Não bastasse a alta desenfreada do preço do álcool nas bombas, suas conseqüências começam a surgir agora. Na tarde de segunda-feira, pelo menos três postos de Campo Mourão tiveram os estoques de gasolina zerados, ocasionando no mínimo, espanto aos consumidores. Com medo do desabastecimento, proprietários de carros a gasolina iniciaram uma corrida a outros postos. Saimon dos Santos, 22 anos, com medo de ficar a pé, chegou a colocar álcool no carro. Mesmo sendo a gasolina, coloquei um pouco de etanol para chegar em casa. Antes disso, dois outros postos não tinham gasolina, disse.
A explicação para a falta do combustível na cidade é uma só: a grande demanda pela gasolina. Com os preços extrapolados do etanol – R$2,25 em média – o consumidor não está pensando duas vezes antes de abastecer. A escolha certa é pela gasolina. O dono de um posto na área central de Campo Mourão, que preferiu não ser identificado, disse ontem que 50% da demanda de álcool caiu. Como conseqüência, pura e simples, a gasolina teve aumento destes mesmos 50% em suas vendas, gerando toda a correria.
Na verdade, as empresas de combustíveis da cidade foram pegas de surpresa, uma vez que não tiveram tempo suficiente para encomendarem mais gasolina. Ontem, aguardando pela entrevista, a reportagem da TRIBUNA presenciou o desespero do dono de um posto pedir mais combustível. Tudo para evitar o desabastecimento. Durante todo o dia, nenhuma empresa registrou a falta de gasolina. Mesmo assim, se os postos não se agilizarem na encomenda pela gasolina, a falta do produto pode ocorrer novamente. Pelo menos até que os preços do álcool voltem a cair.
Mesmo com a alta, ainda encontra-se gente disposta a abastecer com os preços exagerados do álcool. O aposentado José Anacleto de Paiva, de 61 anos de idade, possui um veículo flex. Mesmo assim, colocou etanol. O preço está exorbitante. Mas ando muito pouco e ainda vale a pena, disse. Segundo ele, a esperança é de que o produto tenha seu preço reduzido novamente. Não entendo como os preços são altos se nós mesmos é que fabricamos, explicou. Já o soldado Vanderlei Stempiak, de 34 anos de idade, nem sentiu a falta de gasolina. É a primeira vez que abasteço esta semana e o posto possui gasolina, disse. De acordo com ele, os dois combustíveis estão com preços em demasia. Podia baixar alguns centavos para melhorar a vida do consumidor.
Petrobras entra em ação
Com a migração para a gasolina, a Petrobras terá que importar gasolina em abril. Dados indicam que 1,5 milhão de barris devem ser importados ao longo do mês, volume equivalente a metade do total importado em todo ano de 2010. O primeiro carregamento chega ao Brasil em 15 de abril, dia que marca o início da safra de cana-de-açúcar. Segundo produtores, o etanol dessa safra deverá chegar no início de maio. A gasolina será armazenada e usada apenas em caso de necessidade. O consumo de combustíveis aumentou, em média, 4,5% no primeiro trimestre. O Sindicato Nacional das Distribuidoras de Combustíveis (Sindicom) estima queda de 40% do consumo do etanol no período, porcentual que migrou para gasolina. Em 2010, a Petrobrás gastou US$ 285 milhões com a importação de gasolina, concentrada especialmente entre janeiro e fevereiro, quando também houve migração do consumidor para gasolina.