Campo Mourão

La Paula: território mourãoense em Curitiba

Grupo de mourãoenses com Paula, a proprietária do La Paula.

Final dos anos 80. Esquina das ruas Doutor Pedrosa e Lamenha Lins, no Batel, em Curitiba. Um grupo de jovens estudantes mourãoenses, sem dinheiro pra bons restaurantes, mas sempre com um troco no bolso pra uma bela cerveja gelada, adotou a lanchonete La Paula como seu ponto de encontro. Ali, a base do bom e clássico Rock and Roll, cerca de 50 jovens deixaram parte de suas histórias. Conversas sobre política, música e, principalmente, reverenciando o humor, marcaram não só aquela esquina, como a dona do local: a eterna companheira Paula. Agora, depois de quase 30 anos, parte daquele grupo retornou ao bar para conferir se a cerveja continuava gelada.

Paula foi pega de surpresa. Ela não esperava a visita de seis ex frequentadores assíduos de uma só vez no bar. “Estou muito emocionada. Tenho muitas saudades de todos eles. Que bom vê-los aqui de novo”, disse. A turma de amigos se reuniu em Curitiba para um evento. Ao pensarem em tomar uma cerveja é claro que foram no La Paula. Após 30 anos, o local mudou. Não muito, mas o suficiente pra ser sempre receptivo.

La Paula começou a funcionar ainda em 1966. Paula e Vitor, seu irmão, tomaram a frente na década de 70. Sócios, eram os dois quem organizavam a bagunça dos jovens mourãoenses. Na década de 90 Vitor morreu. Paula continua até hoje com a ajuda de seu filho Beto. Além da cerveja gelada, o bar conta com salgados e lanches feitos na hora. Está localizado no coração de Curitiba e, uma ida até o local, certamente não será em vão.

Um tempo inesquecível

Despretensiosos quanto ao futuro, os mourãoenses faziam suas obrigações durante a semana – que era apenas estudar – e nos finais de semana invadiam o La Paula. Era lá onde um dos líderes da turma, Brande Perdoncini, hoje com 48 anos, já havia estacionado sua Parati preta. Com o porta malas aberto ecoavam solos de guitarras de Jethro Tull, Led Zepellin, Black Sabbath, Doors e Deep Purple. Pronto. Cadeiras na calçada, cerveja gelada e muita prosa pra fechar a tarde. Caixas de cerveja a serem pagas. Com saudades daquele tempo, Brande diz que o bar era um pedaço de Campo Mourão na capital. “Teve um dia que fechamos a rua. Os curitibanos não entendiam o que acontecia”, disse.

O final dos anos 80 encerravam o ciclo de ouro do bom rock nacional. Mesmo assim, aquele grupo enfatizava o velho e clássico Rock and Roll. Até hoje muitos daqueles jovens curtem as bandas que saltavam do porta malas do Brande. E parecia uma esquina de contradições. A velha Curitiba emoldurada nos seus costumes retranqueiros de convivência não entendia o que acontecia ali. Pensavam: “Quem são esses loucos. Por que tanta alegria. Por que um som tão alto”? Mas somente quem estava longe da família entendia a verdadeira relevância daquele grupo, da música alta, da alegria que a todos contagiava.

Paula tinha sempre um ombro pra acolher. Conversava em particular com a galera. Se preocupava com as doses a mais. Com a convivência regular da turma o fiado tornou-se inevitável. Mas no final todos honravam as contas.

Com o tempo a turma foi diminuindo. Afinal, quem se formava tomava seu rumo. Alguns voltaram pra Campo Mourão. Outros continuaram na capital. Os casamentos também contribuíram para a ausência no La Paula. Lá pelo ano de 1995 a turma mourãoense já havia se dispersado por completo. E o La Paula, apesar de continuar a servir, já notava a ausência da turma. A música tinha silenciado e as risadas já não eram mais as mesmas. Quanto a cerveja, depois de 30 anos, sim, ela continua gelada igual. Parece até que o gosto é melhor naquela esquina.

Depois de quase 30 anos, parte do grupo retornou ao bar para conferir se a cerveja continuava gelada, dona do local se emocionou com a visita surpresa