Disciplina de mestrado interdisciplinar promove debate internacional na Unespar de Campo Mourão

O Programa de Pós-Graduação Sociedade e Desenvolvimento (PPGSeD), da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), campus de Campo Mourão, promoveu neste mês a disciplina especial “Internacionalização da Educação Superior e da Pós-Graduação: Governança Multinível, Cooperação em Rede e Cooperação Sul-Sul”, com a participação de pesquisadores nacionais e internacionais.

Ministrada pela professora Áurea Viana, da Unespar, e pelo professor Jorge Kulemeyer, da Universidad Nacional de la Patagonia Austral (UNPA), Argentina, a disciplina, que aconteceu nos dias 10 e 11 de agosto, teve como objetivo analisar a internacionalização da educação superior e da pós-graduação a partir da perspectiva da governança multinível e da cooperação em rede, discutindo políticas contemporâneas, modalidades de cooperação internacional e, especialmente, as possibilidades da Cooperação Sul-Sul.

Ao longo da atividade, foram discutidos os fundamentos e as diferentes abordagens da internacionalização da educação superior, a formação de redes acadêmicas, a circulação do conhecimento, a cooperação científica internacional e os desafios relacionados à virtualização e à inteligência artificial. A programação também abordou a relação entre o público e o privado na formação universitária e as transformações pelas quais passa a universidade contemporânea.

Internacionalização para além da mobilidade

Um dos eixos centrais da disciplina foi a compreensão da internacionalização como um processo que ultrapassa a realização de intercâmbios e a mobilidade acadêmica. A discussão mostrou a passagem de iniciativas anteriormente mais pontuais e dependentes de interesses individuais para uma concepção de internacionalização integrada às políticas, ao planejamento e às diferentes funções da universidade.

Nesse sentido, a internacionalização passou a ser analisada como processo institucional, envolvendo ensino, pesquisa, extensão e gestão, além de exigir políticas, planejamento, recursos e articulação entre diferentes atores e níveis de governança.

A formação de redes acadêmicas também ocupou lugar central nas discussões. As redes conectam universidades, pesquisadores e grupos de pesquisa de diferentes países, favorecendo a circulação de conhecimentos, experiências e metodologias e ampliando as possibilidades de produção científica colaborativa.

Governança multinível e internacionalização

Outro eixo da disciplina foi a discussão sobre governança multinível, entendida como a articulação entre diferentes níveis territoriais e institucionais e entre múltiplos atores envolvidos na formulação e implementação de políticas.

No campo da internacionalização da educação superior, essa perspectiva permite observar como organismos internacionais, governos, agências de fomento, fundações estaduais, universidades, programas de pós-graduação, grupos de pesquisa e instituições parceiras participam de diferentes formas da construção das políticas e das ações de cooperação.

A disciplina destacou, ainda, a distinção entre relações verticais, relacionadas à coordenação, regulação e financiamento, e relações horizontais, associadas à cooperação e à construção conjunta entre universidades, instituições parceiras, grupos de pesquisa, redes acadêmicas e projetos de cooperação.

Essa abordagem permitiu discutir a internacionalização não apenas como uma ação entre instituições isoladas, mas como um processo que envolve diferentes escalas, atores e formas de articulação.

Iniciativa contou com a participação de pesquisadores de instituições do Brasil, Argentina, Colômbia, Angola e Moçambique

Seminário Internacional amplia o diálogo entre instituições

Como parte da proposta da disciplina, foi realizado o Seminário Internacional “Cooperação Internacional e Produção de Conhecimento em Rede”, reunindo representantes de instituições de diferentes países.

Participaram da experiência instituições da América Latina, Europa e África, entre elas, a Universidade Estadual do Paraná (Unespar), a Universidad Nacional de la Patagonia Austral (UNPA), a Universidad del Valle, a Universidade de Luanda (UniLuanda) e a Universidade Licungo (UniLicungo). A proposta contemplou experiências institucionais de Argentina, Brasil, Colômbia, Angola e Moçambique.

O Seminário foi concebido como um momento de passagem “do conceito à experiência”, permitindo conhecer como diferentes instituições vêm construindo relações de cooperação internacional, redes acadêmicas e formas compartilhadas de produção do conhecimento.

A programação partiu de questões como: “Como as instituições constroem suas redes de cooperação internacional?”, “Quais são os desafios e as possibilidades da cooperação entre diferentes países e instituições?” e “Que conhecimentos são produzidos e compartilhados nessas redes?”.

Cooperação Sul-Sul e construção de redes

A presença de instituições latino-americanas e africanas também contribuiu para ampliar o debate sobre a Cooperação Sul-Sul, colocando em evidência relações acadêmicas construídas entre diferentes territórios e contextos institucionais.

A proposta buscou deslocar a compreensão da internacionalização como simples circulação de pessoas ou reprodução de modelos externos, enfatizando a cooperação científica, a construção conjunta de conhecimentos e o fortalecimento das capacidades institucionais por meio das redes.

Nesse sentido, a experiência do Seminário Internacional esteve articulada à própria concepção trabalhada na disciplina: a internacionalização pode ser compreendida como um processo de construção de relações entre instituições, pesquisadores, programas de pós-graduação e redes acadêmicas em diferentes territórios.

Internacionalização, universidade pública e produção do conhecimento

As atividades também promoveram uma reflexão crítica sobre os sentidos da internacionalização no contexto das transformações da universidade contemporânea. A disciplina discutiu as tensões entre a universidade como bem público, comprometida com a produção compartilhada do conhecimento e o desenvolvimento social, e uma perspectiva orientada pela competição, pelos rankings e pela lógica de mercado.

Nesse contexto, a internacionalização foi apresentada como um campo de disputas e possibilidades: pode contribuir para a cooperação acadêmica, para o fortalecimento das universidades públicas e para a democratização do conhecimento, mas também pode ser incorporada a estratégias de competição e mercantilização da educação superior.

A discussão incorporou ainda os desafios relacionados às desigualdades territoriais no acesso e na apropriação das tecnologias digitais e da inteligência artificial, especialmente no contexto das universidades do Sul Global.

Da formação à construção de redes permanentes

Mais do que uma atividade pontual, a disciplina e o Seminário Internacional buscaram fortalecer uma perspectiva de internacionalização baseada na cooperação, no diálogo entre instituições e na produção compartilhada do conhecimento.

Para a professora Dra. Áurea Viana, responsável pela disciplina e pela organização do Seminário, a iniciativa representa um passo importante para fortalecer a cooperação entre as instituições. “A rede não se decreta, ela se constrói no dia a dia, a partir do diálogo, da reciprocidade, de relações horizontais e da produção conjunta do conhecimento”, enfatizou.

A experiência reuniu instituições e pesquisadores de diferentes países, ampliando as possibilidades de diálogo e de construção de novas iniciativas de cooperação científica.