Clayton e seu curriculum de crimes; conheça a história do recordista de prisões no Paraná

Aos 10 conheceu a maconha. Aos 11 já furtava. Com 12 matou um homem. Aos 16 atuou numa facção criminosa em Curitiba. Hoje, aos 21 anos, já roubou casas, lojas, carros, traficou, bateu e apanhou. Foi preso tantas vezes que é considerado pela PM o recordista em detenções em todo Paraná. Sim, Clayton Pinheiro foi preso 42 vezes. Em todas elas, jamais gastou dinheiro com advogados. Sempre permaneceu detido poucos dias e foi posto à rua pela própria justiça. Em Campo Mourão, visitou tanto a cadeia que têm amigos prontos a recebê-lo. E ele sempre retorna. Em sua breve história de vida, Clayton sentou-se à mesa com este repórter. Conversou por mais de duas horas. Abriu seu coração. Foi sincero. Contou sobre seus medos. Confessou os pecados. E pediu uma chance para deixar o mundo do crime. Ele ainda é bastante jovem. Mas experiente demais para quem adotou a profissão, assumidamente, de ladrão.

Clayton é um jovem pardo, franzino, pobre e com inúmeras tatuagens. Um jovem sério, que não desperdiça um único sorriso. Permaneceu sisudo durante a entrevista. Na verdade, não têm motivos para sorrir. Vem de uma família que deixou a favela há pouco tempo. Cresceu num ambiente nada propício a uma criança. Ainda menino viu a mãe ser presa. Ela assumiu a bronca do filho mais velho – Claudemir, o “Besteira”. Ele havia guardado drogas na casa. Bateu no peito e disse ser a dona. A polícia não quis saber. A levou por três longos anos. Menino, presenciou a violência do pai. A mãe, segundo ele, teria passado por abusos e muitas agressões. Tudo à sua frente. Nos anos sem a mãe, Clarice, teve que se virar. O pai não apareceu nem para por comida à mesa. O jeito foi roubar. 

Não fossem as tatuagens, o corpo de Clayton seria uma colcha de retalhos. Possuí cicatrizes por todo lado. Pescoço, peito, braços, mãos. Mas, segundo ele, as marcas não vêm do mundo do crime. Mas da ex esposa, a mãe de seu único filho. Ela tem um histórico de ciúmes capaz das maiores loucuras. “Ela me deu duas facadas por causa de um bolo. Só porque eu disse que estava muito doce”, disse. Depois de falar sobre o açúcar, uma discussão aconteceu. Em seguida uma briga. Depois agressões. Por fim duas facadas. Ontem, ele estava com vários outros arranhões e um corte no punho direito. Foi ao hospital dar pontos. “Ela me abriu com um caco de vidro”, explicou. Embora não estejam mais juntos, os dois mantém um filho de três anos. O mesmo a quem Clayton promete ser, um dia, exemplo.

“Cleitinho”, como é conhecido, poderia ter caminhado pelas vias do bem. Mas optou pelo caminho do mal. Cresceu num mundo de adultos. Num meio já doente. Junto a violência e às drogas. Não conseguiu ter bons exemplos. Talvez, o maior deles tenha sido o irmão mais velho, o “Besteira”. Quando a mãe estava presa, era ele quem punha comida na mesa. Vendia drogas para isso. Certamente não era a via correta. Mas era o que tinha. Ele conta que “Besteira” morreu bem cedo. Era o mais velho dos irmãos. Quis o destino que virasse traficante. Morreu pela polícia há quase dois anos. 

Em 2017 o jovem até tentou sair do crime. Arregaçou as mangas e buscou emprego num restaurante de Bauru, interior de São Paulo. Na época, o cunhado – irmão da esposa de Clayton – viu a situação do casal e tentou ajudar. Ele tinha cargo bom no restaurante. Então levou o casal e o filho para lá. Em Bauru a vida seguia à prosperidade. Os dois estavam registrados no mesmo emprego. A criança ficava com uma babá. Tiravam quase R$4 mil por mês. Iam ao mercado e enchiam os carrinhos com comida. Era um tempo novo. Uma nova vida. “Eu estava feliz da vida. Ali eu senti que iria deixar o crime. Não precisava mais fazer o que eu fazia”, lembra. 

Mas o ciúme da esposa falou mais alto. Um dia, dentro do restaurante, uma nova discussão. Uma nova briga. Os dois foram mandados embora. Adeus interior de São Paulo. Deu tudo errado. Acabaram retornando a Campo Mourão onde a coisa voltou como antes. Pequenos furtos. Roubos. Brigas, discussões. A vida desandou. 

Mas Clayton não desistiu de endireitar. Agora buscou uma vaga em um ferro velho de Campo Mourão. Os donos do negócio gostavam dele. Tanto é que ficou ali até o final do ano passado. O problema, segundo ele, é que não era registrado. Então o pagode vinha R$500, ora R$800. “Eu pensava comigo que, fazendo meus roubos podia faturar até R$300 por dia. Quer saber, vou embora daqui. Não voltei nem pra pegar os últimos trocados”, disse.

Dona Clarice, mãe, diz já ter se acostumado com rotina do filho

A mãe teve seis filhos. Hoje, dois são ainda menores de idade. Claudemir, o mais velho, já foi. Depois vieram Maicon, 23, Clayton, 21 e Jonatan, 20. Em comum, com exceção dos mais novos, todos com passagens pelo crime. Jonatan continua preso. Foi pego furtando a casa de um policial. Maicon saiu recentemente. Ficou sete meses preso acusado por homicídio. Já Clayton, somente no último mês, conseguiu ser preso duas vezes. Ao todo não ficou mais que quatro dias detido.

Dona Clarice, embora esconda a tristeza, diz já ter se acostumado com a rotina dos filhos. Ela não queria que fosse assim. Aos 41 anos de idade, mora numa casa de alvenaria bastante simples, sem pintura. A casinha, com quatro cômodos, é dela mesma. Fica num bairro humilde da cidade. Ela trabalha como doméstica e tira cerca de R$1,2 mil por mês. A grana é curta demais pra tantos “BOs” da turminha. Trata-se de uma mulher bonita. Tem traços bem delineados no rosto. Mas a beleza foi ofuscada diante de tanta amargura. Ela sofreu mais que o limite poderia suportar. E o sofrimento ainda não acabou. 

Seu carma foi marcado pela escolha de maus companheiros e por ser uma mãe de verdade. Daquelas com letras maiúsculas. Em 2008 foi presa por acobertar o tráfico do filho mais velho. A polícia entrou na casa e encontrou a droga. Não deixou o filho ser preso. Assumiu a culpa. Pagou por isso e permaneceu presa por três anos. Quando retornou à liberdade encontrou os filhos perdidos para o crime. “Já era tarde demais. O pai deveria ter dado exemplo. Tinha que ter ficado no meu lugar. Mas ele sempre foi um mau exemplo com álcool e drogas”, disse. Clarice, é uma guerreira. Mostra no rosto todo esforço que fez e ainda faz pelos meninos. Mas nunca foi fácil. O mundo jamais estendeu a mão a ela. Mesmo assim, consegue ecoar uma voz baixinha: “Eu tenho esperança que eles se endireitem na vida”.

Há alguns anos, Clarice foi brutalmente espancada pelo marido. Ele estava bêbado e completamente fora de si. Ela foi atingida por uma grande pedra na cabeça. Caiu desmaiada. Segundo relatos, ficou 15 dias internada em coma. Mas como uma guerreira, voltou à vida e ao trabalho. Ela lamenta o que passou. Dias desses, enquanto saiu para trabalhar, ladrões invadiram sua casa. Roubaram todo o pouco que mantinha. Chorou apenas pelo botijão de gás. “Poderiam ter deixado pra que eu fizesse ao menos a comida”, disse. Mas segundo ela, ainda existem pessoas boas no mundo. Uma mulher do condomínio onde trabalha, ficou sabendo do roubo e deu outro.         

Maioria dos roubos é encomendada, diz Clayton

Clayton diz ser bom no que faz. Segundo ele, a maioria dos roubos é encomendada. Sempre alguém passa a ficha do que quer e onde está. E aí ele atua. É dinheiro certo. Ele adentra em lojas, restaurantes, residências. Foram muito mais de 100 locais visitados por ele. Só respeita igrejas. Primeiro ele estuda o local prometido. Entra apenas quando não tem ninguém. Não vai armado. O próximo passo é pular o muro. Se tem cachorro não é problema. Quando é grande, amarra. Quando é hiper ativo, prende. Mas quando late muito, o jeito é arremessá-lo pelo outro lado do muro. “Nunca machuquei nenhum. Eles têm medo de mim”, disse.

Uma vez rendido o cão, ele invade. No interior do imóvel, permanece pouco tempo. Pega o necessário. Depois some. Ele não deseja, nunca, encontrar com o dono. “Já vou desarmado porque não sou a favor de violência. Não faço reféns e não ameaço”, diz. Conhecedor das leis, ele sabe que, uma vez armado, a pena é severa. Ainda mais com violência. Para isso ele atua com base no artigo 155 – furto. Em todos os casos em que caiu em cana, neste artigo, nunca ficou mais que dez dias preso. “Eu nunca gastei um único centavo com advogados. Todas as vezes a justiça me soltou”, disse. Embora não tenha muito estudo, saber o código penal é dever de casa.  

Depois de furtar, repassa os objetos e ganha sua grana. “Cara, o que parece difícil, é fácil demais pra mim. As vezes até me surpreendo. Penso como foi que entrei aqui”, diz. Ele lembra da vez que roubou uma tv de 55 polegadas num lado da cidade. Atravessou toda Campo Mourão com ela no colo, sobre a magrela. Das 42 vezes em que foi preso, Clayton caiu por furto, roubo, Maria da Penha, homicídio e tentativa de homicídio. Uma outra vez foi preso pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), quando roubou um carro.

Não se considera um cara do mal. Faz o que faz para sobreviver, ressalta. “Nunca dei uma facada em ninguém. Não ameaço. Nem ando armado”, diz. Segundo ele, as únicas duas vezes que usou da violência foi devido a intensa emoção. Uma delas matou. Outra tentou matar. Ele explica que a maior parte das vezes que sai a noite é para se divertir. Sair para beber com amigos, “pegar umas mina”. “Nem brigo na rua. Saio pra curtir mesmo. Quando saio com a galera nem penso em roubar”, diz.      

Homicídio

Clayton conta que em 2012, ainda aos 12 anos, cansou de ouvir do irmão mais velho, que apanhava do pai de um amigo. Jonatan vinha da escola chorando. Ele tinha uma “treta” com o filho de um homem de 42 anos. O conflito entre os meninos fez com que o pai entrasse na história. Além de bater no irmão de Clayton, o marmanjo ainda fazia o filho surrá-lo. E o pior: eram vizinhos. Mas teve um dia que o limite bateu a sua cabeça. Ele pegou um revólver calibre 32, procurou o homem e deu um único tiro no seu peito. Caiu morto. Clayton fez sua vingança, honrou o irmão, assumiu a bronca e ficou quase um ano apreendido. 

O jovem diz se arrepender do que fez. Principalmente, em virtude das consequências de seu ato. É que, de acordo com ele, um ano depois, o filho da vítima, o mesmo que tinha “treta” com Jonatan, acabou entrando para o tráfico. Foi morto aos 15 anos, uma rua acima de onde o pai morreu. “Eu tenho ciência que, o que eu fiz, devo prestar contas a Deus um dia. Acabei com a família dele. Destruí a vida da mulher, das filhas e do filho dele”, disse. 

Clayton diz que foi a única morte do seu vasto curriculum. No entanto, lá pelo ano de 2015, tentou matar um outro rapaz. Ele havia sido convidado por alguns “chapas” a ir para Curitiba. Lá, passou a fazer parte de uma facção do crime. Mesmo não querendo, passou a traficar no bairro Guarituba. Um dia, soltava pipa num terreno baldio. Era um dia normal. Uma brincadeira de menino. Mas chegou um homem e começou a ofendê-lo. Xingou a mãe, o ameaçou. Quando notou que a coisa estava séria, correu à casa e apanhou uma pistola 9 milímetros. 

Então foi atrás do homem. Mas nem precisou andar muito. Ele tinha seguido Clayton e estava ao lado da casa. Sem pensar duas vezes, Clayton disparou 16 vezes. Por obra do destino, no momento em que sacou a arma, uma viatura dobrou a esquina, vindo em sua direção. A guarnição vinha enquanto o homem recebia os tiros. Os 16 projéteis atingiram o homem que, como num roteiro de cinema, caiu sobre o capô do carro da polícia. 

Como toda ação tem uma reação, os policiais saíram da viatura e retrucaram os tiros contra Clayton. Ele lembra que foram muitos tiros. Ficou ileso. Correu tanto que conseguiu escapar. Já a sua vítima não teve a mesma sorte. Foi atingido 16 vezes. Foi socorrido a tempo, ficou mal, mas ainda assim, sobreviveu. “É, mas a facção não perdoou. Um ano depois disso ele morreu”, conta. Clayton foi reconhecido e preso dias depois por tentativa de homicídio. Ficou um dia preso. 

Preso pela PRF

No final de 2019, Clayton decidiu roubar uma Saveiro em Campo Mourão. Estudou, roubou, levou. Então ligou para um conhecido que a negociou no Paraguai. Noutro dia ele pegou o irmão e juntos, atravessaram a fronteira. Pelo carro receberia 50 quilos de maconha, o que renderia no Brasil, R$50 mil. Tava tudo certo. Já traziam a droga quando Clayton recebe uma ligação. Era um conhecido de crime. Ele pedia que devolvesse o veículo. O dono seria um amigo em comum. Clayton então falou aos paraguaios que tinha que desfazer o negócio. Pediram R$1,2 mil para que voltasse com a Saveiro. Cleitinho ligou de volta ao conhecido e falou sobre a grana. Sem problemas. Mandaram os R$1,2 mil. 

Ele e o irmão deixaram o Paraguai com a Saveiro e, quando passaram pela cidade de Iporâ, já no Paraná, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) os abordou. O veículo estava com queixa de roubo. Os dois caíram. “Mas não deu nada, não. Fiquei lá poucos dias. Até chegar uma defensora pública e me tirar. Nem acreditei”, disse.                  

“Eu gostaria que alguém me desse um emprego registrado”, diz ao pedir chance 

“Cleitinho” não soube responder se, quando morrer, irá ao céu ou ao inferno. Mesmo assim diz acreditar em Deus. Ele até frequentava a igreja. Mas parou de ir. “Me desviei um pouco da religião. Mas ficar me escondendo por trás da Bíblia, como muita gente faz, não dá”, acredita. O jovem é bastante sincero. Durante toda a entrevista deu detalhes e não poupou se auto condenar. Segundo ele, o mundo do crime não é o que ele deseja. Não é pra qualquer um. E faz um apelo: “Eu gostaria que alguém me desse um emprego registrado. Queria mostrar que não sou uma pessoa ruim. Gosto de trabalhar. Só não tive sorte na vida”, clama. 

Apesar de todo seu histórico, ele pretende voltar a estudar. Concluiu o primeiro ano do ensino médio. Mas quer mais. Diz que o ambiente da escola pode fazer com que tenha boas companhias, ao invés das más, que o influenciaram ao mundo cão. Isso tudo ajudaria a acabar com um trauma que vem convivendo: o preconceito.

Clayton não é hipócrita. Ele sabe que sua vida, seu passado, o transformaram numa espécie de monstro aos olhos da sociedade. Tanto é que sente isso na pele. Dias desses adentrou a uma loja no centro. Sentiu-se mal. Notou que pessoas o apontavam. Saiu como um bicho acuado. “Nunca mais entro em lojas na minha vida”, disse. Também passou por uma situação constrangedora na área central no final do ano. Passava a pé pela calçada quando um casal de idosos apontou o dedo. “Eles disseram: olha ali o ladrão”. Não bastasse tudo isso, Clayton ainda se pergunta: “Quem vai dar um emprego pra mim”? Além do mais, ele está preocupado com o filho. Acredita que, se não mudar, o menino irá seguir os seus passos. Ele sabe que a fruta quase nunca caiu longe do pé. Fora isso também tem seus medos. Não de morrer. Mas de ser alvejado por tiros e acabar numa cadeira de rodas.    

O jovem é um menino que cresceu antes do tempo. Foi obrigado a se tornar adulto pelas circunstâncias da vida. Se é um santo? Naturalmente que não. Mas já superou a meta de vida. “Achei que não passaria dos 20. Mas hoje fiz 21”, lembra. Enquanto não tem uma reviravolta em seu caminho, as ocorrências policiais aumentaram mais uma vez. Em meio aos dias de entrevistas, ele foi preso pela 43ª vez, agora pela Lei Maria da Penha. Discutiu e brigou com a ex-esposa, novamente. Afinal, como ele diz, ex-mulher é para sempre.