Os nomes antigos esquecidos de Campo Mourão
Quase todo mundo sabe que a origem do nome Campo Mourão veio de Dom Luís Antônio de Souza Botelho Mourão, nobre português que governou a Capitania de São Paulo, à qual pertencia o Paraná. Mas poucos conhecem suas denominações antigas. Esse é o objetivo deste artigo: uma regressão histórica aos muitos nomes de Campo Mourão desde os tempos da conquista espanhola e portuguesa. Coisas que não se ensinam nas escolas.
Quando o conquistador espanhol Álvar Nuñes Cabeza de Vaca cruzou a borda da região à frente de uma expedição rumo à Assunção, em 1541, deu a essas terras o nome de “Terra de Vera”. Mas era um nome espanhol.
É muito mais representativa a denominação Guarani “Kuaraciberá”, que significa “Sol resplandecente”. Esse era o nome do cacique senhor do território entre os vales dos rios Ivaí e Piquiri na segunda metade do século XVI, na gênese da ocupação espanhola. O estado do Paraná era então a “Província do Guairá”, com dois povoados, “Cidade Real do Guairá” e “Vila Rica do Espírito Santo”.
Os jesuítas, em seu avanço ao sul do Guairá, para organizar mais reduções em seu projeto de catequização indígena, deram o nome à planura entre os rios Ivaí e Iguaçu de “Campos”. E aos seus índios, de “Camperos” e “Gualachos”. Eram povos da macrofamíia Gê, com hábitat e idioma diferentes dos Guaranis, que formaram quatro missões nas cercanias do rio Piquiri. Esses são os atuais índios Kaingangs e Xoklengs.
Entre 1628 e 1631, os bandeirantes paulistas e suas hordas de arqueiros Tupis atacaram as missões jesuíticas e levaram os índios catequizados para trabalho escravo em suas fazendas. Os poucos sobreviventes passaram ao Paraguai e às reduções do rio Paraná. Os “mamelucos”, como eram chamados os paulistas, acabaram também com Cidade Real e Vila Rica. Foi o fim da província espanhola do Guairá. Houve um esvaziamento de Guaranis da região, que já vinham morrendo por contágio de doenças dos europeus. Seus territórios foram aos poucos ocupados pelos Kaingangs. E agora um salto na história.
Campos do Mourão
A denominação em homenagem ao governador Dom Luís Antônio de Souza Botelho Mourão foi dada em 1769, durante a expedição luso-brasileira de reconhecimento do capitão Estevão Ribeiro Baião, a segunda de 11 campanhas ao sertão. Coube ao sobrinho de D. Luís, Afonso Botelho, organizar as campanhas.
D. Luís foi designado pela coroa portuguesa para proteger o sul do Brasil dos espanhóis, que tinham invadido a Colônia Sacramento e o Rio Grande de São Pedro, pondo em perigo a própria Capitania de S. Paulo. Cabia a ele restaurar a economia de S. Paulo e alargar as fronteiras para o oeste. Militar de personalidade forte, executou um plano próprio e se indispôs com Lisboa. Concentrou esforços nas expedições em busca dos férteis campos de pastagens de Guarapuava, e a oeste, na fortaleza do Iguatemi, afluente da margem direita do rio Paraná.
Por sua ordem, acidentes geográficos já conhecidos foram renomeados para garanti-los à coroa portuguesa. O rio Ivaí virou Rio de Dom Luiz; o rio Corumbataí Rio Mourão; Vila Rica (ruínas) virou Vila Real do Rio Mourão; e o rio Paraná, Rio Grande do Botelho. Mas essas denominações não vingaram, com exceção dos “Campos do Mourão”.
Paiquerê e Abarracamento
No século XIX, esses mesmos campos ganharam a denominação “Paiquerê”, que significa “Campos do senhor” ou “Campos do cacique” em Kaingang, segundo Ermelino de Leão. Após a ocupação dos campos de pastagens de Guarapuava e de Palmas, tornou-se um sonho dourado das elites campeiras descobrir esses campos para criar gado. Por mais de quatro décadas partiram expedições de Guarapuava e Curitiba tentando descobrir o “Paiquerê”. Sem sucesso. Em uma publicação de 2012, o historiador Lúcio Tadeu Mota revelou que o “Paiquerê” corresponde aos Campos do Mourão.
A região tomou ainda a denominação de “Campo do Abarracamento” após a visita de expedicionários que tentavam localizar o “Paiquerê”, em 1842. A expedição do militar Antônio Pereira Borges partiu da Freguesia do Amparo (Ponta Grossa) e desceu o rio Ivaí em oito canoas. Passou por grandes laranjais e bananais, resquícios da época dos espanhóis, perto da foz do rio Corumbataí. E cruzou com a expedição de Guarapuava, de Francisco Ferreira da Rocha (Rochinha), no lugar que batizaram de “Porto do Bom Encontro”.
Juntos, em 15 canoas, esses homens desceram até o rio Paraná em 10 dias de viagem, avistando muitos índios nas margens do Ivaí. A campina onde a expedição de “Rochinha” acampou, antes de pegar o Ivaí, na margem esquerda, ganhou o nome “Campo do Abarracamento”. Ela teria 12 por 6 Km, a 48 quilômetros do “Porto do bom encontro”. Do rio Paraná, os expedicionários seguiram por terra à Guarapuava. A descrição de sertões até o rio Piquiri corresponde aos Campos do Mourão e, além, à Campina do Vitorino e aos Campos das Laranjeiras, referências históricas da margem esquerda.
Essas informações constam de um ofício que o Barão de Antonina (João da Silva Machado), financiador da expedição de Guarapuava, enviou ao Ministério da Guerra em 1842. Os mapas da Província do Paraná de 1853 e 1866 registram os “Campos do Abarracamento” na região que corresponde a Campo Mourão.
Quando a família Pereira, liderada por José Luiz Pereira, povoou Campo Mourão, em 1903, tomou conhecimento do “Campo do Abarracamento”, procurou tirar a dúvida. A questão foi esclarecida: os Pereira estavam no lugar certo. Mas a cisma permaneceu ainda por muito tempo no imaginário de alguns dos primeiros mourãoenses: Campo Mourão ou Abarracamento?
Silvestre Duarte é jornalista, escritor e neto de pioneiros de Campo Mourão

