Fretes com carroças extintos em CM

João Danta Monteiro, de 72 anos, não desiste. Ele insiste em manter o antigo e esquecido ofício. Há 35 anos na cansativa labuta se propõe a fazer fretes. Seu João, como é mais conhecido, revela que em pouco mais de 10 anos atrás, existiam em Campo Mourão três pontos de carroças. Na época, 30 carroceiros batiam cartão todos os dias.Era até bonito de se ver, recorda. Os pontos foram cedidos pela prefeitura e estavam instalados nas ruas Mato Grosso, Araruna e em frente ao Mercadão, único ativo.

Apenas seu João ainda trabalha no último ponto que resta. Ele revela que já teve tempo do local reunir até 10 carroceiros. Um amigo meu de vez em quando passa por lá, mas já disse que vai desistir, frisa.

Hoje, Monteiro depende da aposentadoria para sobreviver. Segundo ele, o trabalho de carroça pouco lhe rende. De acordo com o aposentado, os caminhões extinguiram os fretes de carroças. Ele afirma que os materiais, antes transportados por carroceiros, ocupam hoje as carrocerias de caminhões.

É muito difícil aparecer algum trabalho pra gente fazer e quando tem ainda querem quase de graça. O aposentado trata de seu cavalo com milho e capim. Ele reclama que um saco de milho, sai por mais de vinte reais. Desse jeito acaba não compensando, reitera.

Miguel Pereira de Souza, de 57 anos, foi outro que viu o trabalho “ir pelo ralo”. Hoje sua carroça fica mais guardada no barracão que no trabalho. Ele se lembra dos tempos das vacas gordas. Tinha três animais e duas carroças, destaca. Como o ofício foi comprometido obrigou-se a vender dois cavalos e uma de suas carroças. E ainda assim fico parado, lamenta. Os animais precisam de trato e seria prejuízo continuar com eles se não tem serviço.

Além de fazer os poucos fretes que aparecem, Souza foi obrigado a recolher materiais recicláveis para implementar sua renda. Ele trabalha no ramo desde 1994 e revela que, com a ajuda de seus filhos, paga as contas do mês. Graças a Deus não preciso pagar aluguel, observa. Ele mora em uma pequena casa, na extinta favela São Francisco.

Há cerca de nove anos, garante Souza, este tipo de trabalho rendia dinheiro, mas com o surgimento das caçambas que recolhem a maior parte dos entulhos, o serviço acabou. Algum fretinho aparece de vez em quando, mas muito pouco mesmo. Essas caçambinhas tomaram todos os nossos trabalhos, critica.

Em Campo Mourão, existem mais de cinco empresas que recolhem e dão a destinação final aos entulhos que antes eram depositados na Vila Guarujá. Não podemos mais jogar os entulhos lá, a prefeitura nos impediu, e levar pra outro lugar fica muito longe, acaba não compensando, explica. Ele afirma que a tendência é piorar ainda mais. O restinho que tem vai acabar uma hora ou outra, prevê. Souza reclama da falta de apoio, principalmente por parte do poder público. Estamos jogados por aí, não tem ninguém que nos apóie, critica.

De acordo com o secretário de Controle de Fiscalização e Ouvidoria de Campo Mourão, Eduardo Marques, na prefeitura não existe nenhuma lei que regulamente a profissão. Por isso os carroceiros acabam não tendo apoio algum. Ele observa que como a tendência do trabalho é cair em desuso, dificilmente será regulamentado. Em contato com a Câmara de Vereadores, foi constatado que não existe nenhum projeto que trate do assunto.

Família inteira se dedica ao trabalho com carroças

Apesar dos fretes de carroças estarem extintos, em Campo Mourão, a família Piazeski sobrevive apenas desta atividade. Seis irmãos com a ajuda do pai transportam de tudo. Entulhos, materiais recicláveis e até mudanças, mas no momento se dedicam mais ao transporte de lenha.

O que aparecer a gente pega, afirma Túlio Piazeski, de 32 anos. Ele pilota carroças desde os oito anos de idade e diz que a situação não está nada fácil. O carroceiro reitera que já foi o tempo de ganhar dinheiro com este tipo de trabalho. Hoje não tem quase nada para fazer, comenta.

Com o surgimento das empresas que carregam entulhos, afirma Piazeski, o trabalho está desaparecendo cada vez mais. Com essas caçambas nos deses-tabilizamos totalmente, lamenta. Ele observa que por não pagarem nenhum tipo de benefício como a Previdência, por exemplo, a situação se complica ainda mais.

Neste trabalho é proibido adoecer, se não você não come. Para nós não sobra alternativa alguma, lamenta. Esperamos que o quadro não piore ainda mais. Enquanto estiver pingando a gente dá um jeito, mas se a goteira secar de vez aí a coisa pega, ironiza.

Por Walter Pereira, da Redação