Homenagens não bastam: o futuro do Brasil começa com a valorização de quem ensina
Valorizar a educação exige olhar para dois problemas que se cruzam: estudantes que não conseguem permanecer na escola e profissionais que enfrentam dificuldades para permanecer na carreira.
Neste Dia dos Professores, começo o texto com uma indagação sobre mim: sou administrador de formação e professor por vocação ou seria o inverso?
Às vezes, me pego perguntando como tudo isso aconteceu. Durante a graduação, não imaginava seguir a docência. Até que, um edital para atuar como educador em um projeto social voltado a jovens em situação de vulnerabilidade mudou minha trajetória. Foi ali que percebi transformações reais na vida das pessoas. E não falo apenas de condição financeira, mas de postura, pensamento, perspectivas e, sobretudo, da maneira de enxergar o mundo. O caminho me levou ao ensino superior e consolidou uma certeza: educar é participar da transformação de vidas (parece jargão, mas aprendi que é exatamente isso).
Mas a paixão pela profissão não pode nos impedir de enxergar seus desafios.
O Brasil ainda convive com uma realidade preocupante. Segundo o IBGE, em 2023, 9,1 milhões de jovens de 15 a 29 anos não haviam concluído a educação básica e estavam fora da escola. São milhões de histórias interrompidas, de oportunidades adiadas. A evasão escolar não é apenas um indicador educacional: ela reflete desigualdades sociais, dificuldades econômicas e a incapacidade de garantir que a educação seja, de fato, um caminho possível para todos (e alguns dizem que a meritocracia funciona).
Ao mesmo tempo, cobramos resultados de professores que, muitas vezes, trabalham em condições adversas e recebem uma remuneração incompatível com a responsabilidade que carregam. De acordo com a OCDE, em 2023, o salário inicial dos professores brasileiros dos anos finais do ensino fundamental era 47% inferior à média dos países da organização, segundo o relatório Education at a Glance 2024. Valorizar a educação exige, portanto, olhar para dois problemas que se cruzam: estudantes que não conseguem permanecer na escola e profissionais que enfrentam dificuldades para permanecer na carreira.
Não se trata de afirmar que a desvalorização docente, sozinha, explica a evasão. Trata-se de reconhecer que uma educação de qualidade depende de políticas consistentes, profissionais preparados, condições de trabalho e estudantes com oportunidades reais de aprender. Nessa mesma discussão, o professor Clóvis de Barros Filho, em palestra recente, nos convida a pensar sobre o sentido da docência e a importância de reconhecer o papel de quem educa, mas nem sempre a sociedade traduz esse reconhecimento em salários dignos, respeito profissional e condições de trabalho.
No ensino superior, essa responsabilidade ganha outras dimensões. Universidades não existem apenas para formar profissionais para o mercado. Elas produzem conhecimento, desenvolvem pesquisas, estimulam o pensamento crítico e levam soluções à sociedade por meio da extensão. Quando uma instituição investiga problemas locais, aproxima o conhecimento das comunidades e forma cidadãos capazes de questionar e transformar a realidade.
Por isso, em ano eleitoral, precisamos cobrar mais do que promessas sobre educação. É necessário exigir compromissos concretos com o financiamento do ensino, da pesquisa e da extensão, a permanência estudantil, a valorização dos professores e políticas de longo prazo que não mudem a cada ciclo de governo. Educação não pode ser apenas uma pauta de campanha, precisa ser um projeto de país.
Neste Dia dos Professores, celebro a profissão que não estava nos meus planos, mas que acabou dando novo sentido à minha trajetória. Continuo acreditando no poder transformador da educação, não por desconhecer suas dificuldades, mas justamente por conhecê-las.
A vocação nos move, mas não deve servir de justificativa para a precarização. Professores não precisam apenas de homenagens, aplausos e mensagens bonitas em outubro. Precisam de respeito, reconhecimento e condições para exercer seu trabalho durante todo o ano.
Afinal, se a educação transforma vidas e constrói o futuro de uma nação, como tanto se prega por aí, valorizar quem educa não é uma despesa, mas uma escolha sobre o país que queremos ser.
Rosinaldo Nunes Cardoso é administrador, especialista em Gestão de Pessoas e Inteligência Competitiva, mestre em Administração com foco em Empreendedorismo, Inovação e Mercado. Atualmente, é Diretor de Pesquisa e Gestão do IPPLAN e Professor universitário.

