Ângela Gerardth Lüpges morre aos 105 anos
Morreu nessa segunda-feira (15) em Goioerê Ângela Gerardth Lüpges. Ela tinha 105 anos de idade e ficou conhecida depois que a Tribuna contou a sua história com o marido alemão, Richard Lüpges, morto na década de 70. Nascido na Alemanha, ele serviu a Primeira Guerra ao lado do irmão, Henrich. Mas antes da batalha, fizeram um pacto. Henrich, o mais velho, já era casado e tinha três filhos. Caso morresse, o mais novo assumiria seu posto. E assim aconteceu.
Richard, solteiro, honrou a promessa. Deixou de viver a própria vida com a namorada que amava, “Tanti”. Retornou à Colônia, cidade alemã onde vivia a família, e assumiu a cunhada, Elizabeth, e os seus três sobrinhos ainda pequenos. A história dos Lüpges jamais havia sido contada. Estava escondida. Richard morreu em 1977, no interior do Paraná. Grande parte de sua memória perdeu-se com ele. Ângela foi sua última companheira.
Filha mais nova de Richard com Ângela, Ângela foi quem narrou os fatos da trajetória do pai. Ela guardou calada os relatos que ouvia desde criança. Eram histórias aterrorizantes da guerra. Mas ao mesmo tempo, exemplos de muita honestidade e amor. Uma caminhada de trabalho, sobrevivência e persistência. Ela contou que Richard permaneceu nos horrores da Primeira Guerra Mundial do início ao seu fim – 1914 a 1918. Lutou em trincheiras de lama e sangue. Viu os melhores amigos morrerem. Pior que isso. Soube da morte de seus cinco irmãos na mesma guerra, incluindo Henrich, com quem fez o pacto. Ele não sabia, mas o governo alemão, erroneamente, enviou informes da sua própria morte aos seus pais. Após o final da guerra, quando chegou em casa, a mãe não acreditou no que via. “Teve um choque tão grande quando o viu que seu coração, já castigado pelo sofrimento, não suportou. Ele ainda a pegou no colo, mas ela já tinha morrido”, disse Ângela.
No mesmo ano Richard cumpriu a promessa feita ao irmão. Antes disso, rompeu com a namorada, “Tanti”, que havia feito juras de amor. “Ele amava aquela mulher. Mas teve a vida roubada por causa de sua promessa”, lembra a filha. Assim, ele mudou-se para a residência de Elizabeth e deixou de ser cunhado para transformar-se em marido. Da união, o casal teve mais um filho, ainda na Alemanha, Rechard Joseph. Assistindo a possibilidade de novos conflitos, principalmente, organizados pela ultra direita nazista, Richard decidiu abandonar a Alemanha. Na verdade, traumatizado com o que viveu nas trincheiras, ele não conseguia enxergar a possibilidade de atuar em outra guerra. “Além de tudo o que viu, ele havia sido atingido na perna por uma granada. Mesmo andando normalmente, à noite, ele não suportava as dores”, lembra Ângela. Anos adiante, 1967, o pai teve que amputar a perna.
Então, em 1924, Richard desembarcou no Brasil, no Porto de Santos, com Elizabeth e três dos quatro filhos. Uma das crianças teve uma doença contagiosa durante a viajem e morreu. O corpo foi jogado ao mar. Ainda no porto, a família teve todos os seus pertences roubados. Malas, pratarias, roupas, utensílios. Tudo foi levado. Sobrou apenas o dinheiro que Richard carregava nos bolsos. Erechim, Rio Grande do Sul, foi o destino escolhido pela família. E foi ali onde a rotina da família voltou ao normal. Richard era ferreiro na Alemanha. No Brasil trabalhou com vulcanização de pneus, moinho de trigo e madeira.
Com o passar dos anos, Richard entendeu os costumes brasileiros. A língua também deixara de ser obstáculo, uma vez que a região abrigava inúmeras famílias alemãs. Por volta de 1926, o casal teve mais uma filha, Analisa. Elizabeth Giesen Lüpges, a ex cunhada que virou esposa, faleceu em 1949. Nesta época, triste pela perda da companheira, Richard tentou retomar a vida que havia perdido, antes da guerra. Então enviou uma carta à ex-namorada do pré guerra, “Tanti”. Mas a carta demorou muito para chegar. Sem respostas e com a solidão batendo à porta, o alemão aproximou-se da costureira da família, Ângela Gerardth.
Aos 55 anos Rechard casou-se com Ângela, 35, e tiveram três filhos, Jorge, Rosa e Ângela, hoje com 69, 67 e 63 anos respectivamente. Mas como num roteiro sem precedentes, a carta enviada a “Tanti” um dia chegou ao seu destino. E, anos depois, chega a Erechim, a moça alemã com quem Richard era para ter se casado. Ela veio ao Brasil atrás do seu alemão, mas não sabia que já estava casado. Sem falar nada do português, sem entender os hábitos e, ainda, sem ter nem onde dormir, “Tanti” foi acolhida pela própria esposa de Richard. “Minha mãe contou que a abrigou porque ficou com pena. Ela não tinha nada. Estava perdida. Principalmente, depois que descobriu que meu pai tinha se casado”, conta a filha.
“Tanti” passou a morar em Erechim e anos mais tarde mudou-se para São Paulo. A família de Richard deixou o Rio Grande do Sul no final da década de 50. Rumou ao interior do Paraná. Passaram por Cianorte, Paraíso do Norte e se estabeleceram por fim em Alto Paraná – 490 Km de Curitiba. Os dois sobrinhos que adotou como filhos também morreram. Ele os respeitou como filhos legítimos, cumprindo a promessa junto ao irmão. Richard viveu até 1977. Depois disso, a filha Ângela mudou para Goioerê, no Paraná. Ela residia ali até hoje ao lado da mãe, Ângela, e ex-companheira do pai. Ângela estava bastante debilitada devido a idade. Quase não comia e passava todo o tempo deitada sobre a cama. Ainda assim falava sobre o marido. “Ele era bravo. Muito bravo”, disse na época. Até ontem, Ângela não tinha doença alguma. O que se pode dizer é que a chama da vida se apagou.
Quem era Richard Lüpges
Richard era um homem magro, forte e com 2,04 de altura. Acreditava em Deus e no poder da família. Adorava ópera e devorava livros. Culto, falava apenas o necessário. Fazia operações matemáticas de cabeça. Gostava de receber amigos, sempre com um bolo a oferecer. Mesmo não bebendo, fazia questão em servir uma caixa de cerveja às visitas. No Brasil só trabalhava. Empreendedor, montou uma serraria com equipamentos velhos no Paraná. Mais tarde juntou dinheiro e importou maquinário novo da Alemanha para iniciar uma indústria de colchões de molas , na década de 60. Depois de pronta, a empresa foi consumida pelo fogo. “Um ex-funcionário, demitido por embriaguês, jogou gasolina e depois ateou fogo em tudo”, disse Ângela.
Devido a sua semelhança com Adolf Hitler, Richard apanhou nas ruas de Colônia, na Alemanha, antes de vir ao Brasil. Na ocasião, perdeu todos os dentes com os chutes que recebeu. “Meu pai era contrário a Hitler e o movimento nazista. Ele nunca concordou com a brutalidade, violência e a guerra. Dizia que a guerra era a maior estupidez do homem”, lembra a filha. No corpo já frágil, pouco antes de morrer, Richard ainda guardava diversas cicatrizes profundas ocasionadas pelos arames farpados nos campos de guerra.
Logo depois de 1967, quando perdeu a perna, ele entrou com pedido junto ao governo alemão para receber uma pensão pelo acidente da guerra. E passou a ganhar. Mesmo sendo um valor bastante significativo, conta a filha, Richard logo pediu o cancelamento do benefício. “Ele disse que não precisava, uma vez que ganhava bem com a loja que mantinha na cidade – Alto Paraná. Dizia que aquele dinheiro tinha que ser destinado a quem precisava”, afirma ela. “Aprendemos muito com ele. Honestidade. Ele era correto. Sério nos negócios. Ajudou muita gente”, disse.
Atormentado pela guerra
Richard Lüpges nasceu na Alemanha em 1894 e morreu no Brasil em 1977. Morreu aos 84 anos e sem uma das pernas. Nos últimos anos de vida passou escondido atrás de sua escrivaninha, em meio às lembranças, livros e anotações que fazia de suas memorias. Relatos de um tempo difícil de ser esquecido. Ficou na cadeira de rodas devido ao ferimento com a granada. Mesmo assim tomava conta de todos os negócios da família. Uma loja de móveis e vidraçaria. Aproveitava o tempo para escrever. Nos papéis em branco transformava sentimentos em relatos de dor e de sangue.
Mas o que era para ser um importante relato sobre a Primeira Guerra Mundial, perdeu-se. Um amigo de Richard gostou do que havia lido e pediu emprestado para mostrar a alguns conhecidos que também estiveram na mesma guerra. O amigo morreu e os escritos se perderam. “Ele não podia ouvir fogos de artifício, isso o incomodava porque traziam de volta o som das bombas da guerra. Sofria com o barulho”, lembra Ângela.
A filha conta que não havia um só dia em que ele não falasse alguma coisa sobre a guerra. Até as canções que cantava eram lembranças de sua terra, de sua casa, de sua vida, da guerra. Certa vez narrou que seu pelotão começava a perder força. Muitos homens mortos ao seu lado. Inclusive amigos. Sem chances de vitória naquela batalha, os poucos soldados saíram das trincheiras e correram para dentro dos vagões do trem que iniciava a partida. Os sobreviventes levavam destroços humanos dos tantos jovens soldados mortos ali.
Então, já dentro do vagão, Richard olhou para o lado e viu uma cena de intenso terror: soldados sujos de sangue, cabeças, braços e pernas espalhados por todo canto. Foi quando viu o corpo destroçado de seu amigo e companheiro de ópera. “Meu pai dizia que era impossível apagar aquela cena de sua cabeça”. Dias depois, enquanto rastejava sob arames farpados, uma granada explodiu estraçalhando a sua sua perna. Dentro do possível na época fizeram o que podia ser feito, inclusive enxerto de carne. Mas as feridas que se formaram nunca cicatrizaram. Por anos as feridas se fechavam e se abriam. Bem no final, as dores o venceram. A gangrena tomou conta e a perna teve que ser amputada em 1967.
Dez anos depois, ao meio dia de 22 de novembro de 1977, vítima de um acidente vascular cerebral, Richard Lúpges morreu. Morreu sem falar, embora tivesse muito a dizer. Sua história ficará guardada na memória dos filhos e, agora, também dos netos e bisnetos, que passaram a conhecer os caminhos percorridos pelo avô e bisavô.

