Maracujá garante renda e permanência no campo

Um dos principais problemas da agricultura familiar é a competição com as grandes lavouras, que diluem os custos de produção e conseguem garantir lucro pelo volume comercializado. Sem perspectiva de melhoras, muitos deixam o campo para procurar emprego na cidade. Em Corumbataí do Sul e Barbosa Ferraz esse é um cenário ultrapassado e a solução foi a fruticultura. Há mais de 10 anos, a Associação dos Produtores de Corumbataí do Sul (Aprocor) – e mais recentemente a Cooperativa Coaprocor – trabalham para melhorar a renda dos seus cooperados e consequentemente, mudar a realidade dos pequenos municípios donos de um dos piores índices de desenvolvimento humano do Estado. Há um mês, para agregar valor foi iniciada a industrialização e em 30 dias já foram produzidas mais de 40 toneladas de polpa congelada.

A Aprocor foi fundada em 1997, mas antes disso, os agricultores já estavam reunidos em uma associação pecuária. O objetivo na reestruturação do estatuto era garantir a comercialização do café, cultura predominante na região de Corumbataí do Sul. Com a crise internacional do café e duas geadas fortes, em 1998 e 2000, foi preciso buscar alternativas e isso culminou com a plantação de maracujá ao lado dos pés de café. O produtor precisava dessa renda até para recuperar as lavouras de café no município, explica o secretário da cooperativa, Carlos Alves de Souza. O maracujá demanda baixo investimento e tem retorno rápido. Com um ano ele já produz.

No primeiro ano foram colhidas três toneladas e desde então a produção na para de crescer. Até 2003 a Coaprocor não comercializava o maracujá In Natura, que é vendido para os mercados. Trabalhávamos apenas com a indústria. Desde que negociaram com as Centrais Estaduais de Abastecimento (Ceasa) foi preciso aumentar o volume. Nós estamos há 10 anos com uma evolução crescente. Hoje colhemos quase dois milhões de quilos entre maracujá para mercado e a indústria. Tanta produção colocou Corumbataí do Sul como o principal produtor do Estado, segundo o Ipardes – Instituto Paranaense de Desenvolvimento.

Souza lembra que quando os produtores de municípios vizinhos viram os resultados, acabaram se interessando pelo cooperativismo e hoje são mais de 600 cooperados dos municípios de Corumbataí do Sul, Barbosa Ferraz, Fênix, Nova Tebas, Peabiru, Godoi Moreira e Iretama. Não havia uma diversificação sólida aqui na região. A cooperativa trouxe essa diversificação e aumento de renda para o município. O café exige bastante, mas não acabou e o maracujá entra como uma renda complementar na propriedade, explica o produtor, membro da diretoria da Coaprocor e presidente da associação, Olavo Aparecido Luciano. Dentro da cooperativa a gente vê uma condição de vida melhorada e isso porque o produtor, com o apoio da comercialização conseguiu trocar de carro, reformar a casa e adquirir eletrodomésticos melhores.

Esse é o caso do produtor Nelson Mariano de Castro. Em sua propriedade, são 650 pés de maracujá, aliado aos pés de café. Para investir na fazenda precisava primeiro ter uma fazenda, nossa propriedade é pequena, brinca. No sítio onde mora com a família, ele revela que as coisas mudaram bastante desde que começou na cooperativa há sete anos. Eu tinha um carro e fui melhorando. Não tenha dúvidas que a situação está mais tranquila hoje.

Luciano ainda destacou que um dos grandes diferenciais do cooperativismo é que os agricultores fazem parte da diretoria. A gente coordena o trabalho de dentro da roça, coloca antes de explicar que o êxodo rural não continuou no município. Vejo que o produtor tem condição de viver tranquilamente com um salário na área rural, até melhor do que seria na cidade.

Vila Rural em Barbosa Ferraz, um caso de sucesso

Há apenas 15 quilômetros de Corumbataí, na Vila Rural Novos Caminhos, município de Barbosa Ferraz cada propriedade tem cinco mil metros quadrados. Nesse espaço, cerca de 90% dos moradores tiram o sustento das famílias com o cultivo do maracujá e toda a produção é entregue para a cooperativa. Lá, os moradores tem obtido uma renda por safra de aproximadamente 20 mil reais. O mais interessante é que de novembro a agosto o dinheiro cai semanalmente na conta, relata Souza. Na Vila Rural existem 46 lotes. Como é Vila Rural, eles não tem muita alternativa. A vantagem do maracujá é que tem segurança. Se produzir tem para quem vender. É uma venda sem risco de perder dinheiro, finaliza.   

Natura, consumidor assíduo

Há três anos, parte da produção ganhou um destino certo. No primeiro ano, a empresa Natura Cosméticos recebeu 29 toneladas de sementes de maracujá. No segundo ano foram 50 toneladas e este ano, o contrato é de 40 toneladas. Mas a gente espera que consigamos as mesmas 50 toneladas do ano passado, diz otimista o secretário. A principal vantagem, além do fato de ser um comprador certo é a repartição de benefícios realizada pela empresa que movimenta mais a economia do município.

Além da Natura, existem alguns parceiros certos, como a Conab, por meio do Ministério de Desenvolvimento Social. Somente para o programa Compra Direta, são entregues 200 toneladas. Os projetos são importantes porque além de comprar melhor do produtor e dar garantias de continuar na comunidade isso enriquece a alimentação e diminui o risco alimentar na nossa região. Temos previsão de ampliar para quase 600 toneladas. Tudo produzido pelo agricultor familiar.

Todo o processo, inclusive a industrialização foi acompanhada por parceiros como o município de Corumbataí, a Emater, Fecilcam, Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR/CM), Governos Estadual e Federal, Conab, Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), Banco do Brasil e Sicredi.