Família contesta abordagem a homem com histórico de AVC em Campo Mourão
A família de Nivaldo, de 50 anos, questionou nesta terça-feira (18) a conduta de agentes municipais durante uma abordagem de trânsito ocorrida na segunda-feira (17), em Campo Mourão. Um vídeo que mostra o homem no chão, chorando, repercutiu nas redes sociais e levou a prefeitura a anunciar a abertura de um Processo Administrativo Disciplinar (PAD).
Nivaldo tem histórico de acidente vascular cerebral (AVC). Segundo os familiares, o carro abordado era utilizado para levá-lo às sessões de fisioterapia. A família afirma que ele ficou sem assistência adequada depois que o veículo foi recolhido. A Prefeitura de Campo Mourão, por sua vez, sustenta que os agentes aguardariam a chegada de outro automóvel para que ele fosse transportado.
A TRIBUNA esteve na residência da família nesta terça-feira. Ainda abalado, Nivaldo chorou ao recordar o episódio. “Eu me senti muito humilhado. Nunca fomos humilhados dessa forma”, relatou. Segundo a família, um irmão e amigos foram chamados para ajudá-lo e levá-lo para casa.
O advogado Roberson Ferreira Bueno, que representa os familiares, afirmou que o questionamento não é sobre a fiscalização ou o recolhimento do automóvel, mas sobre o atendimento dispensado a Nivaldo. “Eles não se furtam de entregar o carro. A única preocupação realmente foi o ato desumano de deixar uma pessoa acometida por AVC na situação em que ela esteve”, disse. Ao advogado, Nivaldo resumiu o impacto emocional da abordagem. “Eu me senti menor que um cachorro. Talvez um cachorro tivesse sido melhor tratado do que eu fui”.

Versões
A esposa de Nivaldo, Andréia, relatou à defesa que explicou aos agentes a condição de saúde do marido e pediu ajuda durante a ocorrência. Conforme o depoimento repassado ao advogado, um dos servidores teria respondido: “Isso não é problema meu”.
Andréia também teria sido orientada a acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Segundo a família, o serviço foi procurado, mas não havia ambulância disponível naquele momento. Diante disso, parentes e amigos foram chamados.
A prefeitura contesta a versão de que Nivaldo tenha sido deixado no local sem que uma alternativa de transporte fosse providenciada. Em nota divulgada após a repercussão do vídeo, o município afirmou que as imagens publicadas nas redes sociais não mostram todo o contexto da abordagem.
De acordo com a administração municipal, os agentes informaram que aguardariam a chegada de outro veículo para fazer o transbordo e permitir que Nivaldo fosse transportado adequadamente. Ainda segundo a versão apresentada pela Prefeitura, a condutora decidiu retirá-lo do carro e teria dito que o deixaria no local para filmar a situação e publicar as imagens nas redes sociais.
A defesa, no entanto, questiona essa narrativa. Roberson Bueno observou que o vídeo divulgado não mostra os agentes, a viatura, o automóvel da família nem o guincho. “O vídeo não tem uma viatura presente, não está o agente presente, não está mais o veículo da vítima presente, nem sequer o guincho”, declarou.
61 multas
Segundo informações fornecidas pela Prefeitura, o automóvel acumulava 61 multas de trânsito, que somavam mais de R$ 18 mil. O veículo também possuía dois bloqueios judiciais que impediam a emissão do licenciamento e um bloqueio administrativo relacionado à Polícia Rodoviária Federal (PRF).
A administração informou ainda que a condutora estava com a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) vencida havia mais de dois anos. Conforme o município, o recolhimento ocorreu em razão dessas irregularidades e não foi uma medida arbitrária.
A família não contesta as providências administrativas relacionadas ao veículo. O advogado afirma que as infrações e a conduta adotada durante a abordagem são questões distintas e devem ser analisadas separadamente.
Processo administrativo
Após a repercussão do caso, o prefeito Douglas Fabrício publicou um vídeo nas redes sociais. Ele reconheceu as irregularidades apontadas no automóvel, mas afirmou que elas não justificariam uma eventual falta de atenção à condição de Nivaldo. “Um erro não justifica o outro erro”, declarou.
Para o prefeito, o atendimento deveria ter priorizado a situação da pessoa abordada.
“Nós temos que cuidar das pessoas. Primeiro dar atenção às pessoas. Depois verificar a questão dos veículos”, afirmou. Douglas disse que pode ter faltado “empatia” e “o lado humano” na condução da ocorrência. Também anunciou a abertura de um Processo Administrativo Disciplinar para esclarecer os fatos. Conforme a Prefeitura, o procedimento garantirá o contraditório e a ampla defesa aos servidores envolvidos. Caso seja constatada alguma irregularidade funcional, o município informou que adotará as medidas previstas no estatuto dos servidores.
O prefeito também anunciou que a administração iniciou estudos para instalar câmeras nos uniformes dos agentes de trânsito. A intenção é registrar integralmente as futuras abordagens e facilitar o esclarecimento de ocorrências.
Paralelamente ao procedimento administrativo, a defesa orientou a família a registrar um boletim de ocorrência na Polícia Civil. O objetivo é permitir que os fatos também sejam analisados pelas autoridades policiais. O advogado Roberson Bueno informou que pretende reunir vídeos, documentos, depoimentos e outros elementos relacionados ao episódio. Após essa análise, a família decidirá se adotará medidas na esfera cível.
O procedimento administrativo deverá esclarecer a sequência da abordagem, o atendimento prestado a Nivaldo e a atuação dos servidores. Até a conclusão das apurações, permanecem divergentes as versões apresentadas pela família e pela prefeitura.
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