Isso farmou aura”: a Geração Alfa já chegou. E nós, chegamos ao mundo dela?

Enquanto debatemos se “isso farmou aura”, eles já estão construindo um mundo em que as regras, as profissões, as formas de aprender e até mesmo o significado de sucesso podem ser completamente diferentes daqueles que conhecemos hoje.

Se você não sabe o que significa “farmou aura”, esse texto é pra você que está atrasado. A frase, que para muitos soa como um idioma desconhecido, talvez seja um dos maiores símbolos do nosso tempo. Mais do que uma gíria, ela representa uma mudança profunda na forma como as novas gerações se comunicam, constroem identidade, atribuem valor social e interpretam o mundo. Se antes cada geração era marcada por um comportamento específico, agora a velocidade das transformações faz com que diferenças de cinco ou seis anos já pareçam separar universos culturais completamente distintos.

Não é apenas uma questão de linguagem. A forma de demonstrar respeito mudou, o conceito de carisma mudou, os códigos de status mudaram. Durante décadas, o prestígio esteve associado à formalidade, à experiência e ao domínio técnico. Hoje, autenticidade, criatividade, capacidade de comunicação e influência digital disputam esse espaço. A geração que cresceu conectada não necessariamente valoriza o currículo mais extenso, mas sim a capacidade de aprender rápido, resolver problemas e produzir impacto. Isso não significa ausência de respeito ou de comprometimento, como frequentemente afirmam os críticos. Significa que o respeito passou a ser conquistado de maneira diferente, menos pela hierarquia e mais pela legitimidade.

Essa transformação costuma gerar conflitos entre gerações dentro das empresas. Enquanto muitos gestores interpretam comportamentos mais diretos como falta de educação ou comprometimento, os mais jovens enxergam estruturas excessivamente rígidas como falta de diálogo, transparência e propósito. Não se trata de uma geração melhor ou pior. Trata-se de pessoas formadas em contextos completamente diferentes. Quem nasceu em um mundo analógico aprendeu que estabilidade era sinônimo de sucesso. Quem nasceu em um mundo digital cresceu vendo profissões desaparecerem, novas carreiras surgirem e tecnologias mudarem em questão de meses.

Os dados ajudam a compreender esse cenário. Segundo levantamentos do Fórum Econômico Mundial, cerca de 39% das habilidades consideradas essenciais para o trabalho deverão mudar até 2030 em função da transformação tecnológica, especialmente impulsionada pela inteligência artificial. Ao mesmo tempo, milhões de empregos tendem a desaparecer enquanto outros tantos serão criados, exigindo competências que sequer existiam poucos anos atrás. Paralelamente, pesquisas mostram que jovens valorizam cada vez mais flexibilidade, desenvolvimento contínuo, saúde mental e propósito no trabalho, fatores que frequentemente pesam tanto quanto a remuneração na escolha de uma vaga.

É justamente aí que muitas empresas ainda parecem presas ao passado. Continuam recrutando profissionais para um mercado que já não existe. Exigem experiência para cargos de entrada, selecionam pessoas apenas por currículos tradicionais, valorizam processos seletivos longos e burocráticos e ignoram competências comportamentais que hoje fazem enorme diferença. Enquanto isso, a nova geração demonstra habilidades de adaptação, domínio tecnológico, pensamento visual, produção de conteúdo, colaboração em ambientes digitais e aprendizado autodirigido, competências muitas vezes invisíveis nos métodos tradicionais de recrutamento e seleção. O resultado é previsível: empresas reclamam da falta de talentos enquanto jovens reclamam da falta de oportunidades.

A inteligência artificial amplia ainda mais essa ruptura. Diferentemente das gerações anteriores, que precisaram aprender a usar computadores ou smartphones ao longo da vida, os mais jovens convivem com ferramentas de IA desde cedo. Produzem textos, imagens, apresentações, códigos e pesquisas utilizando recursos que já fazem parte da rotina. A discussão deixou de ser se a IA substituirá pessoas; a questão passa a ser quais profissionais saberão trabalhar em parceria com ela. Curiosamente, isso exige menos memorização e mais pensamento crítico, criatividade, comunicação, ética e capacidade de formular boas perguntas. A tecnologia automatiza tarefas; o diferencial humano passa a ser a inteligência para utilizá-la.

Talvez isso explique parte de outra questão que insiste em desafiar o Brasil: a elevada evasão no ensino superior. Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira e de diferentes estudos sobre permanência acadêmica mostram que uma parcela significativa dos estudantes abandona a graduação antes da conclusão. As razões são diversas, passando por dificuldades financeiras, necessidade de trabalhar e problemas pessoais. Mas seria ingenuidade ignorar outra hipótese: será que parte dessa nova geração simplesmente não se reconhece mais em um modelo educacional concebido para outra época?

Ainda predominam salas de aula estruturadas para transmitir conhecimento de forma linear, avaliações centradas na repetição de conteúdos e currículos que frequentemente demoram anos para incorporar mudanças que o mercado absorve em meses. Enquanto isso, do lado de fora da universidade, jovens aprendem programação em comunidades online, dominam edição de vídeo em plataformas digitais, estudam inteligência artificial por meio de cursos livres, constroem negócios nas redes sociais e desenvolvem competências em ambientes colaborativos. Isso não significa que a universidade perdeu sua relevância. Pelo contrário. Mas talvez ela precise assumir um novo papel: menos como única fonte de conhecimento e mais como espaço de pensamento crítico, pesquisa, inovação e desenvolvimento humano.

Também chama atenção o fato de que muitas profissões que ganharão relevância na próxima década ainda são pouco conhecidas pelos próprios estudantes. Especialistas em IA, engenharia de prompts, governança de algoritmos, ética em inteligência artificial, análise de dados, design de experiências digitais, segurança cibernética e integração entre tecnologia e negócios já representam áreas em expansão. A pergunta que fica é: será que estamos preparando essa geração para profissões que ainda nem conhecemos ou continuamos formando profissionais para ocupações que talvez desapareçam?

Há quem interprete as mudanças comportamentais como perda de valores. Talvez seja justamente o contrário. Cada geração sempre questionou as estruturas herdadas da anterior. O que muda agora é a velocidade com que isso acontece. A Geração Alfa, que começa a chegar aos espaços de consumo, educação e, em alguns anos, ao mercado de trabalho, crescerá em um ambiente onde a inteligência artificial será tão natural quanto a internet foi para a Geração Z. Ignorar essa realidade não fará com que ela deixe de existir.

Talvez a pergunta inicial precise ser reformulada. A questão não é apenas se já chegamos à Geração Alfa. A verdadeira pergunta é se empresas, escolas, universidades e lideranças já chegaram ao século XXI que essa geração habita. Porque, enquanto ainda debatemos se “isso farmou aura”, eles já estão construindo um mundo em que as regras, as profissões, as formas de aprender e até mesmo o significado de sucesso podem ser completamente diferentes daqueles que conhecemos hoje. E talvez o maior erro seja acreditar que estamos apenas diante de uma nova geração, quando, na verdade, estamos diante de uma nova lógica de sociedade.

Rosinaldo Nunes Cardoso é administrador, especialista em Gestão de Pessoas e Inteligência Competitiva, mestre em Administração com foco em Empreendedorismo, Inovação e Mercado. Atualmente, é Diretor de Pesquisa e Gestão do IPPLAN e professor do curso de Administração da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR).