Exploração, aqui não

Sem ter a mínima noção dos preços, o casal passou a comprar de tudo, sempre a um preço dobrado. Ou seja, foram explorados impiedosamente durante vários anos.

No entanto, cansados de serem molestados repetidamente, os aposentados descobriram uma maneira diferente e eficaz para afastar os vendedores de perto de sua casa. Eles pediram ajuda a um advogado, que teve a idéia de fixar uma placa no portão da residência com os dizeres: Sr vendedor ambulante, esta família é humilde e analfabeta. Caso ocorra alguma venda mediante simulação ou induzimento ao erro, o caso será levado para a delegacia de polícia. Depois de quase cinco meses da colocação da placa, nenhum vendedor ousou nem ao menos bater palmas em frente a casa. Agora é um sossego. Nunca mais apareceu ninguém, garante Paulo Paula de Souza, de 78 anos de idade.

Uma das filhas do casal, Luzia, lembra que os mascates aprontaram de tudo com os pais. Um edredom, que no comércio custa cerca de R$25, foi vendido por R$50. Um cobertor, que vale R$150, foi vendido por R$400. Até mesmo um purificador de água, devolvido por defeito, os idosos continuam a pagar sem nunca mais terem o recebido. Mas o estopim da ira da família aconteceu mesmo depois que uma vendedora de remédios apareceu na casa e, ao invés de vender, pediu R$500 emprestado. Se eu não tivesse chegado na hora, minha mãe teria dado todo o dinheiro da aposentadoria, lembra Luzia.

Juntos, Souza e a companheira, Ângela, com 79 anos de idade, passam os dias vendo TV e comendo. Trabalhamos demais na vida. Agora estamos descansando, diz. Eles têm oito filhos, todos criados na zona rural, no tempo ainda em que o idoso ganhava a vida tirando leite das vacas. Tirava mais de 150 litros por dia. Nunca parei. Agora, depois de velho passaram a nos explorar. É sacanagem demais, afirmou. Souza explica que a maioria dos ambulantes esperava que ele saísse para vender a sua esposa. Ângela possui a saúde fragilizada e não se lembra de muitas coisas. A ela foram vendidas carteiras com preços abusivos, perfumes falsificados com valores exorbitantes, bolsas, remédios, tudo mais que se possa imaginar. Agora a farra dos mascates acabou. Quem se aventurar por lá, certamente se transformará em caso de polícia.

Por Dilmércio Daleffe, da Redação