A magia do circo ainda viva em Campo Mourão

Certamente, a magia do circo faz falta aos moradores mais antigos de Campo Mourão. Apreciadores dos grandes espetáculos circenses, eles viam grandes companhias chegarem à cidade, principalmente, nas décadas de 80 e 90. E vinham em alto estilo. Carretas carregadas de animais e uma parafernália de objetos para serem montados sob a gigante lona. Muitas pessoas acreditam que o circo morreu, ou foi fazer parada em outros centros. Mas para quem entende do assunto, essa arte está mais viva do que nunca, porém de uma forma renovada e moderna. Talvez devido a lei que proíbe a utilização de animais nos picadeiros, as pessoas pensem que o circo acabou, mas não é bem assim. Em Campo Mourão temos a escola municipal de artes circenses que atende desde 2003. São 250 alunos entre os períodos da manhã, tarde de noite, diz Leonice Martins Perassoli, coordenadora da Escola Circense da Fundação Cultural de Campo Mourão.

O local recebe crianças a partir dos 4 anos e mantém as portas abertas para qualquer idade. Os instrutores são ex-alunos, que hoje brilham nos palcos de toda a região com a Trupe de Circo Fundacam. Leonice revela que o objetivo principal é ensinar as técnicas circenses aos alunos, incluindo também atividades socioculturais. O próprio circo tradicional já utiliza a linguagem moderna, enquanto as escolas procuram resgatar um pouco desta história que ultrapassou milênios. Na nossa escola o curso é livre porque abrange outras áreas técnicas também, incluindo a dança, o teatro, a coreografia, a música, enfim o circo em si reúne todas essas artes, comenta ela.

Entre os adultos, Leonice conta que há aqueles que procuram a escola apenas pelo interesse de desenvolver uma atividade física saudável. Isso também é muito importante. Já as crianças aprendem técnicas variadas de artes circenses e ainda interagem com outros alunos da mesma idade.

As escolas, em si acabam dando outra dinâmica ao circo e os artistas vão se adequando a uma nova realidade. No lugar do caminhão, da lona, da casa instalada dentro de um ônibus, onde os artistas antigos faziam suas moradas, os profissionais dessa nova geração se apresentam em casamentos, festas de aniversários infantis e de 15 anos, desfiles públicos, bem como em outros eventos importantes por toda a região. A Trupe de Circo da Fundacam está presente em eventos como esses, e até em aniversários de 80 anos e batizados para alegrar os convidados com atividades circenses. Na verdade isso é importante porque em tudo existe um pouquinho da magia do circo, completa.

João Paulo Campos, 20 anos, é um dos instrutores da escola de circo da Fundacam. Ele iniciou aos 14 anos como aluno e hoje integra da trupe de circo, composta por 14 integrantes. Temos essa atividade pelo município e também fazemos trabalhos particulares em vários eventos de Campo Mourão e região, animando festas de aniversários, festas agropecuárias, desfiles e outros eventos em geral. É uma forma de incrementar a renda, enfatiza Campos.

O artista também declara a importância de nunca deixar de lado a cultura tradicional do circo. A cultura tradicional circense é a base de tudo. Por meio das aulas e das apresentações a gente consegue recuperar um pouco da magia que é a lona do circo e a animação que os circos tradicionais levavam para o público. Campos realiza números de solo e aéreos, no trapézio, entre outros malabares. Aqui na escola procuramos desenvolver de tudo um pouco. Mas os números aéreos causam mais impacto e emoção no público devido ao perigo, sintetiza.

Isadora Nascimento Ferreira, tem 11 anos, e muita dedicação nas aulas. Começou aos cinco anos e hoje é contorcionista. O sonho é um dia ir para o Cirque du Soleil, o mais famoso do mundo. Quando comecei, aos 5 anos não esperava fazer o que já consigo fazer hoje, pois não é tão fácil quanto parece. Acho que como todo artista, o sonho é chegar ao Cirque du Soleil. Quando vejo esses grandes artistas se apresentando dá vontade de fazer igual e isso me dá mais inspiração para continuar, anima-se.

Veterano vê o circo se transformando

Manoel Serbêto, 45 anos, tem uma vasta experiência com a arte circense. Ele se considera um ancião do circo. Foi ele quem deu início às atividades na Fundacam, em 2001. Antes atuava na Secretaria de Cultura do Estado em Curitiba e por isso foi convidado pela então Secretária de Cultura de Campo Mourão, Edilaine de Castro para desenvolver o projeto no município. Três anos depois ele voltou para a capital onde começou a trabalhar no circo Zanchettini, um dos mais tradicionais de Curitiba e que resiste ao tempo. No ano passado retornou a Campo Mourão novamente para trabalhar ao lado de Edilaine, no Espaço Sou Arte, mantido por ela e o esposo Roberto.

O artista conta que era o produtor do circo Zanchettini. Sua missão era fazer o circo itinerar. Eu ia na frente, de cidade em cidade acertando com as prefeituras sobre terreno, água, luz, segurança, propagando, enfim, desenvolvia condições para que o circo pudesse passar de um lugar para o outro. Com o circo já instalado na cidade eu ainda ajudava a montar os aparelhos, era porteiro e locutor. Só não era do picadeiro, pois ali não é local de improviso, mas de profissionais que passam o dia se preparando. Tem gente que acha que pintou a cara já é palhaço, jogou três bolinhas no ar virou malabarista, mas não é bem assim. A maioria vê o circo como arte, mas eu o vejo como cultura, ressalta.

Transformação

A transformação do circo começou com a falência de grandes companhias como Orlando Orfey, Garcia e tantos outros. Para manter o ganha-pão, muitas famílias circenses começaram a desenvolver circos menores ou projetos em escolas de artes. Dessa forma, a cultura circense se desconcentrou, se fragmentou e começou a aparecer em outros lugares. Mas é fundamental para o artista que utiliza a linguagem circense conviver com profissionais do passado. Não que ele vá ensinar um truque, mas vai complementar a educação cultural daquele artista, comenta.

No Espaço Sou Arte, a função de Serbêto é justamente essa: desenvolver nos alunos a consciência corporal, o gesto artístico da arte circense. Não é ensinar um número, mas fazer eles entenderem o por quê fazem aquilo. É preciso exercitar o músculo, a flexibilidae, mas também exercitar a consciência, a reflexão e o encantamento do palhaço.  O povo olha para o palhaço e  ri não porque ele tem a cara pintada, ou disse uma palavra engraçada. O povo ri porque no seu gesto há um significado para o público. Quando ele faz uma careta, escorrega e cai, ele está  reproduzindo uma conexão com algo que sabe que o público vai entender. Isso é agir com o corpo artístico, ser capaz de conectar-se com o público que está assistindo e manter viva a cultura.