Abandono marca vila rural; só metade continua produzindo

Há quase 15 anos, 49 famílias receberam um terreno de cinco mil metros na Vila Rural Flor do Campo, na PR 558, saída para Araruna. Hoje, pelo menos 50% deles não estão mais morando nos lotes. Em alguns casos, a venda seguiu as normas da Cohapar, em outros foi o chamado contrato de gaveta, quando o imóvel continua no nome do antigo proprietário. Para aqueles que viram na Vila Rural a chance de uma vida nova, a ideia de vender é inconcebível. Hoje vivem lá cerca de 300 pessoas.

Na varanda, com o sol refletindo na grama, ‘dona’ Deusa conversa com o neto Vitor, de 12 anos. O garoto nasceu ali, mas mudou com os pais para a cidade alguns anos depois. Durante as férias escolares, o ‘sítio’ dos avós é o destino preferido. Cresci aqui e é tranquilo. Você pode andar sem medo, comenta o menino.

A avó foi uma das beneficiadas pelo sorteio realizado pela prefeitura há mais de 14 anos. Mudou com toda a família, que na época era formada por nove pessoas. Alguns casaram, tiveram filhos e acabaram saindo da Vila Rural. Hoje moram apenas quatro na casa. O terreno tem de tudo: milho, ervilha, hortaliças, galinha, pato e cachorro. A gente cuida de tudo um pouco, relata Deusa. A produção é somente para consumo, já que segundo ela, não sobra para vender. A situação piorou com as chuvas registradas em junho. Com toda aquela água, não deu muito boa a qualidade não.

Mesmo com os problemas, se a alegria de tirar o alimento da terra não fosse suficiente para ela continuar na Vila Rural, a posição firme do marido seria o motivo. Meu marido não vende por nada. Ele diz que não sai fácil daqui não, esse é o sossego dele, brinca. Deusa, no entanto, explica que esse pensamento não é unanimidade. A maioria do pessoal já vendeu. O que tira não dá para as despesas do povo e vão trabalhar na cidade, acabam ficando, lamenta.

Algumas casas abaixo, a família Pereira é outra que não consegue entender a venda irregular. Acho que é gente que não valoriza. Não consegue ver como é bom isso que a gente tem, comenta Luzia Justino Pereira. A matriarca da família recebeu o terreno na mesma época de Deusa. Quando mudaram eram aproximadamente 10 pessoas, mas ao contrario da vizinha, o tempo fez a família se multiplicar. Com noras e netos já são mais de 20 pessoas. Para que todos fiquem bem acomodados, a data já abriga quatro casas. Não sei como seria a vida se não fosse aqui. Se estivesse em um terreno na cidade não tinha como ter meus filhos perto de mim, reforça.

Para manter a família, seis pessoas trabalham fora da Vila e a casa abriga uma pequena confecção. A nora, Maria Aparecida Schott, recebe os pedidos de uma firma e produz em casa. Quando está pronto, os representantes da empresa recolhem. Mas além do trabalho, todos ajudam na plantação. O que mais tem é café, mas temos frutas também. Aqui, a gente não troca e nem vende, enfatiza o filho Paulo César Pereira, 19 anos, que está na Vila Rural desde os oito. Da vida antes, ele não gosta muito de lembrar, moravam na Vila São Francisco de Assis. Mas era casa de lona, era favela mesmo.

Compra legalizada  x Contrato gaveta

Há sete anos, Maria Haracenko e o marido se inscreveram pela Cohapar. O processo foi bem simples. Eles fazem entrevista com os interessados para ver se tem ligação com o campo. Ele chegou onde eu morava e viu que eu tinha um monte de coisa plantada, mesmo sem ter espaço. Ele falou que a gente iria se dar muito bem por aqui, conta.

O terreno já possuía algumas frutas e o casal investiu na compra de outras. Sem contar as sementes que a gente consegue. No pomar, uva, figo, graviola, laranja, tangerina, manga, acerola, limão, jaca, entre tantas outras. Além disso, são plantados um pouco de milho, café e ginseng. O ginseng e a polpa de acerola a gente vende um pouco, conta orgulhosa. Segundo ela, mesmo tendo comprado, não importa a proposta, eles não vendem. Isso não tem preço, só saio daqui agora se me levarem. E é direto para o cemitério, graceja.

A tranquilidade de Maria não é a mesma de outro morador recente da Vila. Como não passou pela compra formal, prefere não ter o nome revelado. Ele conta que a proposta foi feita por uma família que não conseguia mais pagar as prestações e queria tentar a vida em outra cidade. Era o que eu podia pagar e arrisquei. Sei que arrisquei, mas para mim valeu.

Terras improdutivas

Criado para resolver o êxodo rural, as propriedades devem, por definição, produzir para a subsistência e se possível, para a renda da família. Apesar disso, essa não é a realidade em todos os lotes. Além de fugir do objetivo inicial, o abandono cria problemas para quem pretende manter a terra com frutos. Na casa dos Pereira mesmo, o problema são as formigas. A gente aplica veneno na nossa, mas como é muito perto dos outros lotes, quando não há cuidado lá, a infestação não diminui. Aí chega uma hora em que o custo é bem maior do que a gente pode arcar, afirma Valdino Pereira.

A revolta em relação aos terrenos improdutivos também é destacada por Deusa. Tem gente aqui que não planta um pé de cebolinha para fazer o almoço, deixa o mato avançar solto, lamenta a aposentada.

Vila Rural, um projeto estadual

De acordo com o Ipardes, a Vila Rural faz parte do Projeto Paraná 12 meses, implementado com recursos do acordo de empréstimos firmado entre o Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) e o Governo do Paraná, em dezembro de 1997. Contudo, as Vilas Rurais paranaenses já vinham sendo implantadas desde 1995, após um projeto para amenizar as migrações do campo para a cidade. O modelo de ‘assentamento’ foi implantado principalmente nos locais onde o processo de tecnificação agrícola apresentou-se mais intenso.

O programa tinha como meta minimizar o êxodo rural que continuava crescente e consequentemente ampliava o favelamento. Além disso, deveria assegurar a mão de obra no campo mantendo dessa forma uma reserva para as agroindústrias e empresas rurais.