Risco de falta de óleo diesel ameaça plantio da safra e gera apreensão

Com a safra a todo vapor, entre a reta final da colheita do trigo e o início do plantio da soja, os produtores rurais de Campo Mourão e região enfrentam mais uma preocupação. Depois de meses marcados por condições climáticas severas, o setor agora acompanha o risco de falta de óleo diesel e a previsão de aumento superior a 4% no preço do combustível em plena atividade no campo.

A empresa Cunhado Diesel, uma das maiores distribuidoras do produto em Campo Mourão e região, ouvida pela TRIBUNA nesta sexta-feira (18), informou que já encontra dificuldades para comprar o produto em maior quantidade. Segundo a empresa, a redução das importações pode limitar a oferta nas próximas semanas, enquanto as novas remessas devem chegar mais caras. Uma funcionária da empresa, que pediu para não ser identificada, informou que os conflitos no Oriente Médio e as restrições às exportações russas são fatores importantes que reduziram a oferta e elevaram os preços dos combustíveis.

Segundo ela, o aumento deverá ser repassado aos produtores rurais, que dependem do produto para os trabalhos. Neste período, o consumo é maior porque as máquinas trabalham a todo vapor na retirada do trigo das lavouras, no transporte da produção e na implantação da nova safra de soja.

A situação coincide com um momento de pressão sobre o abastecimento nacional. O Brasil produz cerca de 75% do diesel que consome, mas ainda depende das importações para completar a demanda. Com a alta do produto no exterior, empresas independentes começaram a adiar novas compras por não conseguirem competir com o preço praticado no mercado brasileiro.

Segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), na terça-feira (15), o diesel vendido pela Petrobras estava R$ 3,89 por litro abaixo do custo do produto importado. A diferença atingiu o maior nível já registrado. Ao mesmo tempo, as refinarias brasileiras já operam perto do limite e não conseguem compensar sozinhas a redução das compras externas.
A situação se agravou após a interrupção de um oleoduto usado pela Arábia Saudita para transportar petróleo até o Mar Vermelho. Pela estrutura passavam cerca de 4 milhões de barris por dia, volume equivalente a 4% da oferta mundial. Compradores e operadores do mercado ouvidos pela Reuters estimam que o reparo possa levar várias semanas.

Em meio à alta internacional, a Petrobras anunciou reajuste médio de R$ 1 por litro no diesel vendido às distribuidoras. O aumento entrou em vigor nessa quinta-feira (17), mas foi acompanhado de desconto no mesmo valor após a empresa aderir ao programa de subsídio do governo federal.

Na prática, o preço cobrado pela estatal das distribuidoras permaneceu inalterado. A medida permite que a Petrobras aproxime contabilmente seus preços dos valores externos sem transferir, neste momento, o aumento ao mercado interno. O reajuste e a compensação foram anunciados pela companhia.

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A decisão, porém, não resolve a dificuldade enfrentada pelas empresas que dependem do combustível importado. É nesse mercado que a distribuidora ouvida em Campo Mourão prevê aumento superior a 4%, além do risco de receber quantidade menor que a necessária para atender os clientes.

Em Mamborê, um dos municípios com maior área de produção agrícola da Comcam, os agricultores ainda não sentem diretamente os efeitos da redução na oferta. Muitos possuem tanques de grande capacidade nas propriedades e compram o combustível antes do início da safra. Os estoques garantem, por enquanto, o funcionamento das máquinas durante o plantio e a colheita.

O gestor do Sindicato Rural de Mamborê, James Correia, afirmou em entrevista à TRIBUNA que a preocupação está no que poderá acontecer quando essas reservas começarem a acabar. “Os produtores aproveitaram o período anterior à safra para deixar os tanques abastecidos. Eles têm essa reserva para utilizar agora no plantio. O problema será se ela acabar e a crise continuar”, disse.

Segundo Correia, a alta do petróleo e as oscilações do dólar também pressionam o preço do diesel. Para ele, uma redução no fornecimento durante o plantio teria reflexos imediatos nas propriedades. “Chegar ao período de plantio e não ter óleo diesel seria um caos, principalmente para os agricultores. Temos uma janela de plantio que vai até dezembro. Se faltar combustível, o trabalho atrasa”, afirmou.
O receio, segundo Correia, não está apenas no plantio. A colheita do trigo continua em andamento e também exige máquinas trabalhando por várias horas, além de caminhões para retirar os grãos das propriedades. Uma eventual falta de combustível poderia atingir as duas atividades ao mesmo tempo.

Correia informou ainda que produtores de algumas localidades começaram a antecipar o plantio diante das incertezas. Ele citou Juranda como um dos municípios onde parte dos agricultores iniciou os trabalhos mais cedo.

A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) informou que as entregas seguem normalmente e que, até o momento, não identificou risco de desabastecimento no Rio Grande do Sul, onde também surgiram relatos de restrições e atrasos. A Petrobras afirma que mantém o fornecimento dos volumes previstos nos contratos.

Em Campo Mourão e nos municípios da região, os estoques mantidos nas propriedades ainda evitam reflexos maiores. A apreensão está voltada para as próximas semanas. Se as distribuidoras continuarem com dificuldade para repor o produto e as reservas dos agricultores diminuírem, a falta de diesel poderá afetar o plantio da soja e a conclusão da colheita do trigo.