Ana. José. Raquel. Mileni. Ludmila. Todos lutam como Florence
Nas camas de hospitais, pessoas em desespero. Nos corredores frios, famílias angustiadas. Dor. Solidão. Lágrimas. Enquanto isso, quem aquece a esperança, são os profissionais de saúde. Médicos e enfermeiros. Estes últimos foram pautados por Florence Nightingale. Ela inspirou. Foi uma reformadora social. Ficou famosa por ser pioneira no tratamento a feridos de guerra. Considerada a fundadora da enfermagem moderna, baseou a data comemorativa da profissão ao dia do seu nascimento: 12 de maio. Não distante do que ocorre numa guerra, o mundo hoje está em conflito. Mas não humanos contra humanos. Contra um vírus. Os ensinamentos deixados por Florence, estão em prática. E em boas mãos.
O trabalho desenvolvido por Florence continua moldando os profissionais de hoje. Aos 22 anos de idade, Ana Beatriz Ibba Rivatto, acaba de se formar em enfermagem. Tem apenas cinco meses de profissão. E dois deles, no Hospital Santa Casa de Campo Mourão. Ana acredita que a enfermagem exige um vasto conhecimento científico. E deve ser aplicada de forma humanizada. Isso tudo, compreendendo as individualidades de cada paciente. “Devemos prestar uma assistência de qualidade. De forma humana. Considerando os recursos disponíveis.
Ainda nova no ramo, ela começa a aprender rotinas, fluxos de atendimento e o modo de operar do hospital. Tudo, desafios. Mas que acaba se tornando fácil. Principalmente, com o apoio recebido da coordenação e demais colaboradores da entidade. “Entrar na instituição e com poucos dias lidar com a questão do Covid, foi algo assustador no início”, disse. Afinal, fluxos, normas e condutas eram atualizadas constantemente. Na verdade, Ana pegou uma bomba atômica nas mãos. Mas com paciência, conseguiu colocá-la em local “seguro”.
Ana entrou menina, recém adolescente, na Santa Casa. Já é adulta. Teve que conciliar seus medos ao vírus, com a exposição dos próprios familiares. “Foi algo muito difícil”, afirma. Em apenas dois meses como enfermeira, presenciou mudanças físicas na instituição. Mudanças de equipe. Redirecionamento de fluxos. E viu também nascer a solidariedade da população com os profissionais. “Os funcionários se fortaleceram entre si. Mesmo distantes, através do olhar de cada um, nos sentimos mais próximos. Cada paciente de alta é uma vitória pessoal, é como se pudéssemos dizer: tudo vai dar certo no final”, explica.
Tratando doentes e não a doença
Aos 41 anos, José Carlos Rodrigues Batista, trabalha há 16 na área. Enfermeiro, tem paixão pelo que faz. Principalmente, porque lida com a vida. Não com a doença. Mas com os doentes. Segundo ele, trata-se de um ofício com grandes desafios. Um deles, a falta de valorização. Salários defasados. Sobrecarga no trabalho. Falta de equipamentos. Equipe reduzida. Num resumo geral, o reflexo da Saúde no país.
José explica que o Covid mudou a forma de vida. A rotina. “Tínhamos uma rotina de sair de casa para o trabalho. E depois voltar para nossas famílias. Chega uma doença de forma desconhecida causando apavoramento social. Nós tivemos que nos distanciar de todos. É dolorido”, disse. De acordo com ele, mesmo se protegendo, o stress no meio social teve consequência aos profissionais. “Muitos se afastaram de nós por medo de transmissão”, afirma.
Trabalho em equipe
Raquel Lima de Brida tem 39 anos. Doou 17 à enfermagem. E desses, 13 à Santa Casa. Já foi docente. E nos últimos três anos é gerente de enfermagem do hospital. Lidera uma equipe de mais de 300 profissionais. Acredita que a missão é promover uma assistência segura e humanizada. Mas, mesmo capacitada, jamais acreditou viver um momento como o atual. “Nesse momento de luta contra o corona, o trabalho é em equipe. Espero que a invisibilidade social da categoria termine. E a sociedade compreenda a sua importância”, disse. Ela deseja que os profissionais de saúde continuem sendo lembrados não só agora. Mas em todos os outros dias de trabalho.
Adepta dos ensinamentos deixados por Florence, Raquel tem na enfermagem sua missão de vida. E ela vai construindo seu legado. Acredita no que faz. E por quem faz. Tem satisfação quando vê mais uma cama de hospital vazia. Sinal de mais uma alta. Deseja ver o sorriso das famílias. O alívio do enfermo. A saúde se estabilizando. A vida seguindo seu fluxo habitual. Raquel sabe o que quer.
Carinho como incentivo
Mileni Francisca Gomes de Souza tem muito mais que um belo sorriso. Dos 34 anos, já dedicou 10 à profissão. Há sete anos trabalha como supervisora de enfermagem das alas gerais da Santa Casa. Com a pandemia, apesar do medo e da insegurança, diz que todos foram desafiados. Por algo invisível. “A enfermagem mais uma vez, mostrou que tem força e garra para enfrentar qualquer batalha”, disse.
Como líder, ela aprendeu a lidar com a necessidade de ser forte. Mesmo quando tudo parece desmoronar. Afinal, é um ser humano. E têm suas fragilidades. O incentivo, no seu caso, surge da alegria de um familiar ao receber uma boa notícia. Vem de uma palavra de agradecimento. Vem de um sorriso. Vem das lágrimas da felicidade. E isso, não tem dinheiro que pague.
Ludmila Alves Rodrigues é enfermeira há 18 anos. Como os demais, tem desafios diários. Mas sempre humanizando a assistência ao paciente. Seu objetivo, sempre, é a alta. Mas com a presença do temido Covid, as coisas mudaram radicalmente. O que não mudou foi a sua perspicácia. Ou seja, ela continua representando a esperança de inúmeras famílias que ali deixam seus entes. Se por um lado tem que estar ao lado dos enfermos, por outro, não pode abraçar sua família. Desde março. De uma maneira geral, está isolada dentro da própria casa. Convive com o marido e o filho de sete anos. Mas não os têm como deseja. E isso dói na alma. “Quero que tudo volte ao normal. Mas quando interno um novo paciente, meu desejo fica mais distante. Mesmo assim, não perco a minha fé”, diz.
Florence Nightingale
Florence Nightingale nasceu em 12 de maio de 1820 na Inglaterra. E morreu em 1910. Foi uma enfermeira, uma reformadora social e escritora. Ficou famosa por ser pioneira no tratamento a feridos de guerra. Durante a Guerra da Criméia. Era chamada de “A dama da lâmpada”, por se servir deste instrumento de iluminação ao auxiliar os feridos durante a noite.
Ela é considerada a fundadora da enfermagem moderna, sendo pioneira na utilização do modelo biomédico, baseando-se na medicina praticada pelos médicos. Florence, uma anglicana, acreditava que Deus a havia chamado para ser enfermeira. Também contribuiu no campo da estatística, sendo pioneira na utilização de métodos de representação visual de informações, como por exemplo gráfico setorial (habitualmente conhecido como gráfico do tipo “pizza”) criado inicialmente por William Playfair.
Nightingale lançou as bases da enfermagem profissional com a criação, em 1860, de sua escola de enfermagem no Hospital St. Thomas, em Londres. A primeira escola secular de enfermagem do mundo, agora parte do King's College de Londres. O Juramento Nightingale feito pelos novos enfermeiros foi nomeado em sua honra, e o Dia Internacional da Enfermagem é comemorado no mundo inteiro no seu aniversário.

