Administração: entre teorias e a realidade brasileira
Setembro é o mês do Administrador. Mais do que uma data comemorativa, é uma oportunidade de refletir sobre uma profissão que ajudou a transformar empresas, instituições e o próprio Estado brasileiro. Em 9 de setembro de 1965, a profissão foi regulamentada pela Lei nº 4.769, tornando-se um marco para uma área que já vinha sendo construída no Brasil havia décadas.
A história da Administração brasileira começa antes da regulamentação profissional. Na década de 1930, em um país em profundas transformações, cresceu a necessidade de organizar o Estado e profissionalizar sua estrutura administrativa. Durante o governo de Getúlio Vargas, esse movimento ganhou força com a criação, em 1938, do Departamento Administrativo do Serviço Público, o DASP. Entre suas atribuições estavam a organização dos serviços públicos, o planejamento orçamentário, a seleção de servidores e o aperfeiçoamento do funcionalismo.
É importante entender esse processo. A Administração Científica não foi simplesmente a reprodução das ideias de Frederick Taylor ou de outros autores estrangeiros. Houve a incorporação de princípios como racionalização, planejamento, divisão do trabalho, padronização, profissionalização e busca por eficiência, aplicados à realidade brasileira. Naquele momento, consolidava-se uma ideia importante de Getúlio Vargas: governar também é administrar.
O movimento teve méritos que merecem ser reconhecidos. A profissionalização do serviço público, a valorização do mérito, o planejamento, a organização e a busca por eficiência ajudaram a construir uma Administração Pública mais técnica. Ao longo do tempo, porém, parte desse projeto perdeu forças.
E talvez aqui esteja uma pergunta necessária: por que essa história é tão pouco discutida? Por que falamos tão pouco sobre a contribuição da Administração para a formação do Estado brasileiro?
A própria formação acadêmica da área merece reflexão. Grande parte das teorias estudadas no Brasil recebeu forte influência norte-americana. Essa aproximação foi fundamental para consolidar o ensino, a pesquisa e a profissionalização da Administração, mas também fez com que modelos estrangeiros fossem, muitas vezes, tratados como referências universais. O problema não está em estudar Taylor, Fayol, Drucker, Porter ou outros grandes pensadores. O problema está em acreditar que uma teoria desenvolvida para determinada realidade econômica e cultural pode ser aplicada automaticamente ao Brasil.
É necessário, sim, estudar o mundo, mas sem deixar de estudar as teorias brasileiras. Nossa realidade é marcada pela diversidade regional, desigualdades, forte presença do Estado, informalidade e uma estrutura empresarial na qual pequenas e médias empresas têm enorme importância. Temos desafios próprios e precisamos produzir conhecimento capaz de dialogar com eles. Me alegra destacar que o Brasil possui, sim, importantes pensadores e pesquisadores na área da Administração, como o baiano Alberto Guerreiro Ramos, entre tantos outros que contribuíram e continuam contribuindo para a construção de um pensamento administrativo brasileiro. Não se trata de desconsiderar essa produção, mas de reforçar a necessidade de ampliar, no ensino da Administração, o espaço para os desafios que encontramos no cotidiano das nossas organizações e instituições. A Administração brasileira precisa conhecer as grandes teorias internacionais e, ao mesmo tempo, olhar para si mesma e produzir conhecimento a partir de sua própria realidade.
Por fim, digo que a relevância da profissão aparece tanto no setor público quanto no privado. O administrador está nas finanças, no marketing, na gestão de pessoas, na logística, nas operações, no planejamento estratégico, na tecnologia, no empreendedorismo e em tantas outras áreas. Está na pequena empresa que precisa organizar seu fluxo de caixa, na empresa média que busca crescer e na grande organização que toma decisões estratégicas de enorme impacto.
Por isso, valorizar o Administrador não significa apenas defender uma categoria profissional. Significa reconhecer que decisões mal administradas custam caro: dinheiro, tempo, empregos, oportunidades e, no setor público, qualidade de vida para a população. Viva o Administrador! Viva a Administração!
Rosinaldo Nunes Cardoso é administrador, especialista em Gestão de Pessoas e Inteligência Competitiva, mestre em Administração com foco em Empreendedorismo, Inovação e Mercado. Atualmente, é Diretor de Pesquisa e Gestão do IPPLAN e Professor do curso de Administração da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR)

