Delegado aponta tráfico como principal causa dos homicídios em Campo Mourão
O tráfico de drogas continua sendo o principal fator associado aos homicídios registrados em Campo Mourão. A avaliação é do delegado-chefe da 16ª Subdivisão Policial (SDP), Nilson Rodrigues da Silva, que atribui a maior parte dos assassinatos à atuação do tráfico e de organizações criminosas que utilizam a cidade como ponto de distribuição de entorpecentes.
Em entrevista exclusiva à TRIBUNA, o delegado revelou um levantamento realizado pela Polícia Civil que mostra a dimensão da violência no município. Entre os anos de 2000 e 2025, Campo Mourão contabilizou 616 homicídios, com picos de violência em alguns períodos. O ano mais crítico foi 2010, quando foram registrados 48 assassinatos. Em 2025, segundo o levantamento, foram 21 homicídios.
Apesar dos números, Silva destacou que os índices de elucidação dos crimes aumentaram nos últimos anos. “Quando cheguei a Campo Mourão, em 2019, fizemos um levantamento dos homicídios. Antes, a média de solução desses crimes girava em torno de 50%. De 2019 para cá, conseguimos elevar esse índice para cerca de 70%, resultado do fortalecimento do trabalho investigativo”, afirmou.
Segundo o delegado, embora a Polícia Civil tenha ampliado a capacidade de investigação, o número de homicídios ainda preocupa. “O índice continua alto. A que se deve isso? Drogas, tráfico de entorpecentes e uso de drogas. É um problema que envolve principalmente os jovens”, disse.
Facções
Para Nilson Rodrigues, a atuação das facções criminosas influencia diretamente os índices de violência registrados na cidade. Segundo ele, os líderes dessas organizações, na maioria das vezes, sequer permanecem em Campo Mourão.
“Os chefes do tráfico normalmente nem moram aqui. Quem está na cidade são os ‘correias’, os braços dessas organizações, responsáveis pela venda da droga. Eles acabam aliciando jovens e destruindo famílias”, afirmou.
O delegado defendeu maior rigor no combate ao tráfico nas fronteiras brasileiras, argumentando que a repressão local, sozinha, não é suficiente para reduzir a circulação de drogas. “Enquanto não houver um controle muito forte da entrada de drogas no país, elas continuarão sendo distribuídas. Isso alimenta toda a cadeia da criminalidade”, ressaltou.
Questionado sobre homicídios recentes registrados em Campo Mourão, muitos deles praticados dentro das residências das vítimas e com características de execução, Silva afirmou acreditar que existe disputa territorial entre grupos ligados ao tráfico. “Eu entendo que sim”, respondeu ao ser questionado sobre a existência de conflitos entre facções na cidade.
Como exemplo, citou criminosos conhecidos no meio policial que atuavam em Campo Mourão e foram mortos em outros municípios ou estados, indicando, segundo ele, que integrantes dessas organizações costumam dividir áreas de atuação.
Já em relação ao duplo homicídio ocorrido recentemente no município, envolvendo adolescentes investigados, o delegado afirmou que, por enquanto, não vê elementos que indiquem ligação direta com disputas entre facções.
“Acho que não. Ainda é cedo. O caso continua sendo investigado e, se surgir uma outra linha, ela será apurada”, afirmou.
Como estratégia para reduzir a criminalidade, a Polícia Civil desenvolve um trabalho de mapeamento dos bairros considerados mais vulneráveis ao tráfico de drogas. Segundo Silva, o projeto, denominado “Operação Saturação”, consiste em ampliar a presença de viaturas em diferentes regiões da cidade, coletando informações diretamente com moradores e identificando pontos utilizados para a comercialização de entorpecentes.
“O traficante não guarda mais droga em casa. Hoje ele esconde em outros locais e faz a entrega como se fosse um delivery. Por isso precisamos mapear esses pontos e aumentar a presença policial nos bairros”, explicou. O delegado afirmou que o combate ao tráfico impacta diretamente outros tipos de crimes.
“A droga é o ‘nascedouro’ dos homicídios, dos roubos e de diversos outros crimes. Combater o tráfico é atacar a origem de boa parte da violência”, destacou.
Índice de 2026
Até o momento, segundo o delegado, Campo Mourão contabiliza nove homicídios em 2026, já considerando os dois casos mais recentes registrados no município. A expectativa de Silva é manter o índice de elucidação próximo de 70%, embora reconheça que o cenário ideal seria não registrar assassinatos.
“Índice zero não existe. Mas nossa obrigação é investigar todos os crimes. Nenhum homicídio é esquecido. Pode demorar, mas todos continuam sendo investigados. Recentemente prendemos um autor de um homicídio cometido em 2003. Isso mostra que a Polícia Civil não abandona nenhum caso”, concluiu.
Números
• 616 homicídios foram registrados em Campo Mourão entre 2000 e 2025.
• 2010 foi o ano mais violento da série histórica, com 48 assassinatos.
• Em 2025, o município contabilizou 21 homicídios.
• Em 2026, até o momento, já foram registrados 9 homicídios, incluindo os dois casos mais recentes.
• Antes de 2019, o índice de elucidação de homicídios era de aproximadamente 50%.
• Desde 2019, a Polícia Civil elevou esse índice para cerca de 70%.

