A evasão escolar tem apresentado números preocupantes em Campo Mourão. Relatório do Conselho Tutelar aponta que em menos de dois meses, foram 112 ocorrências. O caso chama a atenção e exige medidas urgentes, principalmente pelos motivos que estariam levando crianças e adolescentes a abandonarem as escolas. Segundo a presidente do Conselho Tutelar, Ronise Cleia Galdino, entre os motivos mais graves, o desinteresse pela educação está ligado às más companhias, envolvimento com entorpecentes, prostituição e o desajuste familiar. Em alguns casos a própria família já não passa nenhum modelo de segurança. São pais alcoolatras, mães que se prostituem e os filhos acabam se perdendo. Muitos vivem sendo deixados nas casas dos avós e nem são acompanhados pelos pais, observa.
O fenômeno da evasão escolar ocorre quando o aluno deixa de frequentar a aula seja durante cinco dias seguidos, ou sete alternados, caracterizando o abandono escolar durante o ano letivo. No Brasil, a evasão escolar é um grande desafio para as escolas, pais e para o sistema educacional. Segundo dados do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Anísio Teixeira), de 100 alunos que ingressam na escola na 1ª série, apenas 5 concluem o ensino fundamental, ou seja, apenas 5 terminam a 8ª série (IBGE, 2007).
Boa parte das desistências ocorre no período da adolescência, após os 12 anos, quando o estudante está encerrando o ensino fundamental. Ronise revela que nessa faixa etária o adolescente precisa muito do apoio e acompanhamento dos pais para continuar os estudos, pois quem desiste geralmente é porque não tem uma boa estrutura familiar. Se a família não dá o bom exemplo, dificilmente o filho terá interesse por qualquer tipo de obrigação. Vai preferir a diversão, ficando sujeito ao envolvimento com más companhias e o envolvimento com as drogas. Em alguns casos já começam a se envolver em pequenos furtos e outros delitos, lamenta.
Crimes
As autoridades policiais também demonstram preocupação com esse quadro. E não para menos. Na semana passada, dois adolescentes de 15 anos confessaram o assassinato de um rapaz, nos fundos da Vila Rio Grande. A vítima seria usuária de crack e segundo os adolescentes (que também seriam usuários) vivia os ameaçando. Um deles contou que havia parado de estudar para trabalhar. Ainda no mês passado, um outro adolescente da mesma idade, acabou morto pela Polícia Militar enquanto praticava um assalto a uma churrascaria. O garoto mantinha uma arma apontada para a cabeça do proprietário do estabelecimento quando a polícia chegou e fez os disparos.
Entre as adolescentes, não são raros os casos de desistência devido a gravidez precoce. Elas deixam a escola por sentirem vergonha da barriga que começa a crescer. Quando vemos que são mais de 100 evasões escolares em menos de dois meses, já sabemos que são mais de 100 problemas para resolver, admite Ronise.
Pais desorientados
O relacionamento entre pais e filhos nessa faixa etária está cada vez mais complicado. A presidente do Conselho Tutelar conta que diariamente recebe inúmeras ligações de pais desesperados, pedindo ajuda para disciplinar os filhos. Muitos pais já não sabem mais como proceder até mesmo com crianças, entre oito e dez anos. A maioria reclama da indisciplina. Alguns admitem que os filhos saem à noite para beber e usar drogas. Há casos também de prostituição infantil e os pais reclamam que já perderam o controle, pois os filhos se tornam agressivos. Temos registros de violência e até de ameaças de morte. Crianças de 8 a 10 anos também já enfrentam os pais. Nessa fase, orientamos os pais que tomem providências, porque na adolescência é bem mais complicado, comenta, lembrando que os adolescentes de hoje querem equiparar os pais a seus colegas. Perdeu-se o respeito tradicional. Para não apanhar, alguns pais batem, os vizinhos denunciam e o caso vem parar no conselho tutelar.
Em situações assim, o conselho tutelar encaminha o caso para o CREAS – Centro de Referência Especializado de Assistência Social. Em casos de violência, abusos e prostituição a gente encaminha para o CREAS que toma as providências necessárias, completa. Ao abandonar a escola e fechar as portas para o conhecimento, a primeira que se abre ao adolescente é a do mundo, oferecendo caminhos muitas vezes sem volta.
Pedagoga do NRE diz que há esforços para evitar evasão
O Núcleo Regional de Educação de Campo Mourão tem trabalhado firme para tentar evitar o aumento da evasão escolar em sua área de abrangência. Em 2005, foi criado o programa FICA – Ficha de Comunicação de aluno Ausente -, para o controle da freqüência escolar de alunos menores de 18 anos (ensino fundamental e médio). Essa ficha é monitorada pelas escolas, Conselho Tutelar e Ministério Público. Também conta com apoio de outras instâncias menores como as APMF´s – Associação de Pais, Mestres e Funcionários -, Grêmios Estudantis, entre outros orgãos.
A pedagoga do NRE, Ivanice Maria Tome Gabriel, apresentou números do segundo semestre de 2010 para exemplificar as medidas que estão sendo tomadas contra esse grave problema. No segundo semestre de 2010, tivemos 134 evasões na rede estadual. Foram 106 no ensino fundamental, 25 no ensino médio e 3 na educação especial, comentou ela.
O trabalho de retorno, envolvendo vários órgãos, teve bom êxito. A pedagoga revela que 46 voltaram a freqüentar as aulas a convite das próprias escolas; 24 pelo trabalho do Conselho Tutelar e outros seis por intermédio do Ministério Público. Mesmo assim, 58 casos ficaram sem solução. Ivanice conta que algumas escolas fazem um bom trabalho de resgate, procurando entender os motivos que levaram, inclusive pessoas adultas a abandonarem os estudos. Temos escolas que vão atrás, mesmo o aluno sendo maior de idade. Questionam o motivo da desistência, se houve algum problema com a escola e tentam todos os meios para o retorno. Com isso muitos acabam voltando. (CB)