Ansiedade e depressão crescem no interior do Paraná e revelam falhas no acompanhamento psicológico

Em 2024, o Brasil registrou quase 472 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais e comportamentais, segundo dados do Ministério da Previdência Social. O número representa um salto de 68% em relação ao ano anterior e é o maior da última década.

Entre as causas mais frequentes estão os transtornos de ansiedade, responsáveis por mais de 141 mil licenças, seguidos por episódios depressivos, com 113 mil casos.

Os dados não são abstratos. Eles se traduzem em pessoas que deixaram de trabalhar, de sustentar suas famílias e de manter uma rotina minimamente estável porque o sofrimento psíquico atingiu um ponto que o corpo não conseguiu mais absorver.

A dimensão do problema é global. A Organização Mundial da Saúde publicou em setembro de 2025 o relatório World Mental Health Today, apontando que mais de 1 bilhão de pessoas convivem com algum tipo de transtorno mental.

Ansiedade e depressão lideram como as condições mais prevalentes, sendo a segunda maior causa de incapacidade prolongada no mundo. O custo econômico é igualmente pesado: estima-se que essas duas condições gerem perdas de aproximadamente 1 trilhão de dólares por ano em produtividade.

O que preocupa, no entanto, vai além dos números absolutos. A OMS revela que, em países de média e baixa renda, a maioria dos pacientes diagnosticados com depressão não recebe tratamento minimamente adequado. O investimento médio global em saúde mental segue estagnado em 2% dos orçamentos de saúde, patamar que não se alterou desde 2017.

O reflexo no interior do Paraná

Campo Mourão, município que funciona como polo regional de saúde para mais de 25 cidades no centro-oeste do Paraná, sente os efeitos dessa crise de forma concreta.

A rede pública de saúde mental da cidade atende, segundo a prefeitura, mais de 1.000 pessoas em situação de sofrimento psíquico. O município conta com CAPS II, CAPS Infantojuvenil, CAPS AD e Ambulatório de Saúde Mental, além de um corpo de cerca de 50 profissionais dedicados ao tema.

O cenário é de esforço contínuo, mas também de limitações. A dependência de álcool e outras drogas concentra parte significativa da demanda, e a adesão ao tratamento segue como um dos principais obstáculos. Muitos pacientes abandonam o acompanhamento antes de atingir qualquer estabilidade clínica.

A equipe técnica local, inclusive, acaba de ser contemplada com o curso “Nós na Rede”, da Fiocruz, voltado à qualificação do atendimento psicossocial, o que sinaliza que a própria rede reconhece a necessidade de aprimoramento.

Para quem mora em cidades menores da região, como Farol, Juranda, Engenheiro Beltrão ou Luiziana, o acesso é ainda mais difícil. A concentração de serviços especializados em Campo Mourão obriga pacientes a percorrer distâncias que, somadas à precariedade do transporte público intermunicipal, funcionam como uma barreira real ao tratamento.

Quando o problema é crônico, o tratamento também precisa ser

Parte significativa do sofrimento psíquico que alimenta essas estatísticas não tem início repentino. São quadros que se arrastam por meses ou anos, agravados pela ausência de acompanhamento prolongado.

A pessoa sente os primeiros sinais de esgotamento emocional, talvez procure ajuda pontual, melhora momentaneamente e interrompe o processo. Meses depois, o quadro retorna com mais intensidade. Essa dinâmica é especialmente preocupante nos transtornos de ansiedade e nos episódios depressivos recorrentes.

De acordo com uma revisão sistemática publicada no repositório da UNIFESP, com base em 16 ensaios clínicos randomizados envolvendo mais de 1.600 pacientes, adultos submetidos a psicoterapia psicanalítica apresentaram redução significativa dos sintomas de ansiedade generalizada, ansiedade social e transtorno de pânico.

Os dados indicam que a abordagem psicanalítica é tão eficaz quanto outros tratamentos ativos investigados nesses estudos, com a diferença de que, em terapias de longa duração, os pacientes avaliados anos após o encerramento do tratamento continuaram apresentando melhora progressiva.

Esse efeito de continuidade é um dos aspectos menos compreendidos pelo público geral. A ideia de que psicoterapia tem prazo de validade curto, com resultados que desaparecem logo após o fim das sessões, não se sustenta quando a abordagem permite ao paciente investigar padrões emocionais profundos, e não apenas gerenciar sintomas de superfície.

O que muda quando o paciente escolhe investigar, e não apenas aliviar

Uma das dificuldades do tratamento em saúde mental é a expectativa de solução rápida. O modelo de consultas pontuais, comum tanto na rede pública quanto em boa parte dos planos de saúde, tende a priorizar a contenção imediata do sintoma. O paciente chega em crise, recebe orientação ou medicação, e o vínculo terapêutico se encerra antes de qualquer aprofundamento.

Abordagens de base psicanalítica operam numa lógica diferente. O processo terapêutico se constrói ao longo do tempo, e o paciente é convidado a observar como determinados conflitos se repetem na sua vida, nos seus relacionamentos, nas escolhas profissionais.

Essa observação, quando conduzida com técnica e regularidade, permite algo que o alívio medicamentoso isolado não oferece: a possibilidade de o paciente reconhecer e modificar padrões que sustentam seu sofrimento.

Pesquisadores da Fundação Menninger e do Helsinki Psychotherapy Study demonstraram, em ensaios clínicos acompanhados por vários anos, que a psicoterapia psicodinâmica de longa duração produz benefícios mais rápidos em suas fases iniciais e ganhos que se mantêm e até se ampliam após o término do tratamento.

Esses achados contradizem a crença popular de que terapias longas sejam menos objetivas ou menos eficientes.

Formação do profissional importa tanto quanto a escolha do tratamento

Outro ponto pouco discutido é a formação do psicólogo que conduz o processo. O Conselho Federal de Psicologia registra milhares de profissionais em atividade, mas a diversidade de formações e abordagens é enorme.

Para o paciente, a escolha de um terapeuta pode parecer aleatória. Poucas pessoas sabem que existe diferença entre um psicólogo generalista e um profissional que fez pós-graduação em uma linha clínica específica, como a psicanalítica.

A especialização em psicoterapia psicanalítica, oferecida por instituições como a UNIFESP e por centros de formação vinculados a sociedades de psicanálise, exige anos de estudo teórico, supervisão clínica e, muitas vezes, que o próprio terapeuta passe por seu processo de análise pessoal. Essa etapa não é burocrática: ela garante que o profissional tenha vivenciado, como paciente, o processo que vai conduzir.

Para quem busca ajuda, vale verificar a formação do profissional, o registro junto ao CRP da região e, se possível, perguntar sobre a abordagem utilizada e a duração estimada do tratamento. Não existe pergunta impertinente quando o que está em jogo é a própria saúde emocional.

Acesso ainda é o maior gargalo

Nem o aumento da conscientização sobre saúde mental nem o crescimento na busca por atendimento resolvem o problema central: a falta de acesso.

Dados da plataforma Doctoralia mostram que a procura por consultas de psicologia e psiquiatria no Brasil subiu 18,5% em 2025, somando mais de 11,2 milhões de agendamentos. O movimento indica que as pessoas estão buscando cuidado, mas a demanda pressiona uma oferta que já era insuficiente.

No Paraná, a 11ª Regional de Saúde, que tem sede em Campo Mourão, cobre 25 municípios. A maioria deles depende de equipes reduzidas e de encaminhamentos para o município polo.

A situação não é exclusiva da região. Em todo o país, segundo levantamento da Série SmartLab de Trabalho Decente 2025, realizado pelo Ministério Público do Trabalho e pela OIT, apenas 46% dos municípios brasileiros possuem políticas ou programas estruturados de atendimento a pessoas com transtornos mentais.

Enquanto a rede pública tenta ampliar cobertura e capacitação, cabe ao cidadão que tem condições financeiras buscar, por conta própria, o acompanhamento psicológico adequado.

E para quem depende do SUS, a recomendação de profissionais da área é procurar a Unidade Básica de Saúde do município e pedir encaminhamento ao CAPS ou ao ambulatório de saúde mental. O primeiro passo costuma ser o mais difícil, mas também o mais decisivo.

Um problema que não se resolve com respostas simples

Segundo Fabio Correa, psicólogo com especialização em psicoterapia psicanalítica, a saúde mental é um campo em que não funcionam atalhos. Os dados de 2024 e 2025 mostram que o Brasil enfrenta um problema estrutural, não episódico.

Os afastamentos não vão diminuir sem investimento em rede de atendimento, sem formação contínua de profissionais e sem que a população entenda que cuidar da mente exige o mesmo compromisso que cuidar de qualquer outra parte do corpo.

Para os moradores do interior do Paraná, onde a distância entre o paciente e o consultório pode ser medida em horas de estrada, esse compromisso precisa incluir também a cobrança por políticas públicas que levem o atendimento especializado para mais perto de quem precisa.

Enquanto isso não acontece na escala necessária, cada pessoa que decide procurar um psicólogo e manter o acompanhamento com regularidade já está, a seu modo, enfrentando uma estatística que só cresce.