A história e o legado de Ozires

No final dos anos 70, ainda menino, Ozires foi levado pela mãe, Lúcia, até a Escolinha Tagliari, em Campo Mourão. O futebol o chamava. Chegou acanhado, tímido, sem saber que ali seria rei. Adquiriu respeito, mesmo com as canelas finas de garoto. Jogava como fixo, na defesa. Mas era ele quem organizava as jogadas e, como tiro fatal, num tom de desprezo aos goleiros, disparava o torpedo. Tinha um chute indefensável, forte, certeiro. Ozires sempre foi uma espécie de ídolo dos companheiros, embora não soubesse.

Menino, certamente possuía futuro garantido como jogador. Mas quis o destino que sua vida se transformasse. Aos 13 anos de idade, tudo mudou. A família deixou Campo Mourão e mudou-se para Guaíra. E lá, num simples mergulho, depois de bater bola com amigos de escola, bateu com a cabeça. Foi impedido de andar. A bola foi trocada pela cadeira de rodas. E o futebol perdeu uma preciosidade. Um diamante deixou de ser revelado.

Filho de Lúcia e Otacílio, Ozires nasceu em abril de 71, em Campo Mourão. Começou no futebol aos sete, depois que a mãe ouviu no rádio uma entrevista do professor Itamar Tagliari. Era década de 70 e ele abria a tão famosa escolinha de futsal. Foram cerca de seis anos jogando pelo time. Época de muitas amizades e inocência. Ozires participou de diversas competições, sendo campeão de muitas delas.

Sempre foi um dos destaques. Viajava ao interior de São Paulo para jogar futebol de campo. No interior do Paraná, competia no salão. “Lembro que nosso time era bom. Éramos respeitados”, recordou Ozires, em sua última visita a Campo Mourão, em 2012. O esporte na infância ajudou o menino tímido a ter uma adolescência saudável. “Com tantas viagens sem a presença dos pais, nos tornamos com certeza, mais responsáveis. Coisas que a gente leva para toda uma vida”, disse. Ozires jamais se esqueceu do aprendizado. E tinha eterna gratidão pelo mestre Itamar Tagliari. Tantas foram as disputas, algumas contra adversários de renome, como Palmeiras, Santos e Corinthians, que pensava em seguir carreira. E tinha plenas condições.

Mas naquele dia, no seu último mergulho, disse não se lembrar do que aconteceu. Já havia feito o mesmo pulo, a mesma entrada no rio, várias vezes. Nunca, jamais, nada havia acontecido. Mas desta vez, bateu com a cabeça num banco de areia. Fraturou a coluna com lesão na medula. Com o impacto, perdeu todos os movimentos do pescoço para baixo. “Se um amigo que estava do meu lado não notasse que algo estava errado e me tirasse da água, teria morrido afogado”, lembrou.

No mesmo dia do acidente, Ozires foi levado de carro até a sua casa. Em seguida, para o hospital de Guaíra. E, depois disso, transferido a Umuarama, quando permaneceu por um mês. Mas o caso era grave demais. Parou em Curitiba. Então, em poucos meses, a vida da família mudou radicalmente. A vida tranquila de antes transformou-se numa tempestade. Na capital do estado, sem conhecer ninguém, passaram a morar numa quitinete. Era o local encontrado mais próximo do Hospital das Clínicas, onde estava internado. Na época, a ajuda de muitas pessoas de Guaíra e Campo Mourão foram fundamentais. Ozires tinha 13 anos quando tudo aconteceu. Menino, não tinha ideia o que significava uma lesão da medula.

Na inocência de menino, acreditava que as coisas voltariam a ser como antes. Que depois de um tempo voltaria a andar. Mas era ilusão. O fim dos sonhos do precoce jogador já havia sido decretado. A vida lhe pregara uma grande peça. Daquelas vistas apenas em filmes. “Quando foi decidido que íamos a Curitiba, pensei comigo: Preciso levar minhas chuteiras pra tentar jogar em um time da capital. Quanta ilusão. Por um lado, foi bom ainda pensar dessa forma”, disse ele.

Nova vida

A adaptação à nova vida, teve início após a sua ida até o Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília, em outubro de 1985. Durante o tratamento e os 38 anos como cadeirante, Ozires não teve momentos de revolta, tristeza ou desespero. Segundo ele, o processo foi movido pela tranquilidade. Dia após dia. Sol a sol.

Finalmente, quando deu conta de como seria sua vida dali por diante, já estava adaptado. O futebol foi esquecido. A paixão mudou agora para os computadores. Ozires descobriu outro talento. Desde os 14 anos começou a se especializar em informática. Fez vestibular e passou no curso de Processamento de Dados na Escola Técnica da Universidade Federal do Paraná. Logo após iniciar os estudos, ganhou o primeiro computador, graças a generosidade do casal Denir e Iracema Daleffe. Em 1995 concluiu o aprendizado e começou a trabalhar como programador, além de dar aulas de informática em casa.

Ganhava seu próprio dinheiro e já ajudava a mãe com algumas contas. Em 1998 fez concurso público para Técnico em Informática do Serpro. E passou. Mudanças a caminho. Passou a trabalhar oito horas por dia. “A satisfação de começar a trabalhar com o que sempre sonhei era muito grande. Mas sem o apoio de meus pais e irmãs não teria conseguido. Devo muito a eles”, afirmou.

Insistente, depois de alguns anos trabalhando como técnico, acreditava que poderia melhorar ainda mais na profissão. Foi então que em 2006 passou no vestibular para o curso de Tecnologia em Informática, na UFPR. E, em 2008, fez pós-graduação na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC), em MBA, Gestão de Projetos de Softwares. No mesmo ano trabalhava de dia e estudava a noite.

Quem disse que Ozires tinha limitações, errou. Ele era a perseverança em pessoa. Em 2005, faltando um semestre para acabar o curso, fez concurso para Analista de Sistemas do Serpro e, é claro, passou. Foi como num daqueles chutes certeiros, da época em que fuzilava os goleiros. “Assumi o cargo de Analista de Sistemas, no qual estou até hoje”, disse durante sua visita a Campo Mourão, em 2012.

Olhando para tudo o que passou, Ozires estava satisfeito com suas conquistas. Feliz. Se recordava da pequena Campo Mourão, ainda na década de 70, quando voltava cansado dos treinamentos da Tagliari. Lembrava de suas esquinas, do Colégio Santa Cruz. Foi uma época de felicidade, ainda quando não tinha preocupações.

Ozires dizia que apenas uma coisa não havia mudado: sua fé em Deus. “Eu e minha família passamos por momentos bem complicados. Acreditar em Deus com certeza ajudou a superar tudo com equilíbrio, sem desespero, na certeza que algo melhor viria”. Definitivamente, Ozires era o cara.

Morte

Mas em 2022, aos 51 anos de idade, o destino se encarregaria de lhe pregar mais uma peça. Em março, após um quadro febril, foi levado ao hospital. Lá ficou por oito dias com antibióticos. Exames nada revelaram. Dois meses depois, a febre retornou. E somente após uma ressonância, descobriu-se uma grande infecção no rim, ocasionado por um cálculo renal.

A preocupação com a saúde de Ozires era tanta que a família montou um grupinho nas redes sociais para acompanhar a situação: “Ozires News”. Então, em 18 de maio, ele se submeteu a cirurgia. Antes de adentrar ao centro cirúrgico, ainda perguntou ao médico: “Doutor, o procedimento vai demorar? É porque hoje tem jogo do Athletico e eu quero ver”. Atleticano roxo, Ozires não perdia um só jogo. Realizada a cirurgia, ele voltou ao quarto.

Atleticano roxo, Ozires não perdia os jogos do “Furacão” na Arena.

A mãe, Lúcia, o aguardava. Aliás, ela sempre prometeu ao filho jamais deixá-lo. Era a sua maior companheira. Mesmo por um só instante. E ela sempre cumpriu a promessa. “Assim que chegou da cirurgia, ele ficou repousando, dormindo. Mais tarde, ele acordou. Então liguei a tv. Por volta das 23h55, ele apagou. Então chamei a enfermeira. Senti, no meu coração, que algo não estava bem”, disse Lúcia.

A médica de plantão foi insistentemente chamada, aparecendo uma hora depois. E somente após exames de sangue, chegaram a conclusão de que Ozires estava com infecção generalizada, sendo removido à Unidade de Terapia Intensiva. “Na verdade, meu filho já havia entrado em estado de coma no quarto. Eu senti que tinha alguma coisa errada naquele momento”, lembrou.

Com a promessa de não o deixar, Lúcia iniciou uma luta para ficar ao seu lado na UTI. E somente depois de muita discussão, conseguiu ali permanecer. Diante do quadro extremo de gravidade, Ozires foi intubado imediatamente. Passou por novos exames. Foi então que, dois dias depois, os médicos optaram em retirar a sedação. Era o momento de testar as reações. Mas nada aconteceu.

A aflição e a angústia preenchiam o coração de toda a família. Sônia e Luciane, irmãs de Ozires, acompanhavam toda a situação, passo a passo, minuto a minuto. Assim como as sobrinhas, Anna e Valentina, e os genros, Gledson e Paulo. Eram momentos de desespero, escuridão.

Então, no dia 21, ainda cedo, Lúcia ouviu do médico que a infecção havia atingido o cérebro. E que o quadro era quase irreversível. Mesmo levando o maior golpe de sua vida, Lúcia preferiu acreditar no contrário. Ela ainda achava que o filho voltaria.

Lúcia e o filho Ozires lutaram juntos contra o acidente

Agora, mantido vivo apenas pelas máquinas do hospital, Lúcia permaneceu ao seu lado até o dia 23 de maio. “Para desligar os aparelhos os médicos me falaram que eu tinha que autorizar a desligar as máquinas. Pois ele já não estava mais com a gente. Diante de tanto sofrimento, tudo foi desligado”, lembrou a mãe. As 17h20, foi confirmada a morte de Ozires. A sua vida chegava ao fim. Mas não a sua história.

Exemplo

A história de Ozires é um livro. É uma trajetória de superação. É uma obra de exemplos. Apesar de não possuir os movimentos, como a maioria das pessoas, ele fez tudo o que quis. Com o seu trabalho ajudou a mãe, em todos os sentidos. Pagou a faculdade da sobrinha, Anna e parte dos estudos de Valentina, outra sobrinha. E, de certa forma, Fez todos os desejos das meninas, a quem chamavam de “tio do coração”.

Ozires sempre tinha a companhia da sobrinha Anna, a quem colaborou pagando os estudos

Nos momentos de férias, Ozires levava a família aos Estados Unidos. Tudo com o próprio trabalho. Deixou exemplos de integridade, inocência, honestidade. E provou que todos são iguais. Todos podem fazer o que desejarem. Além de formar Anna, Ozires não conseguiu ver Valentina formada. O seu tempo, não colaborou. Ele vinha pagando o colégio particular da mais nova. E não abria mão disso. Se preocupava com as meninas e queria as ver bem, com um bom futuro. Com a sua morte, a sobrinha teve que voltar à escola pública.


Lúcia, a mãe guerreira

Lúcia sempre esteve ao lado de Ozires. Aliás, sua vida se transformou após o acidente. Ela foi forçada a se reinventar. Com o tratamento do filho, em Curitiba, ela largou a vida em Guaíra e passou a morar na capital. Para sempre. Sem recursos financeiros, encarou muitas, inúmeras dificuldades. Chorou sozinha, sem ninguém ver. Mas se manteve em pé, como uma verdadeira guerreira. É que havia algo maior a ser preservado: o filho.

Ela foi a maior incentivadora de Ozires. O apoiou em tudo. E passou a dedicar a própria vida a ele. Preocupada com a falta de grana, tomou coragem e, aos 30 e poucos, arrumou um emprego. O primeiro emprego da vida. “Eu pensava comigo, o que é que eu vou fazer? Não sei fazer nada e já estou velha”, disse.

Mas a vida é cercada por mistérios e surpresas. Através de uma amiga, ela foi convidada a fazer uma entrevista de trabalho. Uma empresa de consórcios. A apreensão era tamanha que, tomou coragem apenas dois dias depois. Então, foi em busca da vaga. Lá, confidenciou ao chefe que nada sabia fazer. E, à sua surpresa, recebeu uma resposta incentivadora do patrão: “A vaga é sua. E não se preocupe. Você aprenderá o que fazer”.

O emprego não foi apenas o primeiro. Mas o único em toda a sua vida. Após mais de 30 anos ali, acabou se aposentando. “Eu devo muito a eles. Me ajudaram a superar meus medos. Sem contar que, quando eu precisava sair para ajudar meu filho, sempre foram solícitos”, disse ela.

E foi trabalhando que Lúcia conseguiu equilibrar as finanças da casa. Nunca foi fácil. Nunca sobrou. Mas também, parou de faltar. Ela praticamente lutou sozinha ao lado de Ozires. É que, embora casada, Otacílio, o marido, permaneceu mais de dez anos distante da casa.

Ele trabalhava no Paraguai, com fretes de caminhão. Tinha três. E nunca aceitou o acidente do filho. Mesmo assim, deixava o país vizinho, a cada 30 dias, para viajar a Curitiba. “Ele simplesmente não aceitava o acidente. E preferiu ficar distante”, revelou Lúcia. Passados os anos, Otacílio retornou do país vizinho, agora, com uma mão na frente, outra atrás. Havia perdido tudo.

De volta a casa, passou a contribuir com as despesas. Ele conseguiu emprego de porteiro, no mesmo prédio onde a família morava, durante 18 anos. Mas, mesmo desejando retomar a proximidade com Ozires, o filho o mantinha distante. “Ozires não o desrespeitava. Respeitava o pai. Mas não o perdoava pela sua ausência durante os anos anteriores”, disse Lúcia. Otacílio morreu em 2015, vítima de um câncer na próstata.

Lúcia era tão companheira do filho que, em 86, decidiu voltar aos bancos escolares, principalmente, para ficar ao seu lado. Devido ao acidente, Ozires parou na quinta série. E retomou os estudos, agora, ao lado da mãe. “Estudamos juntos até 1994”, disse ela. Ozires tinha Lúcia. Lúcia tinha Ozires. Era uma mistura perfeita. Tipo arroz com feijão. Queijo e goiabada. A amizade era muito forte. Nos finais de semana, juntos, iam até Balneário Camboriú. Ele adorava o passeio e pedia a mãe que, um dia, fossem morar ali.

Hoje, Lúcia vive sozinha no apartamento que ela conseguiu comprar, no centro de Curitiba. E só Deus e ela sabem do esforço para tal conquista. Aposentada, quase sempre tem a presença da neta Valentina em casa. Lúcia tem duas filhas, Sônia e Luciane. Agora, a meta da mãe é escrever um livro, contando o legado de Ozires. Um exemplo à eternidade.


Família morou em Campo Mourão até 1984

Até janeiro de 1984, a família morou no Jardim Alvorada, próximo a sede da Coamo. E tinham uma vida tranquila. Lúcia e Otacílio sempre foram muito fiéis a Deus. Rotineiramente, ela levava Ozires e Sônia às aulas, de ônibus, principalmente, por não ter um carro. Estudavam no Colégio Santa Cruz. Lúcia cuidava da casa. Já naquela época, o marido trabalhava carregando madeira às serrarias da cidade, através de seu caminhão. De uma maneira geral, uma família normal.

Ozires também ia aos treinamentos da escolinha Tagliari de ônibus. Juntos, viviam bem. Nada faltava à família. “Não éramos ricos. Mas vivíamos bem financeiramente e, principalmente, com saúde”, lembrou Lúcia. Naquela época, além de cuidar de casa, Lúcia colaborava com a comunidade do Jardim Alvorada. Ela ajudava na Pastoral da Saúde e no Apostolado da Oração.

“Formamos vários grupos de comunidade de base. Naquele tempo também fiz parte da comissão para conseguir terrenos para a construção da Igreja Santa Rita de Cássia. E conseguimos”, disse. Segundo ela, logo que deixaram Campo Mourão, em janeiro de 1984, as obras de sua edificação já haviam começado. “Por nove anos fiz parte dessa comunidade. E digo com absoluta certeza que foram esses nove anos dentro da igreja que me prepararam espiritualmente. Me fortaleceram para o resto da minha vida”, concluiu.