Uma profissão sem preço

Para ser voluntário você precisa ter senso de pertencimento. É desta forma que a voluntária Maria Helena Darolt, uma apaixonada por animais, caracteriza essa atividade, que não oferece nenhum retorno financeiro e ainda lhe rouba tempo precioso que poderia passar ao lado da família, amigos ou curtindo outros momentos de lazer. Mas para ela, não existe melhor lazer do que estar rodeada de animais, de todos os tipos e raças, grandes e pequenos, sadios ou doentes, e até acidentados. Adotar um animal abandonado, condenado à morte e lhe devolver a vida é o que mais dá prazer a Maria Helena, responsável pela Associação de Proteção aos Animais São Francisco de Assis (APASFA) de Campo Mourão. É muito gratificante você acolher um cão e em pouco tempo comparar a foto do antes e o depois, comenta ela.

Ela é apenas mais uma entre tantas pessoas anônimas, que individualmente ou em grupo, chova ou faça sol, estão sempre prontas para fazer a diferença na sociedade, sem esperar absolutamente nada em troca. E foi para homenagear essas pessoas, que surgiu o Dia Nacional do Voluntariado, comemorado hoje a nível nacional. A data foi instituída no dia 28 de agosto de 1985, através da Lei Nº 7.352, sancionada pelo então Presidente da República, José Sarney. A partir daí, o dia 28 de agosto é celebrado anualmente.

O trabalho voluntário não se restringe apenas a generosidade e doação, mas também abertura a novas experiências, oportunidades de aprendizado, prazer de se sentir útil, criação de novos vínculos de pertencimento e afirmação do sentido comunitário. Eu sempre gostei de animais e escolhi voluntariar junto a eles, porque vejo que já tem muitas entidades que cuidam de crianças e famílias carentes, por exemplo. Quanto aos animais, vejo pouca preocupação, relata ela. E se engana quem pensa que Maria Helena tem tempo para cuidar dos pelo menos 300 cachorros distribuídos em dois abrigos. Ela trabalha em dois empregos, estuda e ainda precisa encontrar tempo para a família.

Quando decidi atuar nessa causa, procurei a associação e agregamos novos voluntários. Começamos a praticar atividades junto aos animais de rua aqui de Campo Mourão e a associação foi crescendo. Com isso fomos criando atividades em parceria com município, clínicas veterinárias, pet shop e casas agropecuárias e até programa de adoção e de castração, destaca. Atualmente a APASFA conta com onze voluntários permanentes, ou seja, pessoas que estão diariamente na associação alimentando os animais, fazendo a limpeza do abrigo e até encaminhando-os para o veterinário. Mas também há pelo menos outros 40 voluntários que por falta de tempo durante a semana se oferecem para ajudar a associação nos fins de semana ou durante as feiras de adoção, realizadas frequentemente na área central da cidade. Qualquer pessoa que gosta de animal pode se apresentar nesses eventos da associação que serão bem vindas.

Maria Helena é daquelas que quando está ao lado dos animais compartilha até seus sentimentos: Me divirto, dou muita risada e até choro quando algum morre. É uma verdadeira terapia, enfatiza. É tanta dedicação aos animais que ela acaba sendo cobrada em casa pela família. O filho às vezes reclama e diz que eu deveria dar atenção a outras coisas, sem falar o carro que vive cheirando bicho, pois vivo levando os cachorros para o veterinário. Além de não ganhar nada, ela ainda gasta com medicamentos e ração, quando as doações são insuficientes. Nada, porém, que diminua a paixão que Maria Helena sente em cuidar dos animais como se eles também fossem seres humanos.

Renascido para o voluntariado

O cabo aposentado da Polícia Militar, Valdir Hermes da Silva, 47 anos, precisou ficar cara a cara com a morte para entender que deveria valorizar mais a vida, tanto dele quanto a de outras pessoas. E foi assim que ele despertou para o voluntariado. Em 2002, o policial que também era árbitro de futebol seguia de Campo Mourão para Goioerê para apitar um jogo do Campeonato Amador, acompanhado de mais dois amigos da arbitragem, quando um acidente interrompeu a viagem. Apenas ele sobreviveu.

Era um segundo domingo de maio, Dia das Mães. Levado para o hospital, entre a vida e a morte, ele se recuperou e desde então decidiu que precisava desenvolver alguma ação voluntária para ajudar as pessoas. Entendi que Deus havia me dado uma nova oportunidade para valorizar mais minha família e também as outras pessoas. Precisava ser mais útil para a comunidade. Naquele domingo era Dia das Mães e na pressa de sair, mal me despedi de minha família e de minha mãe. Fui para uma viagem que por pouco não se tornou sem volta, relembra emocionado.

Como já trabalhava com o Proerd (Programa Educacional de Resistência às Drogas) na Polícia Militar, desenvolvendo o programa nas escolas municipais, ele passou a olhar com mais atenção o problema dos adolescentes. Percebi que muitas crianças tinham problemas com pais ou irmãos drogados em casa. Foi então que decidi participar de forma mais presente junto a Pastoral da Sobriedade, trabalhando o problema da dependência química nas famílias. Descobri ainda que a dependência não é só química, da maconha, álcool ou cigarro. Tem muita gente com dependência da depressão, do amor, da falta de carinho e de humanidade, constatou.

Católico, cabo Hermes faz questão de dizer que esse trabalho voluntário é aberto também para famílias evangélicas e a comunidade em geral. Orientamos as famílias como proteger seus filhos, dando carinho e até como afastá-los das más companhias. Na igreja, o ex-policial também é ministro da Eucaristia (cargo que também não é remunerado) e ainda participa de um curso para se tornar diácono. Penso que o voluntário é a pessoa que trabalha para Deus, sabendo que o pagamento virá do alto. Na verdade nem gosto de falar das coisas que faço, porque Deus disse: ‘Que a mão direita não saiba o que faz a esquerda’, mas tem muita gente mal intencionada, fazendo alguma coisa almejando algo em troca.