José Eugênio Maciel
Para a Isadora, para sempre, amada

*“Caminhos são eternos, os passos é que não são”

(JEM)

            Jamais seria imaginável supor que existiria essa última despedida. Derradeiramente o adeus. Isadora Lenara Pescador Loss, o texto agora explica resumidamente o que você representa para mim. Falamos-nos pela última vez no seu aniversário, dia 18 de julho, parabenizei pelos seus 22 anos. Disse as mesmas palavras que você antes escreveu e falou, “Ti amo”.

            A seguir a Coluna do dia 22 de julho, 2007, há exatos 12 anos, para homenagear, li pra você, expliquei algumas palavras e anos mais tarde tu é que leu para mim.

            Deixou-me mais uma grande lição, a de doar os seus órgãos. Foi feito, menos o seu coração. Levou o nosso. A frase abaixo do título apareceu no Fases de Fazer Frases, e agora oportuno, como a citação e o texto abaixos:    

ISADORA, FIGURINHA

“Meninha do meu coração

Eu só quero você

A três palmos do chão

Meninha, não cresça mais não

Fique pequeninha na minha canção

           [...]

Fique assim, fique assim

Sempre assim

E se lembre de mim

Pelas coisas que eu dei

E também não se esqueça de mim

Quando você souber enfim

De tudo o que amei

Meninha – Vinícius de Moraes e Toquinho

            Exatamente todos os dedinhos das suas mãos dizem quantos anos tens agora. Lembro-me da mãozinha destacando o indicador para nos mostrar o primeiro ano. Isadora Lenara, não só eu, mas eu também, feliz e imensamente tenho a minha vida inteiramente transformada com a tua chegada.

Se o tempo passou tão depressa, parece que foi ontem, a sensação mais significativa é que este tempo jamais foi dividido, ele é inteiro, preenchido com a tua existência.

A casa tinha que se adaptar, o silêncio para que o sono teu de anjinho não fosse despertado antes da hora e para ouvirmos o chorinho de resmungo querendo atenção. Portas e janelas tinham que ser fechadas na hora do banho, nenhuma corrente de ar, toda uma estrutura preparada, banheira, água quente, sabonetinho, toalha, talco, pomadas, fraldas, macacãozinho colorido, meinhas mais ainda. E depois vinha a mamadeira, o embalo, e eu ali, diante de uma criatura tão especial que sempre trouxe consigo um brilho próprio nos olhos claros, cheia de vida, encantadora.

Vi e participei do teu crescer. Sabe, Isadora, cresci muito com você, perdi a conta das vezes em que refleti a cerca da grandiosidade do ser humano, tão forte e ao mesmo tempo pequeno e frágil.

 Você engatinhando por todos os cantos foi outra fase apreciável, o cuidado para não derrubar algo que pudesse te machucar, não pôr os dedinhos nalguma tomada e levar choque. E, num descuido nosso, do tipo que um confia que o outro está olhando a criança, e vice-versa, falamos em coro: “cadê a Isadora?!” Você tinha subido sozinha e quietinha os degraus do sobrado, chegando ao andar de cima felizmente sã e salva. Acho que foi a sua primeira aventura/travessura.

As papinhas, o babador, os primeiros cachinhos do cabelo polaco. E também os primeiros dentinhos, lembram-me que te pedi, ao colocar um dos meus dedões na tua boca, que então você mordesse, e foi o que fez, deixando em mim a primeira marca das tuas peraltices.

Isadora, vou escrevendo e não sem o que colocar no papel, tantas são as lembranças, os incontáveis motivos para me sentir verdadeiramente capaz de amar e ser amado por alguém tão especial. Quando você estiver lendo esta crônica recordará quando íamos à banca comprar jornal e então aproveitávamos para passear de carro, levávamos mais tempo a te colocar segura na cadeirinha no banco de trás do que propriamente o tempo até a banca. Você, ao aprender a falar e caminhando saltitante, eu não conseguiria ir pegar os jornais sem a tua companhia, e foi a partir de então que passou a escolher suas revistinhas em quadrinhos. Folheando as páginas, você era só fascínio, imaginava a historinha ou me pedia que a contasse.

Contar historinha sempre foi uma forma de estarmos próximos. Para adormecer, além de prazerosamente levá-la no colo até o teu berço, ouvia o teu doce apelo, “me conta uma itólia?”. É, a vida é sempre um Era Uma Vez... Curiosa, atenta, observadora nata, sempre prestou atenção, as que mais gostava, pedia-me que repetisse, sem esquecer toda a encenação. Muitas das histórias fizeram cessar o choro de alguma dorzinha. E a tua capacidade de observar e pensar gerava perguntas e tudo você queria saber. Antes mesmo de saber ler, pegava os jornais que eu propositadamente deixava pelo chão, olhava as figuras, sempre ali comigo, ou então lendo teus gibis, cantarolando, pintando, colorindo e encantando. (quando você chegou de viagem para passar as férias com a adorada vovó Iara, fez questão de nos mostrar o livro que está lendo, com marcador de página e tudo).

Sempre fomos amigos, a nossa relação é marcada pela lealdade e companheirismo, como te aprontando para ir à escola e quando não era mesmo possível comparecer às tuas apresentações a cobrança era feita. Assim como nas oportunidades que eu comparecia, você sempre me enxergava em meio a tanta gente, e logo depois vinha ao meu encontro, a tua corrida em direção ao abraço e ao colo são e continuarão sendo repletos de bondade, afeto, ternura, cumplicidade e amor.

Diante da minha correria do dia a dia, das decepções e dos objetivos não alcançados na vida, inevitáveis ou não, chegar até você é poder encontrar naturalmente forças advindas do teu abraço, da sua presença constante e envolvente a “grudar” na gente, ou do modo singelo com que dormia, novamente revigoravam em mim a busca por um mundo com menos injustiça, mais humano, que ele até mesmo não seja para mim, mas para você, querida Isadora. Parabéns!          

José Eugênio Maciel | [email protected]