A batalha pela vida de João
João Carlos Fiorese acaba de “renascer”. Aos 59 anos, vítima do temido corona, ressurgiu dias desses no Hospital Paraná, em Maringá. Uma coincidência do destino. Afinal, foi lá onde também nasceram os seus dois filhos, Guilherme e Gabriela. Ficou 38 dias internado. Maltratado pelo vírus, teve os pulmões tomados pela infecção. Pneumonia. Intubado, correu riscos. Teve medo da morte. Durante toda a vida, quase nunca derramou lágrimas. Pra nada. Mas desta vez, a coisa foi séria demais. E João chorou.
João é um cara forte. Jamais teve problemas de saúde. Não tem diabetes. Nunca fumou. E ainda que pouco, faz academia e joga suas peladas com os amigos. É um perna de pau. Ruim de futebol, dizem alguns. Mesmo assim, foi um dos escolhidos pelo Covid-19. Tudo teve início em 11 de março. Teve febre e dores no corpo. Não se preocupou. Tomou antitérmico e continuou sua lida na roça. João é produtor rural. Tem terras em Campo Mourão e Roncador. Terminava de colher. Mesmo febril.
Os dias passaram e os sintomas não passavam. Mas no dia 19 de março, ligou da fazenda para a esposa, Aida. Ele estava mal. Pensaram em dengue. Fizeram o primeiro teste. Veio negativo para o mosquito. No mesmo dia, João tomou soro. Tava desidratado. O médico então solicitou mais um exame de sangue. Novamente testou negativo para a dengue. No dia 23 de março, tomou soro mais uma vez. Saiu bem. E fez mais teste. Foi o terceiro negativo à dengue.
Escutando o seu médico, fez um raio x e, em seguida, uma tomografia. Estava com pneumonia. Um infectologista sugeriu o Covid. Os sintomas apontavam para a doença. Então foi levado à Santa Casa de Campo Mourão. Lá ficou em isolamento. Mas o quadro respiratório não era bom. Foi intubado 40 horas depois, no dia 26 de março. “Assinei um termo para que usassem a hidroxicloroquina”, lembra Aida.
A intubação foi necessária devido a piora do quadro de João. E o procedimento aconteceu exatamente no dia do aniversário da filha, Gabriela. A menina, com 22 anos, é estudante de medicina. Aida havia comprado bolo e docinhos para a festa íntima. Mas as notícias de João eram preocupantes. A festinha foi esquecida. A menina esqueceu do próprio aniversário. Naquele momento, a energia da família estava voltada a Deus. E isso bastava.
João é um sujeito engraçado. Quem não o conhece chega a temer seu semblante. Tem cara de homem bravo. Anda com a carteira comprida sob o braço. Passos rápidos. Sempre com pressa. É um homem de negócios. Faz parte de um grupo de amigos que degustam vinhos. Uma vez por mês se encontram e fazem a festa. Mas ali, João é diferente. Não tem papas na língua. Quando não gosta do vinho, fala na lata. Certa vez perguntaram: “O que você achou deste vinho”? Com uma cara de nojo, soltou: “Pra mim esse vinho é igual mulher sem bumbum e sem seios. Não tem graça”. A confraria toda demorou a parar de rir.
Após a intubação, João ficou estabilizado. Embora lutasse contra uma doença ainda não compreendida, não tinha altos e baixos. E foi somente depois de seis dias internado é que a confirmação do vírus chegou. Uma lástima que evidencia o excesso de burocracia do país. Uma vez confirmado, Aida e os filhos isolaram-se na fazenda. A esposa disse que teve febre e dores no corpo. O filho, febre. Também perdeu olfato e paladar. Os três fizeram exames. Aida teve reagentes ao corona. O filho e a filha não. “Acredito que eu e meu filho pegamos o corona. Mas nada nos aconteceu”, revelou.
A família não viajou ao exterior. Passaram o carnaval em Balneário Camboriú. Mas pouco saíram de casa. “Eu não entendo onde foi que o João pegou esse vírus. Nenhum de nossos amigos ou parentes pegou ou teve sintomas”, diz Aida. A missão da Santa Casa de Campo Mourão durou 16 dias. Depois disso, João foi encaminhado ao Hospital Paraná, de Maringá. Aida diz que só tem a agradecer tudo o que a equipe de Campo Mourão fez. “São muito profissionais”.
João deixou a UTI no dia 27 de abril. E dia 30, o hospital. Foi salvo. Está curado. Mas saiu bastante debilitado. Fraco. Perdeu 15 quilos de massa muscular. Não conseguia ficar em pé. Mas se reabilitou muito rápido. Já está andando. Nos 38 dias internado, praticamente 30, ficou sedado. Não lembra de nada. Lembra apenas de alguns sonhos. Que pensava ser realidade. Num deles, corria de um monstro. Corria sem parar. Não queria se entregar. No sonho, ele ajoelhou-se. E rezou. Soa como uma briga interna. Enfrentou uma batalha espiritual. João brigou e espantou seus próprios demônios. Uma luta pela vida. E ele os venceu.
Quando os médicos viram que seu estado era bom, iniciaram os procedimentos para diminuir a sedação. Num dia, abriu os olhos e conversou com a equipe. Ele não sabia quantos dias tinha ficado dormindo. Também disse que aquele era o dia do aniversário da filha. Ou seja, a memória voltou ao dia da intubação. O mesmo do aniversário de Gabriela. Mas já era tarde. O aniversário já havia passado. E, mal sabia que não houve comemoração nenhuma.
Após deixar os sedativos, já acordado, João não tinha acesso à família. Sabia o que havia acontecido. Mas estava sozinho. Passou dias chorando. No último sábado, antes de sair, revelou ao médico o desejo de jantar com a esposa. Só faltou lembrar que ele mesmo não estava ingerindo alimentos. Tudo era via sonda. Fiel a Deus, como todo bom agricultor, o drama vivenciado o fez repensar na vida. Hoje, entende a necessidade de passar mais tempo com a família. Viajar. Valorizar cada momento. Mas tem uma coisa que não irá mudar. Ele é viciado no trabalho. O sujeito não sossega. João travou uma luta desigual contra um vírus e os próprios demônios. Venceu todos. Restou agora valorizar o que permaneceu: a vida.

