Caso Higgins: o mistério que colocou Luiziana na ufologia brasileira

Muito antes da internet, dos smartphones e das redes sociais, uma história extraordinária ocorrida no interior do Paraná colocou a região de Campo Mourão entre os mais curiosos cenários da ufologia brasileira. O episódio ficou conhecido como Caso Higgins e relata o suposto encontro do engenheiro agrimensor José Carlos Higgins com um objeto voador não identificado e seus ocupantes na então Colônia Goio-Bang, território que atualmente pertence ao município de Luiziana.

Passados quase 80 anos, o caso continua despertando interesse entre pesquisadores, historiadores, ufólogos e curiosos. Embora jamais tenha sido comprovado, o relato é considerado um dos mais antigos e detalhados registros de contato imediato com supostos extraterrestres no Brasil, sendo frequentemente citado em livros, revistas especializadas e estudos sobre fenômenos aéreos não identificados.

O episódio ocorreu em 23 de julho de 1947, em uma região ainda coberta por extensas áreas de mata e pouco povoada. Naquele período, Higgins realizava trabalhos de medição e levantamento topográfico quando afirmou ter ouvido um som estranho vindo do céu. Ao erguer os olhos, observou um objeto metálico de grandes proporções que descia lentamente em sua direção. Segundo seu relato, os trabalhadores que o acompanhavam fugiram assustados, enquanto ele decidiu permanecer no local para observar o fenômeno.

De acordo com o depoimento publicado semanas depois pelo jornal Diário da Tarde, de Curitiba, o objeto realizou uma espécie de manobra circular antes de pousar suavemente a cerca de cinquenta metros de distância. Higgins descreveu a estrutura como um aparelho metálico com aproximadamente trinta metros de diâmetro e cinco metros de altura, sustentado por hastes curvas que se apoiavam no solo. O material, segundo ele, possuía coloração cinza-esbranquiçada, semelhante ao metal polido, porém diferente da prata.

Ao aproximar-se cautelosamente, o agrimensor percebeu a existência de uma espécie de janela ou visor. Por trás dela, observou duas figuras humanoides que pareciam examiná-lo com curiosidade. Pouco depois, uma abertura surgiu na lateral do objeto e três seres deixaram o interior da nave.

A descrição feita por Higgins chamou a atenção de pesquisadores décadas mais tarde. Os seres teriam mais de dois metros de altura, cabeças grandes e arredondadas, olhos enormes e traços físicos incomuns. Vestiam uma espécie de escafandro transparente inflado, equipado com mochilas metálicas acopladas ao corpo. Sob esses trajes, utilizariam roupas leves e sandálias confeccionadas com um material brilhante.

Apesar da aparência considerada estranha, Higgins relatou que os visitantes não demonstraram qualquer agressividade. Pelo contrário, teriam tentado estabelecer algum tipo de comunicação. O agrimensor afirmou ouvir claramente a conversa entre eles, mas não conseguia compreender o idioma utilizado. Segundo seu depoimento, tratava-se de uma língua desconhecida, porém agradável aos ouvidos, composta por sons harmoniosos e ressonantes.

O momento mais intrigante da narrativa ocorreu quando um dos humanoides fez gestos convidando Higgins a entrar no objeto. O engenheiro aproximou-se da abertura da nave e tentou entender o que os visitantes pretendiam. Em determinado momento, um dos seres desenhou no chão um esquema representando o Sol cercado por sete círculos. Em seguida, apontava alternadamente para o sétimo círculo e para a nave, como se estivesse indicando o local de origem daqueles viajantes.

Sem saber exatamente o que estava acontecendo, Higgins afirmou ter mostrado aos visitantes uma fotografia de sua esposa. Utilizando gestos, procurou explicar que precisava retornar para junto dela. O relato conta que os seres não insistiram. Durante cerca de meia hora permaneceram observando o ambiente ao redor, demonstrando curiosidade em relação à paisagem e aos objetos encontrados na região.

Pouco tempo depois, retornaram ao interior da nave. O aparelho então teria levantado voo emitindo o mesmo silvo ouvido durante a chegada, desaparecendo rapidamente em direção ao norte até sumir entre as nuvens.

A história ganhou repercussão ainda em 1947. O primeiro registro conhecido foi publicado pelo Diário da Tarde em 5 de agosto daquele ano, recebendo nova abordagem dias depois. O caso também foi reproduzido por outros periódicos brasileiros. Em 15 de agosto, o jornal A Noite publicou uma reportagem sob a manchete “Marcianos descem no Paraná”, embora Higgins jamais tenha afirmado que os visitantes fossem provenientes de Marte.

Com o passar dos anos, entretanto, o episódio acabou caindo no esquecimento. Durante décadas, o relato permaneceu praticamente desconhecido na própria região onde teria ocorrido. Foi somente na década de 1980 que a história voltou a chamar atenção. O professor e pesquisador mourãoense Mauro Parolin encontrou uma referência ao episódio no livro Os Extraterrestres na História. Intrigado com a narrativa, passou a investigar suas origens e localizar documentos antigos relacionados ao caso.

A partir dessas pesquisas, o Caso Higgins voltou a circular entre estudiosos da ufologia e da história regional. Reportagens antigas foram recuperadas e novos estudos passaram a analisar o episódio sob diferentes perspectivas. Desde então, o caso passou a ser citado como um dos primeiros relatos brasileiros de contato imediato com supostos seres extraterrestres.

O interesse pelo episódio ultrapassou as fronteiras nacionais. Na década de 1970, o relato já havia sido mencionado em publicações especializadas da Europa, incluindo uma edição da revista francesa Phénomènes Spatiaux. Mais tarde, passou a integrar livros e estudos dedicados à catalogação de encontros com humanoides em diferentes partes do mundo.

Para muitos pesquisadores, a riqueza de detalhes apresentada por Higgins constitui um dos aspectos mais curiosos do caso. Alguns observam que os trajes descritos pelo agrimensor apresentam semelhanças com equipamentos espaciais que somente anos depois seriam utilizados por astronautas e cosmonautas durante a corrida espacial. Outros apontam que diversos elementos da narrativa se tornaram comuns em relatos de contato surgidos nas décadas seguintes.

Por outro lado, não existem evidências materiais capazes de comprovar a ocorrência do episódio. Céticos argumentam que o caso pode ter sido resultado de uma interpretação equivocada, exagero narrativo ou até mesmo uma experiência subjetiva vivida pelo observador. A ausência de registros fotográficos, vestígios físicos ou testemunhos independentes torna impossível uma conclusão definitiva.

Ainda assim, quase oito décadas depois, o Caso Higgins permanece vivo na memória regional. Entre a história e o mistério, o episódio continua alimentando debates e despertando a imaginação de quem se interessa pelos grandes enigmas da humanidade. Em Luiziana, nos antigos campos da Colônia Goio-Bang, permanece a pergunta que atravessou gerações: o que realmente aconteceu naquela tarde de julho de 1947?

Por Jair Elias dos Santos Júnior