Especialista alerta sobre hiperestimulação em desenhos animados e orienta uso de telas
Você sabe os desenhos que o seu filho anda assistindo? Alguns deles podem gerar alto nível de estímulo, contribuindo para a hiperestimulação, que pode afetar o sono, a atenção, o comportamento e a capacidade de concentração da criança.
Com o período de férias escolares, quando muitas crianças passam a maior parte do tempo em casa, a neuropsicóloga e especialista em Avaliação Psicológica em Campo Mourão e Umuarama Thaís Serafim avaliou os alguns desenhos infantis e deu orientações sobre o tema. Atrelado a esse tema, está o debate sobre o uso excessivo de telas. Por isso, a especialista também forneceu orientações sobre como controlar o tempo de exposição e tornar o consumo de conteúdo mais saudável para os pequenos.
A profissional iniciou explicando que os desenhos de alto estímulo, como Sonic e Pokemón, envolvem produções com cortes rápidos de cena, com fluxo de informações simultâneas, como luzes piscantes, cores vibrantes, trilha sonora intensa e falas aceleradas. Ou seja, eles normalmente prendem a atenção do público infantil pelo alto impacto sensorial.
O que ocorre, segundo Thaís, é que, muitas vezes, esses grandes estímulos podem causar sobrecarga sensorial, irritabilidade, além de dificuldade de foco e de transição para outras atividades. É possível que isso desencadeie, ainda, comportamentos acelerados, assim como menor tolerância a histórias lentas.
Apesar dos possíveis impactos desses programas de alto estímulo no desenvolvimento infantil, a neuropsicóloga ressalta que não é necessário que os pais proíbam os filhos de assisti-los, bastando buscar um equilíbrio. Ela lembrou, ainda, que muitos desses desenhos têm caráter educativo, o que também pode trazer benefícios.
“A criança não precisa deixar de assistir, se ela gosta, ela precisa de mediação enquanto está assistindo o desenho”, orientou. A mediação de um adulto pode ajudar a orientar a criança sobre o que é adequado ou não e sobre comportamentos que podem ou não ser reproduzidos.
Por sua vez, os desenhos de baixo estímulo, como Bluey e Daniel Tigre, são produzidos em ritmo mais lento, as cenas apresentam continuidade, as melodias são suaves e utilizam cores harmônicas e movimentos fluidos, tanto dos personagens quanto do próprio cenário que envolve a animação.
A neuropsicóloga destacou os efeitos positivos que esses tipos de desenhos podem trazer às crianças. Entre eles, favorecem a atenção sustentada, calma e autorregulação e menor agitação. Eles podem, ainda, proporcionar melhor compreensão e instigar a imaginação, decorrentes da sobrecarga sensorial menor. Mas, como tudo na infância, ela ressaltou que não é recomendável que as crianças passem o dia todo assistindo a esses conteúdos. Thaís ponderou que o ideal é equilibrar desenhos de alto e baixo impacto.
Outro ponto destacado pela especialista é que o tempo de uso de telas deve ser controlado, já que a exposição prolongada pode prejudicar o desenvolvimento das crianças, afetando o sono, a fala e a capacidade de autorregulação. Portanto, é recomendado liberar com tempo limitado, supervisão, priorizando conteúdos de baixo estímulo e com rotina previsível. “Tela não é babá, é ferramenta”, argumentou a neuropsicóloga.
Os responsáveis também podem intercalar com outras atividades longe dos dispositivos eletrônicos. “Proibir telas não resolve o problema”, afirmou, lembrando que a orientação vale para crianças acima de 2 anos, pois, até essa idade, ela recomenda, de fato, zero telas. “Acima disso [2 anos], quanto mais estruturado e menos estímulo, melhor”, recomendou.
A profissional reconhece que, muitas vezes, o motivo pelo qual mães e pais expõem os filhos às telas não é por falta de “saber educar”, mas sim devido à sobrecarga do dia a dia. “Ligam porque estão exaustos depois de um dia inteiro de trabalho ou porque precisam preparar o jantar, porque tem outro filho para dar banho”, disse. “Usar a tela por alguns minutos enquanto você cuida da casa ou recupera o fôlego também é cuidar da família”, acrescentou, avaliando que a chave da questão está na mediação e na orientação às crianças.
Análise de desenhos
A especialista analisou alguns desenhos comuns na rotina de muitas famílias, avaliando o potencial de hiperestimulação e os prejuízos que podem causar às crianças quando assistidos em excesso ou sem a mediação de um adulto. Confira.
Alto estímulo
Peppa Pig: apesar de os episódios serem curtos, eles promovem uma hiperestimulação no público infantil. Uma das características para isso, segundo Thaís, são as falas aceleradas. Ela também comentou que alguns especialistas consideram o conteúdo do desenho um tanto controverso.
Dinossauro Rei: por ser um desenho de altíssimo estímulo, pode trazer efeitos negativos em crianças. Contudo, Dinossauro Rei também pode contribuir para o desenvolvimento de conhecimentos científicos e culturais, como paleontologia, curiosidade científica, vocabulário e raciocínio lógico, desde que seu consumo seja mediado por um adulto e com tempo de exposição limitado.
Patrulha Canina: por ser um desenho de alto estímulo, pode apresentar riscos à hiperestimulação das crianças. Isso porque apresenta cores fortes e vibrantes, cenas rápidas, com bastante efeito sonoro. Um dos pontos positivos da animação destacados pela neuropsicóloga é o ensino da coletividade e cooperação que a narrativa proporciona.
Bolofofos: apesar de não ser um desenho com narrativa estruturada, e sim de música, a animação é considerada altamente impactante para as crianças, pois apresenta muitas cores, luzes piscantes, imagens que se alteram com muita rapidez. Ela enfatizou que, geralmente, as músicas podem ser um recurso bastante positivo para as crianças, porque auxilia no desenvolvimento da fala, na coordenação, na criatividade. No entanto, por ser um desenho altamente estimulante, o uso prolongado pode ser prejudicial.
Baixo estímulo
Pocoyo: um dos pontos positivos desse desenho de baixo estímulo é a interação do narrador com o telespectador, promovendo um estímulo para a resposta falada. A profissional destacou, no entanto, que essa animação não é recomendada por alguns especialistas, porque o personagem principal é um bebê e não fala, além de reagir mal às pequenas frustrações do dia a dia, comportamento que pode ser espelhado pelas crianças, principalmente das que estão em fase de desenvolvimento da comunicação verbal.
Show da Luna: considerado um desenho educativo, a composição dele se caracteriza por seu baixo impacto e estímulo. Instiga a curiosidade e a ciência sem sobrecarregar a criança com excessos de informações, luz, som e imagens pulsantes.

