No domingo o preço do etanol chegou a R$ 1,98 – a maior alta desde fevereiro de 2010. Com isso, abastecer com o combustível proveniente da cana de açúcar deixou de ser vantajoso frente aos R$ 2,65 cobrados pela gasolina. Para os donos de postos de combustível, a alta também é prejudicial e o movimento desde que os preços começaram a subir, em outubro, caiu até 30%.
Com a constante oscilação pela qual o etanol vem passando, fica difícil até para os motoristas acompanharem. Na hora de preencher o cheque vem o susto para Celso Alves, 54 anos. O álcool subiu de novo? Não sabia dessa última alta.
O gerente de um posto da área central de Campo Mourão que preferiu não se identificar explicou que o motivo da nova alta é a falta do produto. Quando os caminhões vão buscar o combustível também não sabemos qual será o preço. A gente descobre na hora. Nem questionamos muito, mas o que sempre falam é que não tem muito produto no mercado. Nisso entra a questão do mercado como regulador de preços, como diminuiu a oferta e aumentou a procura o preço sobe, conta.
Os analistas de mercado descrevem razões semelhantes. Segundo eles, com a entressafra do produto é normal os distribuidores valorizarem o etanol. O problema deste ano foi que com a seca registrada em agosto e setembro do ano passado houve rumores de que a produtividade seria reduzida, o que poderia levar à falta do produto.
O prognóstico não se confirmou, mas a especulação se manteve, elevando os preços em um período em que normalmente não há aumento dos preços. No ano passado, nesta mesma época, os preços eram semelhantes e só tiveram redução no final de março, com a colheita.
Mesmo quando há alta não é repassada aos clientes, a oscilação dos preços é grande. Tem vez que o preço muda duas ou três vezes na mesma semana, tanto para mais como para menos, diz o gerente. Essa situação também foi apontada em entrevista recente à TRIBUNA por outro proprietário. Para manter o cliente, não subimos e descemos toda hora. Fica até chato, sem contar que as usinas também não mantém preço de tabela. Por isso quando a alta não é muito significativa, sacrificamos um pouco do nosso lucro para não assustar o consumidor, disse Bernardino Luiz Vian.
Redução do lucro
Quando sobe a gente ouve muita reclamação e o pessoal criticando. Criticando sem saber que para nós também é ruim as altas sucessivas, conta o gerente. Segundo ele, assim como os motoristas, a torcida de proprietários de postos na cidade é para que esse período de altas passe logo. É prejuízo para a gente. Caiu muito o lucro desde que os preços começaram a ficam mais altos. O pessoal está pensando muito antes de sair de carro, acredita.
Segundo ele, com a alta ou redução no preço, o lucro é o mesmo. Com menor volume vendido, temos prejuízo. Despesas como aluguel e energia elétrica, entre outras, são fixas, independente do movimento no posto.
Procura pela gasolina
Com o aumento sucessivo no etanol, os proprietários de carros flex, ou seja que aceitam álcool ou gasolina, estão optando pelo segundo combustível, mais vantajoso, na relação custo x desempenho. Assim foi com a enfermeira Mariana de Souza, 30 anos. Eu já coloquei gasolina, porque compensa mais, com o álcool nesse preço não dá não. Casos como o de Mariana são frequentes, segundo o gerente do posto. Principalmente agora com essa última alteração no valor, afirma.
Para Robson Peres, 21 anos, essa procura pela gasolina acaba impactando naqueles consumidores que não podem trocar o combustível. Como muita gente está trocando pela gasolina, logo vai subir de novo. Já subiu na verdade, antes a gente pagava até R$ 2,40, agora é esse valor, diz.
Ainda que a gasolina já seja mais vantajosa para quem possui carros flex, o consumidor costuma demorar para abandonar o álcool no momento de abastecer, mais por uma motivação psicológica do que propriamente econômica. Se o consumidor for encher um tanque com gasolina, sabe que irá pagar mais caro.
Então, na hora de escolher o combustível, fica pensando no preço e tem dificuldade para avaliar o rendimento que o carro vai ter depois. Assim foi para Angela, 50 anos, moradora de Janiópolis. Na hora de abastecer eu fiquei pensando um pouco, mas não fiz a conta e deixei álcool mesmo, pareceu ser melhor, mas da próxima vez, eu venho colocar gasolina.
Para saber qual combustível é o mais vantajoso, basta dividir o preço do derivado da cana-de-açúcar pelo da gasolina. Com resultados inferiores ou iguais a 70%, opte pelo combustível vegetal, caso contrário, o derivado do petróleo é a melhor opção. Contudo, especialistas lembram que mesmo nos casos de vantagem da gasolina, o etanol é ambientalmente mais indicado.
O que consumidores pensam sobre alta
Gostaria de saber porque sobe tanto assim o preço. Será que eles sabem que no fim do ano o pessoal viaja e o governo aproveita para tirar o nosso dinheiro, Angela, 50 anos.
Tive de mudar o combustível, porque não dava não, nossa senhora, com esse preço, Mariana de Souza, 30 anos.
É um absurdo todas essas altas, mas fazer o que? A gente tem de abastecer do mesmo jeito, Celso Alves, 54 anos.