava o silêncio... Uma tristeza respeitosa.

As brincadeiras de rua eram proibidas, nada da costumeira algazarra, vozes em gritaria chamando pelos amigos, brigando e brincando com as irmãs.

Não entendíamos bem o motivo de tantas regras restritivas e, a cada ano, repetíamos os questionamentos à minha mãe e ela, pacientemente, nos explica que Jesus, o filho de Deus, havia morrido em nosso lugar, morrido para nos permitir chegar ao Paraíso, para perdoar nossos pecados, que aos meus ouvidos pareciam imperdoáveis diante de uma pena tão grave.

Sinceramente, não entendíamos, mas... aceitávamos a reposta e nos policiávamos para mantermos um silêncio respeitoso para Jesus, o filho de nosso Pai que poderia não tolerar a quebra das regras.

A noite de Sexta-feira Santa era até mais densa.

Nos reuníamos, na igreja, familiares e membros da Comunidade Evangélica Luterana. Uma comunidade pequena, formada pela maioria de alemães e seus descendentes. Todos chegávamos quietos. Nós, pré-adolescentes e crianças, ficávamos grudados nos pais e mães, nos olhando de soslaio, com vontade de chamar para a correria, que certamente acontecia em cultos rotineiros e aos arredores do prédio da igreja, mas ninguém tinha coragem: não éramos tão imprudentes para provocar a ira de Deus... Afinal de contas, seu Filho havia morrido e, pela pregação do pastor, teria sido por traição.

As músicas tinham letras e melodias tristes. A igreja ficava na penumbra. Não se acendiam as lâmpadas e apenas algumas velas iluminavam o ambiente. Após o culto, todos silenciosamente dirigiam-se para seus lares e íamos cedo para a cama. Era uma longa noite.

Quanta lembrança boa deste mistério que envolvia a Sexta-Feira Santa!

Contudo, a maior magia acontecia no domingo.

Domingo era dia da mais pura alegria. Sempre que me lembro do domingo de Páscoa me vem à alma o concerto La Primavera de Vivaldi: uma explosão de energia e vivacidade!

O dia amanhecia com burburinhos entusiastas na cozinha. O café da manhã era farto. Colocávamos nossa melhor roupa para ir ao culto dominical. Tudo era intensamente diferente da Sexta-Feira Santa. A igreja estava cheia de alegria, cantos efusivos, música que nos envolvia e nos carregava de uma energia doce, mas intensa.

As pessoas cumprimentavam-se alegres e o pastor rogava Aleluias, pois Jesus havia ressuscitado dentre os mortos e nos garantido a vida eterna junto a Deus.

Logo após as obrigações religiosas, íamos apressados e cheios de empolgação para casa. Preparativos para o almoço de família. Casa cheia de parentes e amigos. Risadas altas e soltas ecoavam pelo ambiente. Chocolates eram permitidos sem restrição. Adultos bebiam e pareciam mais felizes do que nunca, ficavam falantes, riam do que parecia ser qualquer coisa e nós, adolescentes e crianças, corríamos pelo quintal, brincávamos até a exaustão, comíamos muito mais do que podíamos digerir e terminávamos o dia satisfeitos e plenos com a experiência maravilhosa que acabáramos de vivenciar.

O sono era profundo. Um sono de renovação. De Salvação. De Esperança.

Cresci e ficou impregnado no meu DNA um dos sentimentos mais nobres existentes: gratidão.

Gratidão por Deus ter nos ensinado o caminho do amor, da redenção.

Gratidão à família, pelos valores éticos e respeitosos ensinados através do exemplo.

Gratidão a Jesus que, com lágrimas de sangue, não se furtou à sua missão de amor.

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Marlene Kohts, advogada, escritora, integrante da Comissão de Eventos da Subseção