Oito de maio de 1951. Ancorava no Rio de Janeiro o Marcoplo. Um gigante dos mares repleto de imigrantes italianos. Eles vieram ao Brasil em busca de dias melhores. Este oito de maio jamais será apagado da memória do aposentado Mario Ceccato, hoje com 65 anos. A bordo do navio, estava ele e sua família, pais e mais três irmãos, outros dois homens e uma mulher. Seo Mario traz recordações de um passado surpreendente. Tempos de sofrimento, angústia e tristeza.
Ao contrário de muitos imigrantes que chegaram ao Brasil afugentados, a família Ceccato veio na legalidade, graças a um programa de imigração do governo italiano, que financiou a viagem. O aposentado lembra que o pai decidiu deixar o país europeu após participar da Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945). O conflito militar global envolveu a maioria das nações do mundo, incluindo todas as grandes potências, organizadas em duas alianças militares opostas: os Aliados e o Eixo. Foi a guerra mais abrangente da história, com mais de 100 milhões de militares mobilizados. Meu pai preferiu vir para cá temendo de que houvesse uma continuação da guerra, recorda. Segundo ele, o pai, Antonio Mario Ceccato, era cozinheiro do exército italiano.
A família veio ao Brasil já com emprego garantido. Do Rio eles seguiram até Rolândia, região de Londrina, onde moraram por alguns anos em uma propriedade rural. Os pais de Mario cuidavam de bois e porcos. Desde então percorreram várias outras cidades do interior do Paraná, como Cafeara, Santa Inês e Araruna. Sempre cuidaram de lavouras de café – cultura predominante na época. Seo Mario começou muito cedo na roça. Ele lembra que o serviço era pesado. O aposentado limpava troncos dos pés de café antes da colheita. Na época eu tinha apenas nove anos. Era um trabalho braçal que exigia muito esforço, comenta.
Há 61 anos, longe do país de origem, Mario esqueceu-se de muitos detalhes, de como era a vida na Itália, por exemplo. Ele chegou ao Brasil aos cinco anos e pouco se lembra. Era ainda um bebê. Ceccato recorda que seus pais iniciaram a vida de casados em Luccimpiccolo. Hoje a cidade não existe nem no mapa. Permanece somente nas poucas lembranças do aposentado. Foi invadida pela Iugoslávia durante a Segunda Guerra Mundial. A família mudou-se então para Meullo, província de Veneza. Pelo pouco que lembra, Mario diz que antes de seguir para a guerra seu pai trabalhava na lavoura. Era podador de macieiras e oliveiras. A mãe, Marcela Ceccato, era bóia-fria, capinava plantios de fumo. A vida era muito difícil. Vivíamos no limite, comenta. O irmão mais velho foi obrigado a aprender a profissão de sapateiro logo cedo, para ajudar a família com as despesas. Ele morreu em 2000, aos 65 anos, vítima de câncer.
Segundo Mario, pelos relatos que ouviu da mãe e irmãos mais velhos, o pai era muito nervoso. Tinha o temperamento explosivo, principalmente, devido à guerra. Minha mãe dizia que ele tomava injeção de coragem na guerra. Meu pai sofreu muito, diz. Segundo o aposentado, o pai comia cascas de batata para sobreviver e sobras que eram aos porcos. Mario frisa que seu pai voltou da guerra esquelético, pesando apenas 45 quilos e com a barba escondendo o rosto. O sofrimento já incorporava sua alma.
A viagem
A irmã de Mario, Giuliana Ceccato, 70, mora hoje em Araruna. Ela se recorda perfeitamente de como foi a viagem. Giuliana comenta que o Marcopolo era um navio luxuoso. Muito grande. Com salas de cinema, teatro e barzinhos. Nós [as crianças] corríamos por todo o navio brincando, lembra. Ela recorda que quando o navio chegava aos portos os tripulantes jogavam moedas à beira mar e os pescadores mergulhavam atrás dos níqueis. Eles mergulhavam e pegavam a moeda no fundo do mar com a boca. Nunca me esqueci disso, relata. Eu tenho saudades.
Giuliana revela que foram 15 dias de viagem pelo Oceano Atlântico. Para embarcar, a família ficou um ano em uma espécie de acampamento do governo para fazer exames e tomar as vacinas antes de seguir ao Brasil. A viagem foi tranquila, avalia.
Ela recorda-se da vida na Itália. Segundo Giuliana, no inverno, todos ficavam no estábulo junto aos animais. O frio era muito rigoroso. Era uma maneira de nos aquecermos, diz. Conforme ela, quando o pai chegou da guerra em meados de 1945, tinha medo de olhar para ele. Ele estava muito barbudo e magro. Eu não ficava nem perto dele. Ela também comenta do temperamento agressivo do pai, totalmente antagônico ao da mãe. A mãe era bastante calma. Hoje ambos são mortos já há mais de 26 anos.
Giuliana faz outra revelação surpreendente. Até hoje, ela e os irmãos votam na Itália, por correspondência. A última vez foi em outubro do ano passado. Eles encaminham os documentos e votamos normalmente por aqui mesmo, completa, acrescentando que jamais deixou de sonhar um em voltar ao país europeu para relembrar sua infância.
Mario Ceccato, da Itália para C. Mourão
Após passar por vários municípios no interior do Estado, foi em Campo Mourão que Mario Ceccato criou raízes. Ele chegou a cidade no fim da década de 70, onde vive até hoje. Campo Mourão ainda era menina. A cidade iniciava o progresso.
Ceccato deixou sua família em Araruna e veio apenas com a esposa. Hoje tem família. É pai de quatro filhos. Mário diz que sofreu muito em sua chegada a Campo Mourão. Inicialmente viveu de bicos de pedreiro. Com o tempo conseguiu um emprego de motorista de caminhão, profissão na qual se aposentou. Foi uma época bastante sofrida. Vim para a cidade casado e não tinha muita opção de trabalho, recorda.
Ceccato não tem estudos. Ele fez apenas a segunda série do primário. O aposentado diz duvidar se escolha da família, de vir ao Brasil, tenha sido a melhor coisa para ele. Sofri demais na lavoura. Foram tempos difíceis. Talvez até mais do que na Itália, acredita.
Serviço
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