Tradição gaúcha conquista mourãoenses

Eles não são gaúchos e não usam bombachas, botas ou lenço no pescoço. Nem ao menos torcem para Grêmio ou Internacional, os principais times do Rio Grande do Sul. Mas em casa, pelo menos uma tradição não falta: o lendário chimarrão. Seo Estefano Domanski, tem 90 anos, e há 30, simplesmente ‘viciou’ na bebida. Em casa ou na loja, que mantém no centro da cidade, a cuia com erva-mate é sua companheira inseparável. Tomo todo dia, por volta das 10 horas. É sagrado. Também recebo muitos amigos gaúchos, que chegam na loja para me acompanhar no chimarrão, conta ele, que é paranaense, natural da cidade de Marechal Malet.

Na Vila Guarujá, a dona de casa Dirce da Silva Fernandes, 43 anos, também não passa um dia sem a bebida. Até seus filhos adolescentes passaram a dividir a cuia com ela. Aprendi com uma vizinha (já falecida, segundo ela), há mais de dez anos e hoje não passo um dia sem o chimarrão. Até meus filhos passaram a me acompanhar, menos o marido. Ele não gosta, mas não deixa faltar a erva para mim, diz ela.

A filha, Elísia Maria Fernandes, 16 anos, confirma o hábito não tão comum entre os mais jovens. As pessoas chegavam em casa para tomar chimarrão com a mãe e eu fui provando também. Aprendi a gostar, mas não pode ser muito forte. Deixo para tomar após a terceira ou quarta cuia, diz a adolescente.

Na casa de Dirce, a bebida é preparada tanto na cuia quanto em uma xícara grande. Tomo também na xícara, o gosto é o mesmo. Por aqui tenho várias vizinhas que gostam e quando não estamos em minha casa, vou até a casa delas. Todos tomamos, pelo menos três vezes ao dia. É uma forma de a gente se distrair um pouco e conversar mais, afirma. Seu companheiro, João Aparecido Fernandes, 44 anos, aprecia um outro costume muito comum entre os gaúchos, que é o churrasco, nos finais de semana. A gente sempre compra carne para assar nos finais de semana. O churrasco é bom a qualquer momento, diz ele.

Só aos amigos

Na casa de Seo Domanski, a carne assada também faz parte do cardápio nos finais de semana. Quem não gosta de uma boa costela assada?, pergunta ele. O bom churrasco ele saboreia com familiares, parentes e amigos, mas quanto ao chimarrão ele é categórico: Chimarrão eu só sirvo para as pessoas conhecidas. Gente estranha não prova da minha cuia. Tem que ser entre amigos e parentes. Chegou [sic] pessoas estranhas, encosto a cuia e acabou, afirma.

Seo Domanski tem quatro filhos, e apenas uma filha mora em Campo Mourão. Todos seguiram os hábitos gaúchos do pai. Quando a gente se reúne sempre tem chimarrão e churrasco. Tomo cerveja, mas sem álcool, explica. O curioso na família do empresário, é que sua esposa, que é gaúcha, não aprecia nenhum dos hábitos riograndense. Nunca gostei de chimarrão ou churrasco, diz dona Assumpta Domanski, nascida em Bento Gonçalves (RS). Ela se mudou para Santa Catarina, aos 16 anos, onde conheceu Estefano. Casaram-se e estão em Campo Mourão há 62 anos. Quando cheguei em Campo Mourão, só havia 35 casas na cidade, afirma ele.

Exigente, Seo Domanski passa até a receita para que a bebida fique mais saborosa. Segundo ele, o segredo está na erva e no preparo. A erva tem que ser de boa qualidade e grossa. Após preparar a erva na cuia, tem que agitar bem e depois colocar um pouco de água morna. Em seguida introduz a bomba e pronto, ensina.

Principais hábitos gaúchos

O chimarrão ganhou fama entre os gaúchos por conta de um hábito dos indígenas quíchuas, aimarás e guaranis. É composta por erva-mate e água, e artisticamente servida em cuia, sendo tragado por uma bomba.  Outra vertente que merece destaque quanto aos costumes gaúchos está na alimentação. O tradicional churrasco e o chopp gaúcho, conhecidos como os melhores do Brasil, têm influência dos colonizadores alemães.

E, por fim, o mais lendário de todos: o chimarrão. A bebida é composta por erva-mate e água quente, e artisticamente servida em uma cuia e uma bomba, além de ser também muito apreciada por parte da Bolívia, Chile, Uruguai, Paraguai e Argentina.

Quem gosta de viajar pelo Brasil sabe que a cultura de um gaúcho é bastante rica, assim como todo o resto do povo brasileiro, seja nas vestimentas, palavras, expressões, sotaque, alimentação e até no clima que predomina na região. Antigamente existia uma significante influência europeia nas vestimentas dos gaúchos, como peões bombacha e saia para prendas. Hoje, pode-se dizer que mais da metade da população gaúcha deixou de lado os seus hábitos tradicionais de vestimentas.

A origem desse povo foi objeto de estudos da Fundação de Amparo às Pesquisas do Estado de São Paulo (FAPESP) que mostrou que os gaúchos, assim como a maioria dos brasileiros, são descendentes de uma mistura de europeus, índios e africanos, mas com algumas peculiaridades. A pesquisa apontou que os principais ancestrais dos gaúchos eram principalmente os espanhois e não os portugueses. Isso porque durante muito tempo a região foi disputada por portugueses e espanhois, sendo que só foi transferida para Portugal em 1750. Além disso, o estudo também revelou que há uma certa porcentagem de miscigenações entre indígenas e africanos junto aos europeus. Para mais, existem outras vertentes sobre a cultura trazida pelos imigrantes alemães e italianos.