B. Ferraz, a cidade que já foi capital da menta

Quem vê Barbosa Ferraz hoje, com 12,6 mil habitantes, segundo último censo do IBGE de 2010, jamais imagina que a cidade chegou a ter seus 78 mil habitantes até meados da década de 70. Atualmente, a economia do município gira em torno da agricultura. Porém, há 62 anos, época considerada de ouro para a cidade, sua base econômica, acreditem, era a hortelã. Barbosa chegou a ficar mundialmente conhecida como a capital da menta. Segundo registros, o cultivo de hortelã se expandiu na cidade após uma forte geada em meados de 50. As plantações de café, até então predominantes na região, foram completamente destruídas. Iniciava-se um novo ciclo. O da era da hortelã.

O pioneiro aposentado, Luiz Kretzleer, 67, afirma que o município viveu seu auge naquele período. De carroças, trator, e às vezes caminhão, ele transportava a hortelã até os alambiques. Da planta se extraia o óleo, utilizado principalmente na indústria farmacêutica e para refrigeração de motores e turbinas de aeronaves. O líquido era levado a Presidente Prudente (SP). De lá, seguia mundo a fora. Grande parte do óleo era destinada à exportação.

Embora o ciclo da hortelã tenha durado cerca de 25 anos, Kretzleer informou que era grande a quantidade de dinheiro movimentada na cidade. Fortunas, segundo ele. A cidade tinha tudo para ser outra hoje. Girou muito dinheiro por aqui, lembrou. Ele acredita que muitas pessoas ganharam dinheiro com a hortelã no município, mas se mudaram ou investiram em outras cidades. Sábado e domingo a cidade ficava igual formigueiro. Era muita gente. O comércio era muito movimentado, disse. O aposentado lamenta o fato de a cidade não ter se desenvolvido.

Kretzleer falou que sente saudade dos velhos tempos. Uma época que jamais voltará. O trabalho era pesado, braçal. Mas o dinheiro no bolso nunca faltava, disse o pioneiro. Hoje ele vive de lembranças. É um tempo gostoso. Que ficou para trás. Era uma vida boa, bastante trabalhada, mas farta, frisou.

O aposentado revelou que a cidade chegou a contar com mais de 100 alambiques de hortelã. A produtividade era alta. A safra era colhida a cada 90 dias. Em termos de produção, segundo o pioneiro, cada colheita rendia em média 40 mil litros de óleo. O litro do produto chegou a custar R$ 130 cruzeiros, um bom dinheiro para a época.

Quem também recorda os velhos tempos, é o pioneiro Siegmund Hollatz, 94. Hoje ele está na cama devido a problemas de saúde. Sofreu mais de três derrames, mas ainda luta para viver. Ele é forte. Sente dificuldades até para falar. As poucas palavras que pronuncia são traduzidas pela filha Anita. Hollatz ficou bastante conhecido na cidade por fabricar alambiques. Ele era expert no assunto. O pioneiro chegou à cidade no início da década de 50. Com a ajuda dos filhos, Hollatz recordou que 90% da economia do município era basicamente da hortelã. Segundo o pioneiro, o dinheiro chegava à cidade de avião. As bolsas eram jogadas em um campo de futebol. Era o pagamento dos produtores.

Siegmund pouco pode falar. Ele já está bastante debilitado. Por telefone, o filho, Helmute Hollatz, comentou que o ciclo da hortelã durou pouco – cerca duas décadas e meia. O motivo, explicou, é que a hortelã sugava a fertilidade da terra de tal maneira que chegou a ponto de a planta não se desenvolver mais. A planta fica pequena e produz pouco óleo, explicou ele por celular. Atualmente Helmute mora em Campo Grande, no Mato Grosso. Mas disse que até hoje recorda com saudades daquela época. Foi realmente um período muito bom. A cidade tinha de tudo para ter outro panorama hoje. Mas infelizmente parou no tempo, lamentou.

Um gênio chamado Siegmund Hollatz

Rua José do Trigo Barbosa Ferraz. Mais especificamente Chácara do Alemão. No local mora o pioneiro Siegmund Hollatz. Aos 94 anos, Hollatz já deixou sua história no município. Fez o que poucos conseguiram. Ele foi um gênio na fabricação de alambiques de hortelã. Tem inclusive patente registrada em seu nome. Hollatz já fabricou mais de 100 alambiques. Atualmente, devido à saúde comprometida, mal sai da cama. Deixou de produzir as máquinas.

Segundo o filho, Helmute Hollatz, o pai possuía uma pequena fábrica no município. Chamava-se Fábrica de Alambique Siegmund Hollatz & Filhos. Siegmund é descendente de alemão, nasceu em Nova Trento, interior de Canta Catarina. Chegou a Barbosa Ferraz em meados de 1.954. Cerca de um ano depois, a cidade iniciava o ciclo da hortelã, que durou até meados de 75. Siegmund fabricou alambiques por pelo menos 20 anos.

Segundo o filho, o pai entregava ao mês dois alambiques. A produção era vendida também a outras cidades do Brasil e até países de fora, como Paraguai. O pai teria iniciado a jornada após visitar um alambique em Presidente Prudente, interior de São Paulo. Interessou-se pelo funcionamento do utensílio e, seguindo os mesmos princípios, fez sua própria criação. Na época ele viu que o alambique era muito precário e tinha uma perda de aproximadamente 50% da produção. Então, ele aperfeiçoou e praticamente zerou as perdas, disse o filho. Foi uma revolução no segmento.

Siegmund fez escola técnica em Blumenau, Santa Catarina. Sua infância foi sofrida. É filho adotivo. Foi adotado por uma família alemã aos cinco anos. Segundo o filho, o pai tem autoconhecimento em física, química, matemática e mecânica. Antes de iniciar a produção de alambiques, Siegmund era funileiro.

Até hoje, ele possui no quintal de sua casa uma réplica de um alambique. O equipamento funciona perfeitamente. É como se fosse um mini-alambique. A máquina foi projetada para o filho, que a apresentou em uma exposição quando ainda estudava no Colégio Agrícola em Ponta Grossa, em meados de 69. É uma réplica perfeita, cem por cento original, tem todos os parafusos que um grande alambique tem, informou Helmute orgulhoso. Segundo o filho, a réplica já passou por várias cidades do estado.

Siegmund tem cinco filhos. Como herança, deixará oito netos e cinco bisnetos. Apesar de viver no anonimato, ele é um gênio. Deu sua contribuição para o desenvolvimento da cidade. E, com certeza permanecerá na história do município. Embora ainda desconhecido por muitos.