O trabalho não é nada fácil, ainda mais porque não contam com o papel do pai, já que não são casadas. Ser mãe social é uma vocação. Não é fácil encontrar mulheres com este perfil. Elas são funcionárias e recebem pelo serviço prestado, porém devem agir como se fossem as mães de verdade. São as responsáveis pela educação e formação de cada criança, resume José Carlos Rodrigues, que há 25 anos exerce o cargo de gestor da Aldeia Infantil SOS. A unidade de Goioerê é a única do Paraná. No Brasil são 15, as demais estão espalhadas em 132 países.
As crianças que estão abrigadas nas casas-lares de Goioerê foram encaminhadas por determinação judicial. Rodrigues explica que muitas delas chegam doentes e com problemas psicológicos graves por terem sofrido maus tratos, abusos e rejeição das famílias. O trabalho das mães sociais é reverter o quadro e fazer com que as crianças tenham uma vida digna.
A entidade existe há mais de 30 anos e durante este tempo já passaram pelo local aproximadamente 290 crianças, sendo que cerca de 40 delas foram cuidadas pela mãe social, Rita de Cássia de Souza, 59 anos. Ela está na atividade desde 1978 e atualmente é a responsável por seis ‘filhos’, sendo que o mais velho está com 19 anos e a mais nova com dez anos. Sou uma mulher realizada. Tinha dois sonhos: o de ser freira e o de ser mãe e com esse trabalho pude realizar os dois, frisa ela que foi a primeira mãe da entidade.
Rita revela que mantém contato com cada criança que passou em sua casa. Sofro junto com cada um quando estão em dificuldades e comemoramos nos momentos de alegria. São verdadeiros filhos para mim que me deram 17 netos.
A pedagoga, Rosa Souza dos Santos, 39 anos, é mãe social desde os 24 anos e conseguiu o trabalho por meio de um anúncio de emprego. Ela diz que antes disso já havia trabalhado com crianças em escolas e creches, e a experiência ajudou a conseguir a vaga. Em uma casa com quatro quartos, além de sala cozinha e área de serviço, moram atualmente quatro crianças, mas este número já chegou a 11. Tem que haver uma dedicação exclusiva para elas. É como uma família normal, onde as crianças brincam e se desentendem. Tem que estar o tempo todo atento, mas é um trabalho que compensa, ressalta.
Rosa não desgruda dos filhos nem mesmo durante as folgas semanais que tem direito ou durante as férias anuais. Se ela vai passear ou viajar leva as crianças junto. As crianças fazem parte da minha família. Não me arrependendo de ter abdicado de algumas coisas da vida e vou continuar trabalhando enquanto puder dar educação e carinho para cada criança.
Poucas crianças
Nos últimos meses a Aldeia SOS de Goioerê recebeu poucas crianças e algumas das que estavam no local foram reintegradas às suas famílias. O gestor da entidade explica que o fato vem acontecendo porque existe o entendimento de que as crianças devem ficar com a família. De acordo com Rodrigues, isso tem feito com que o atendimento seja menor do que a capacidade. A Aldeia é composta por 11 casas e atualmente duas delas estão desativadas. O motivo principal é a falta de crianças. Temos capacidade para atender mais crianças, mas devido a entendimentos da Justiça estamos com um número cada vez melhor. Com isso estamos tendo que nos adaptar as novas regras.
Por Antonio Marcio, da Redação