Estação ‘ecológica’ devolve à natureza esgoto 90% purificado

Quando sai na varanda, o agricultor Eduardo Buask, vê um pequeno jardim. Cercado, com pedras e flores, poucos imaginariam que ali funciona uma estação de tratamento de esgoto. No lugar do mau cheiro, citronela que além de compor o cenário é um repelente natural. Tudo começou em 2008, com a aprovação de um projeto da Universidade Estadual do Paraná (Unespar/Fecilcam). Como seria necessário um ambiente real, 15 agricultores em Rancho Alegre do Oeste e outros 10 em Campo Mourão aceitaram que a estação fosse montada em suas propriedades e acompanharam de perto os resultados.

Quem puder fazer eu recomendo que é uma beleza, comenta animado. Segundo ele, o processo de montar a fossa é o mais complicado. Mas depois, os cuidados não são complexos, completa Buask. Sua propriedade, na comunidade de Alto Alegre, município de Campo Mourão, foi uma das que recebeu o projeto em 2009. Dois anos depois, foi preciso fazer um trabalho de manutenção e desde então, só os cuidados normais . Funciona direitinho e não tem cheiro de jeito nenhum, conta animado. 

O esgoto doméstico não tratado ainda é considerado uma das maiores fontes de poluição dos corpos hídricos no Brasil. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico de 2008, a coleta por rede geral passou de 52,2% dos municípios em 2000 para 55,2% em 2008. Os números do último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que em Campo Mourão, apenas 60% dos domicílios estão ligados à rede de esgoto e outros 15% possuem sanitários com fossas sépticas. Além deles, 24% das residências possuíam sanitários, mas não souberam declarar o tipo. Em Rancho Alegre praticamente 90% dos moradores declararam ao IBGE que possuíam sanitário, mas não sabiam se estava ligado à rede de esgoto ou se havia fossa séptica. Apenas 5% sabia que a casa estava conectada com a rede.

O tratamento de esgoto não corresponde apenas à melhoria da qualidade da água, mas investimentos em saneamento reduzem significativamente os gastos públicos com saúde. A água encanada e tratada é considerada um benefício para as comunidades, mas se esse serviço não vier acompanhado de um sistema de tratamento de esgoto adequado, poderá ser ineficaz no combate a verminoses, hepatite e mesmo a diarreia. Pensando nisso, os pesquisadores responsáveis pelo trabalho desenvolvido com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) explicam que a técnica não precisa ficar restrita a propriedades rurais. Ela pode ser aplicada em residências que não estejam ligadas à rede de esgoto, explica Jefferson de Queiroz Crispim, o coordenador do projeto em Campo Mourão.

Para a estação são direcionados todos os dejetos do banheiro, cozinha e lavanderia. Ao final do processo de purificação, a água que é liberada para o ambiente está de 85 a 90% livre de coliformes fecais. O espaço utilizado também não é grande, são apenas 4 m3 por família. Esse sistema é um tratamento biológico alternativo para esgotos sanitários em regiões onde não há o esgoto convencional, completa Mauro Parolin, coordenador do projeto em Rancho Alegre do Oeste.

A estação é conhecida como E.T.E (Estação de Tratamento de Esgoto por Zona de Raízes). O tratamento utiliza um sistema físico biológico no qual há a constituição de um filtro por raízes para que haja o tratamento.

Como funciona


A estação de tratamento esgoto por zona de raízes começa com a perfuração de solo calculada em 1m2 por pessoa e 1 metro de profundidade, revestida por duas camadas de lonas plásticas de 200 micras de espessura, para evitar que ocorra a infiltração e contaminação do solo e dos lençóis de água, logo em seguida a estrutura é preenchida por uma camada de areia e outra parcela de brita.

O manual, contendo o passo a passo da montagem da estação foi publicado e entregue a 50 universidades. Outros exemplares serão encaminhados às escolas e a pequenos agricultores. Quem tiver interesse em conhecer o manual, pode acessar o blog do Grupo de estudos do Meio Ambiente (http://gemafecilcam.blogspot.com.br) e baixar o arquivo no link: http://www.fecilcam.br/editora/arquivos/estacoes_tratamento_esgoto.pdf