O livre-arbítrio: dói quando a escolha é do outro?

Quando ouvimos falar em livre-arbítrio, é comum pensarmos em religião, fé ou naquela velha discussão filosófica sobre sermos realmente livres para escolher ou se tudo já estaria determinado. É um assunto enorme. Talvez grande demais para uma conversa de bar, e menos ainda para este pequeno texto de opinião. Mas existe um livre-arbítrio bem mais próximo de nós, que aparece todos os dias e, curiosamente, parece ser muito mais difícil de respeitar.

Ele está nas escolhas simples: responder ou não uma mensagem, aceitar um convite, mudar de ideia, terminar um relacionamento, escolher uma amizade, perdoar alguém ou simplesmente decidir ficar sozinho por algumas horas.

O problema é que, quando nossas escolhas envolvem outras pessoas, principalmente aquelas de quem gostamos, parece que a liberdade ganha algumas cláusulas escondidas.

“Mas você é meu amigo, deveria ter vindo.” “Se você gostasse de mim, faria isso.” “Depois de tudo que fiz por você, você vai escolher isso?” São apenas algumas, entre tantas outras frases que dizemos sem nos dar conta de que o outro também tem liberdade para escolher.

Às vezes, nem percebemos, mas transformamos afeto em uma espécie de contrato. Se somos amigos, esperamos determinadas atitudes. Se somos namorados, esperamos determinadas escolhas. Se somos família, então parece que existe até um manual de instruções.

E talvez uma das maiores confusões esteja justamente aí: amar alguém não significa ser dono de suas escolhas. Uma pessoa pode gostar muito de você e ainda assim não querer sair. Pode amar você e precisar de espaço. Pode ser sua amiga e discordar de você. Pode escolher outro caminho, conhecer outras pessoas, mudar de opinião ou simplesmente dizer “não”.

Isso não significa que os relacionamentos não tenham limites ou responsabilidades. Temos, sim, compromissos afetivos com aqueles que escolhemos ter por perto. Mas compromisso não deveria ser sinônimo de controle.

Há algo interessante nisso: estudos sobre autonomia e motivação, associados à chamada Teoria da Autodeterminação, mostram que a sensação de autonomia, perceber que nossas escolhas são realmente nossas, é uma necessidade psicológica importante. Ou seja, ter liberdade para escolher não é apenas uma questão filosófica; também faz parte da maneira como experimentamos nosso bem-estar.

Talvez respeitar o livre-arbítrio de alguém seja, portanto, uma das formas mais silenciosas de demonstrar carinho.

É dizer: “Eu preferia que você escolhesse diferente, mas a escolha é sua.” (E eu sei que dói.) Mas respeitar a liberdade do outro também é uma forma de amar.

E isso pode ser difícil. Porque gostar de alguém também significa ter expectativas. Queremos que a pessoa fique, responda, escolha a gente, concorde conosco. Só que o outro continua sendo outro. Felizmente.

No fim, talvez o livre-arbítrio não esteja apenas nas grandes decisões sobre fé, destino ou moralidade. Ele aparece quando alguém escolhe uma amizade, muda de ideia, diz não, vai embora, fica, perdoa ou simplesmente toma um caminho que não escolheríamos.

Aprender isso talvez seja uma das formas mais maduras de conviver. E nunca é tarde para aprender.

Rosinaldo Nunes Cardoso é administrador, especialista em Gestão de Pessoas e Inteligência Competitiva, mestre em Administração com foco em Empreendedorismo, Inovação e Mercado. Atualmente, é Diretor de Pesquisa e Gestão do IPPLAN e Professor do curso de Administração da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR)