Não é só futebol: entre gols, política e apostas

Volto a falar sobre futebol e política. Este texto é uma releitura de outro que já publiquei nesta coluna, mas os acontecimentos mais recentes mostram que o tema continua atual, talvez mais do que nunca.

Durante muito tempo ouvimos que futebol e política não se misturam. Nunca foi verdade. O poder sempre encontrou espaço dentro das quatro linhas, seja para promover governos, fortalecer narrativas ou atender interesses que pouco têm a ver com o esporte.

A história oferece inúmeros exemplos. Mussolini transformou a seleção italiana em instrumento de propaganda do regime fascista nas Copas de 1934 e 1938. No Brasil, durante a ditadura militar, a conquista da Copa de 1970 foi utilizada como símbolo do chamado “Brasil Grande”, associando o sucesso da seleção ao governo do General Médici. Nem mesmo Pelé escapou desse contexto, tendo sua imagem vinculada a campanhas oficiais.

O futebol também mostrou sua face mais humana. A tragédia da Chapecoense ultrapassou qualquer rivalidade e revelou que o esporte possui um poder de mobilização que vai muito além dos resultados em campo. Ali, a política deu lugar à solidariedade.

Mas chegamos à Copa do Mundo de 2026 e, mais uma vez, ficou evidente que o futebol continua sendo um palco de disputas políticas. O torneio foi marcado por episódios que levantaram questionamentos sobre a igualdade de tratamento entre as delegações. Árbitros e integrantes de seleções enfrentaram dificuldades para ingressar no país-sede. O árbitro somali Omar Artan, nomeado pela FIFA para atuar na competição, teve sua entrada negada. Integrantes da delegação iraniana encontraram obstáculos na emissão de vistos, enquanto cidadãos de países como Haiti, Iraque e República Democrática do Congo também enfrentaram severas restrições migratórias. Quando a política decide quem pode ou não participar de uma Copa do Mundo, o futebol deixa de ser apenas esporte.

Como se isso não bastasse, assistimos a mais um capítulo da crescente influência política sobre o futebol. Afinal, desde quando o governo de um país pode recorrer à FIFA para pedir a revisão de um cartão vermelho? E, mais grave, desde quando esse tipo de intervenção encontra espaço dentro de uma entidade que tanto prega a autonomia do esporte? Se decisões de campo passam a ser sensíveis ao peso político de quem as questiona, já não estamos falando apenas de futebol. Estamos falando de poder. E, quando o poder invade as quatro linhas, a credibilidade do espetáculo é a primeira a sair derrotada.

Dentro das quatro linhas, o Brasil voltou para casa antes do esperado. Mais uma eliminação que alimenta a velha esperança de que “na próxima vai”. Talvez seja hora de discutirmos menos quem será o próximo herói e mais o modelo de gestão do nosso futebol, que parece repetir os mesmos erros a cada ciclo.

Outro aspecto que chama atenção é o domínio das casas de apostas sobre o esporte. As BETs deixaram de ser simples patrocinadoras para ocupar praticamente todos os espaços possíveis: estão nas camisas, nas placas dos estádios, nos intervalos da televisão, nas transmissões, nas redes sociais e até no discurso de influenciadores e comentaristas. O excesso da publicidade normaliza um mercado que ainda provoca sérios debates sobre vício, manipulação de resultados e proteção dos consumidores, especialmente dos mais jovens.

O que aprendemos dessa relação entre futebol e política? Que ambos são movidos por paixões, interesses e regras. No futebol, quando árbitros, dirigentes e jogadores respeitam essas regras, o espetáculo acontece. Na política, quando as instituições funcionam e os interesses coletivos prevalecem sobre os individuais, a democracia também vence.

Continuamos repetindo que “é só futebol”. Nunca foi. O futebol movimenta economias, influencia governos, desperta nacionalismos, une multidões e também revela as contradições da sociedade. Talvez por isso continue sendo o esporte mais popular do mundo: porque, no fundo, ele sempre foi um retrato da própria vida.

Rosinaldo Nunes Cardoso é administrador, especialista em Gestão de Pessoas e Inteligência Competitiva, mestre em Administração com foco em Empreendedorismo, Inovação e Mercado. Atualmente, é Diretor de Pesquisa e Gestão do IPPLAN e Professor do curso de Administração da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR).