Maristela Pacheco vivia, até ontem, a angústia em não saber se a filha, Iara, estava viva. Ela havia desaparecido em janeiro de 2010. Na época a mãe, desesperada, chegou a prometer ajoelhar-se aos pés do delegado, caso elucidasse o mistério. Meses depois a polícia descobriu duas ossadas em uma fossa aos fundos de uma escola de Campo Mourão. Dados preliminares indicavam se tratar de Iara e de outra desaparecida, Dimitria Vieira. A busca e a conseqüente agonia chegaram ao fim. É que o laudo da perícia científica da polícia, em Curitiba, confirmou se tratar das duas jovens. Como prometido, dona Maristela foi até o delegado chefe da 16ª Sub Divisão Policial, José Aparecido Jacovós, ontem, e ajoelhou-se a seus pés.
Depois de chorarem diante da brutalidade do assassinato das duas jovens Iara e Dimitria, as famílias vinham adoecendo pelo constrangimento e humilhação em não poderem enterrá-las. Descobertas numa fossa aos fundos do Colégio Estadual Vinicius de Moraes, em Campo Mourão, no último ano, as duas ossadas já haviam sido enviadas à perícia, em Curitiba. Mesmo assim, os familiares não entendiam o porquê de tanta demora. Passado mais de um ano, coincidentemente, bastou uma única matéria sobre o caso em rede nacional para que os restos mortais fossem identificados. Maristela Pacheco, mãe de Iara, já até construiu o túmulo da filha. Na próxima semana, finalmente, poderá realizar o ritual de velório e sepultamento.
O drama vivido por dona Maristela teve início em janeiro de 2010, quando a filha saiu de casa com míseros R$50 para comprar pão. Ela nunca mais voltou. Depois disso, descobriu que restos mortais da melhor amiga da filha, Dimitria, que também estava desaparecida, haviam sido encontrados no colégio onde estudava. Dias depois veio a confirmação: outra ossada, desta vez, com pertences de Iara, também foi achada. A partir daí o mundo de Maristela partiu-se ao meio. A mulher que sempre lutou pelo bem estar da família, desmoronou.
Maristela tem hoje 52 anos. Ainda é nova, mas o fato a envelheceu décadas. Trata-se de uma mulher que a vida não poupou das dificuldades. Enfrentou diversos obstáculos culminando agora com o drama em não conseguir sepultar a filha. Nascida em Roncador, em 59, perdeu a mãe no próprio parto. O pai ela jamais conheceu. Foi criada pela parteira, que também morreu anos depois de seu nascimento. Trabalhou como bóia fria para sustentar a família e não teve tempo de estudar. Até hoje, é analfabeta. Casou-se, mas o marido, na época taxista, foi assassinado em Cascavel. Mais recentemente, perdeu parte da visão, reflexo do diabetes. Descobriu quase ao mesmo tempo o início de hanseníase e um câncer de pele. Definitivamente, a vida não foi gentil para dona Maristela.
Ontem, o seu mundinho parece ter desabado novamente. Ao mesmo tempo em que lutava pelo resultado dos exames, não queria receber a confirmação de que se tratava mesmo da filha. Eu precisava saber se era a Iara. Mas quando fiquei sabendo que era mesmo, não quis acreditar. No fundo ainda tinha esperanças de que ela estivesse viva por aí, disse. Na próxima semana, assim que o IML fornecer os restos mortais da filha, ela fará um breve velório e, depois, o seu sepultamento. É pouco perto do carinho e amor que tinha pela menina. Sobre o algoz que tirou sua filha, Ivan, ela deseja que ele apodreça na cadeia. Quero vê-lo definhar lá dentro, até morrer. O castigo maior virá de Deus, afirmou.
Dimitria
Marieta Ferreira mostra no rosto as marcas do sofrimento. Aos 58 anos de idade, ela também aguardava a conclusão dos exames da criminalística de Curitiba. Dimitria, a neta, tinha apenas 16 anos quando desapareceu, ainda em 2008. Além da tragédia da perda, também o drama da demora. Não tenho nem palavras. Não está sendo fácil. Precisamos somente fazer o sepultamento para que ela descanse em paz, afirma.
O caso da aposentada é um pouco pior. Se ela ainda vivia a angústia da perda da neta através das mãos sujas de Ivan, encontra noutro neto de quase três anos, a alegria em viver. Pasmem, o netinho é filho do mesmo Ivan, fruto de um relacionamento com a filha de Marieta. Ou seja, ao mesmo tempo em que o suposto assassino tirou uma neta, lhe deu outro. Trata-se de uma tragédia do destino não mencionada nem mesmo nos melhores roteiros de cinema. Marieta disse ontem que também pretende realizar o velório da neta.