Se no Céu o guardião das chaves é São Pedro, na Catedral de Campo Mourão, seu nome é Paulo. Há 25 anos ele trabalha como sacristão, respondendo pela organização e limpeza do espaço. Trata-se, frequentemente, de um serviço discreto, embora decisivo para o funcionamento da igreja e para o desenrolar da celebração. Abrir e fechar a igreja todos os dias é sua responsabilidade, mas longe de ver isso como uma obrigação, ele conta que faz parte do melhor emprego que poderia imaginar. Onde você vai encontrar um trabalho com tanta paz como é o meu, revela.
Ao longo do último século, a função deste funcionário da igreja mudou bastante, apesar de conservar parte da tradição. A principal mudança aconteceu quando as missas deixaram de ser realizadas em Latim. Tempos atrás ele era aquele que não só cuidava de tudo que se relacionava com o espaço sagrado, mas também aquele que ajudava o padre a conduzir a resposta da celebração, relata o padre Jurandir Coronado Aguilar. Ele explicou que foi só em 1962, com a realização do Concílio Vaticano II que houve a mudança do rito da missa para a língua do país em que ela é celebrada.
Então o sacristão era aquele que recebia toda a instrução do padre para, inclusive, dar a resposta da missa em latim. O povo decorava, mas o sacristão era aquele que estava junto com o padre para dar a resposta de forma correta. Era uma língua que o povo repetia, mas nem sempre conhecia o seu significado, completa Jurandir.
De origem Ucraniana, Paulo Estanislaw Kwviatkowski, reconhece a mudança e conta que sua relação com a igreja vinha de berço. Meus pais sempre foram de igreja e eu olhava isso quando o padre estava celebrando a missa com um olhar diferente cada vez que a gente vinha na missa, e vinha com frequência. Então é um chamado que eu recebi e aceitei.
Ele conta que sempre participou das atividades relacionadas à Igreja Católica. Comecei participando no grupo de jovens e aquilo foi me cativando. Em outubro ele completa 25 anos de profissão. A partir do momento em que eu entrei aqui e me encontrei, nunca pensei mais em mudar. Foi alí que ele completou a primeira comunhão, conheceu sua esposa e batizou os filhos. Aqui é minha casa. Moro mais aqui do que lá. Se eu falar outra coisa estarei mentindo.
Se a função mudou, as responsabilidades continuam grandes. Uma vez que você encontra uma pessoa adequada você vai mantendo. Até porque está relacionada à confiança. O sacristão cuida de igreja todo dia, se alguém vem dar uma oferta em dinheiro, eles é que guardam, terminada a missa eles recolhem a oferta. Eles tem sob sua guarda os bens da própria Igreja, conta o padre Jurandir. Hoje na Catedral, Paulo é ajudado por Eunice de Oliveira. Os dois tem sob sua confiança as chaves da Igreja e o segredo do alarme, nem eu sei isso, completa brincando.
Para Paulo não há segredo. Me dedico, faço o possível para obedecer as normas dos superiores. Faço o que meu pai e minha mãe sempre falavam: se você obedece o superior você vai longe e não erra. Se errar, alguém errou lá na frente e te passou o erro.
Antes de Paulo trabalhar na Catedral, quem exercia a função de São Pedro da Catedral, era Luís de Matos. Hoje com 87 anos, ele ainda acorda cedo aos domingos para ir à missa. Ele recorda de seu tempo de sacristão e radialista sentado na mesa da sala, ao lado da companheira Maria Luisa de Matos, que cruzou o mar vindo de Portugal com destino ao interior do Paraná.
Luis conta que sua função na igreja seguia um ritual. Ele preparava o ambiente abria a porta e tocava o sino chamando a população para a missa. Eu pagava todas as contas da Igreja. O padre assinava os cheques e deixava em branco. Eu via as necessidades da Igreja e pagava o que precisasse.
Na época, a Catedral ficava sob a responsabilidade do Padre Luciano. E ele tinha também um programa de rádio, todos os dias pela manhã ele estava lá falando de Deus. Quando ele ia embora me chamou para uma conversa e falou que eu é que iria fazer o programa, relata.
Como nenhuma das funções era remunerada, ele e Maria Luisa retiravam o sustento de uma padaria e mercearia no centro da cidade. Se desse a hora de arrumar as coisas para a missa e a gente tivesse com um monte de cliente no balcão, ele me deixava lá porque tinha o compromisso com a igreja. Nunca aceitou um real, fazia por amor, porque realmente gostava, lembra ela. Todas as noites ele era responsável por abrir e fechar a igreja. Aos domingos também não havia descanso. Ele ia cedinho e por lá ficava porque sempre tinha batizado, missa. Voltava quase na hora do almoço só, recorda Maria Luisa.
Luis ficou por uma década na função, precisou se afastar por motivos de saúde e também por amor. Por um tempo ele nem ia na Igreja, mesmo sentindo falta, para não me deixar sozinha em casa. Fiquei muito doente, agora que melhorei, aos domingos ele vai, sussurra ela enquanto o marido se distrai não ouvindo em sua voz a gratidão por tantos anos juntos, mesmo que tenha o dividido com a Igreja por um longo período.